4 de junho de 2026

O roteiro de dogmas da bossa nova

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Enviado por Laura Macedo

Comentário referente ao post “O samba brasileiro é música de branco”

No início da criação do BLN (2008), o Nassif abriu um grupo de discussão: “Os dogmas da Bossa Nova”.

“Os dogmas foram levantados por mim anos atrás, quando pensava que acharia tempo para escrever um livro sobre a Bossa Nova, a quatro mãos com o Zé Rodrix. Não deu tempo. Fica aí o roteiro de dogmas para quem quiser se habilitar”.

Abraços a todos.

Deixo o link para os interessados no asunto:

Os dogmas da bossa nova

Por Luis Nassif

Os dogmas abaixo foram levantados por mim anos atrás, quando pensava que acharia tempo para escrever um livro sobre a Bossa Nova, a quatro mãos com o Zé Rodrix.

Não deu tempo. Fica aí o roteiro de dogmas para quem quiser se habilitar.

Dogma 1 — A BN significou uma ruptura na música popular brasileira.

Tomaremos depoimentos de músicos da época, particularmente os que surgiram antes da BN, para avaliar corretamente o que mudou na sua música com o movimento.

Vamos nos basear preferencialmente em depoimentos ao vivo. Fontes preferenciais: Billy Blanco, Johnny Alf, Tito Madi, Os Cariocas e instrumentistas diversos da época. Podemos traçar uma linha do tempo, a partir de 1945, com as músicas que já continham os elementos harmônicos básicos da BN.

Dogma 2 — A BN representou a vitória do bom gosto sobre o estilo derramado em voga.

Vamos tentar comparar vendagens de discos nos anos 40, 50, 60 e se necessário 70, dividindo o mercado entre a pretensa música culta e a música popularesca.

A intenção é levantar se, no período da BN, houve um aumento da participação da música culta ou não.

Se não houve, a comprovação é a de que a BN cumpriu um papel de música culta da mesma maneira que o samba canção, antes dela, e a MPB depois — ou muito menos.

Seria interessante se pudéssemos comparar também com clássicos da música brasileira em outros períodos, quando a chamada música culta (aquela que integra hoje em dia os clássicos da MPB) conseguia a um só tempo qualidade e penetração popular.

Dogma 3 — a BN foi sepultada pela infatilização da música brasileira, com a entrada da música jovem.

Tentaremos levantar toda a fauna que surge em função da BN, os lançamentos oportunistas e mostrar que o “mercado” tentou explorá-la da mesma maneira que à Jovem Guarda. Se não conseguiu não foi em função de nenhum estilo mais elaborado, mas porque a criatividade do movimento se esgotou e a BN se banalizou.

Podemos mostrar também que a BN foi caudatária da conquista do público jovem, na esteira do que era oferecido pelo mercado americano. é o período da Juventude Transviada, das namoradinhas de Hollywood, da Cely Campello.

Mas a BN também trazia esse apelo, ainda que se dirigisse a uma juventude pretensamente intelectualizada.

Dogma 4 — a BN inaugurou o estilo cool em todas as manifestações culturais e sociais da época, que não existia anteriormente.

Mostraremos que, desde os anos 40, a elite brasileira começara a se modernizar, a buscar a limpeza e o clean.

Mostraremos a evolução da arquitetura e da decoração no Rio (já escrevi sobre isso), as mudanças na poesia, com a geração de 42, a música dos conjuntos vocais, o aparecimento de Caymmi, a simplicidade sofisticada do samba sincopado, e a evolução harmônica e temática do samba-canção. E a larga tradição de letras não rebuscadas da música brasileira pré-bossa nova.

Dogma 5 – A produção da BN foi a mais rica e sofisticada da música brasileira

Vamos tentar romper com a visão repetitiva e convencional de que a BN foi fruto da influência do jazz e de Debussy e tentar mostrar que a maioria das canções relevantes da BN não podiam ser classificadas como BN pura.

Para isso, teremos que discutir uma metodologia para identificar o que é samba canção, samba choro, samba sincopado e o que é BN pura. Aí poderíamos fazer uma linha do tempo com as músicas mais expressivas, tidas como BN e conferir se eram de fato.

Feito isso, separaríamos as músicas BN típicas para delimitar claramente a sua abrangência e importäncia. Acho que vai aparecer uma infinidade de composições menores de compositores menores: a fauna que gravitou em torno do movimento, não conhecia a música popular pré-BN e acabou por produzir uma música inexpressiva.

Cintia Alves

Cintia Alves é jornalista especializada em Gestão de Mídias Digitais e editora do GGN.

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5 Comentários
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  1. altamiro souza

    24 de dezembro de 2015 2:17 pm

    mário reis,  o genio 

    mário reis,  o genio  incontestável de pixinguinha,  depois noel, ary,

    etc e tal, do período da era do ouro da mpb são importantes.

    um dos aspectos mais importantes, claro, é a existencia de vinicius e tom, genios ..

    e a decisão que me parece marcou a cultura brasileira

    > vinicius decidiu ser popular.

    já era considerado um grande poeta, mas saiu da poesia  apenas escrita

    para a poesia musicada do amor que tanto conhecemos e que influenciou gerações….

    e dizem que a poesia concreta tb influenciou, além  do jazz e james dean ,

    chet baker, o anjo que desceu do inferno, etc e tal, claro…

     

     

  2. mcn

    24 de dezembro de 2015 2:32 pm

    Oi, Laura.
    O assunto é bom,
    Oi, Laura.
    O assunto é bom, mas é bem mais complicado que parece, pelo menos, para mim.
    O dogma 5, por exemplo. Músico bom escuta de tudo.
    Pixinguinha ouvia música americana e compôs muitos ritmos americanos. Os 8 Batutas fizeram uma turnê de 8 meses em Paris. Voltaram com muitas influências do jazz parisiense, inclusive na instrumentação, com Pixinguinha tocando sax, na bateria, no jeito de se vestir, mas sem nunca perder a brasilidade.
    O violinista Chiquito Braga e a sua turma, em BH, ouviam jazz e os impressionistas franceses, como Tom Jobim. Depois ficavam tentando reproduzir os acordes. Os grandes do Clube da Esquina nasceram desta escola, mas ouviram Beatles tb, e criaram algo totalmente novo, com uma riqueza harmônica até maior que a BN tradicional.
    Músico bom escuta de tudo, mas devolve ao mundo, na sua criação, algo novo e muito melhor.
    O próprio Jobim, me parece, criou mais coisa fora que dentro da BN. A partir de um ponto, já nos EUA, ele meio que saiu da praia e se meteu no mato. Matita Pere, Chovendo na Roseira (que no original tinha outro nome), há a imensidão de coisas lindas que ele compôs na fase pós BN e que ainda permanecem pouco ouvidas, pouco estudadas.
    Voltando ao tema, na BN, como nos outros casos que citei, há uma dimensão de genialidade de alguns criadores do movimento que não comporta dogmas ou regras ou classificações. É música brasileira de alto nível, única no mundo. Talvez o velho Mário de Andrade consiga explicar esse mistério “antropofágico”.
    O que sei é que nós somos o povo mais privilegiado do mundo.

  3. Urariano Mota

    24 de dezembro de 2015 2:44 pm

    É mato fechado

    É uma discussão que leva a mato fechado e nem sempre com bússola ou guia. Mas ainda que não tenha a competência de pesquisa de Nassif na área, dou alguns pitacos:

    “Dogma 1 — A BN significou uma ruptura na música popular brasileira.

    Tomaremos depoimentos de músicos da época, particularmente os que surgiram antes da BN, para avaliar corretamente o que mudou na sua música com o movimento.

    Vamos nos basear preferencialmente em depoimentos ao vivo. Fontes preferenciais: Billy Blanco, Johnny Alf, Tito Madi, Os Cariocas e instrumentistas diversos da época. Podemos traçar uma linha do tempo, a partir de 1945, com as músicas que já continham os elementos harmônicos básicos da BN”.

    Eu creio que houve uma ruptura, não só pela experiência vivida em minha infância, quanto pelos depoimentos de compositores fecundados por ela. Olhem por exemplo o que dizem Edu Lobo, Caetano Veloso, quando lembram o que sentiram ao ouvir pela primeira vez Chega de Saudade, com João Gilberto. No Recife, ouvíamos a Rádio Tamandaré, cujo bordão era “música, somente música, e um só anúncio por intervalo”. E quando ouvimos João Gilberto foi uma das coisas mais esqusitas e agradáveis de esquisito que ouvimos. Mas a observação de Nassif toca em um ponto crucial: ruptura não é a redução a zero do que houve antes. Isto é, onde há ruptura há também continuidade. É a mudança na tradição. E já havia um João Gilberto, na interpretação, antes de João Gilberto. Penso em Mário Reis, “não se deve amar sem ser amado…”, com aquela divisão silábica e voz pouco “máscula”, tão distante de Vicente Celestino, o cantor que estourava lustres no teatro com a sua voz.  E, de fato, Johnny Alf foi um revolucionário, BN antes da BN. 

    “Dogma 2 — A BN representou a vitória do bom gosto sobre o estilo derramado em voga.

    Vamos tentar comparar vendagens de discos nos anos 40, 50, 60 e se necessário 70, dividindo o mercado entre a pretensa música culta e a música popularesca”.

    Isso é verdade, muito verdade. Quem deu esse aval novidadeiro à BN  foi o verborrágico Ferreira Gullar, que em Vanguarda e Suibdesenvolviemnto, salvo engano, se referia aos “trinados constrangedores de Dalva de Oliveira”. Gullar, nesse juízo de valor mais uma vez, é um fazedor de frases cuja gracinha  dá as costas à ciência. Ora, Dalva foi uma das nossas maiores cantoras, divina e eloquente como intérprete da dor, de cotovelo e do coração. Por que se referir a ela de tal maneira? E em que lugar, pergunto a esse torneio de bom gosto, ficaria a música de Lupicínio Rodrigues? Nesse particular, quem melhor viu o lugar de Lupiucínio foi a vanguarda poética dos irmãos Campos. “Bom gosto metido a”, deveria ser dito. 

    “Podemos mostrar também que a BN foi caudatária da conquista do público jovem, na esteira do que era oferecido pelo mercado americano. é o período da Juventude Transviada, das namoradinhas de Hollywood, da Cely Campello.”

    Não, aqui a nossa discordância é grande. Nada mais oposto a Celly Campelo que João Gilberto. A infantilização do jovem estava a anos-luz de distância de um músico de gênio, marxista antes que a esquerda fosse a referência dos filhos da BN. (Ver, a propósito, o que o grande Carlos Lyra fala sobre as posições políticas de João Gilberto. Ou será Sérgio Ricardo quem fala?)

    “Dogma 4 — a BN inaugurou o estilo cool em todas as manifestações culturais e sociais da época, que não existia anteriormente.

    Mostraremos que, desde os anos 40, a elite brasileira começara a se modernizar, a buscar a limpeza e o clean.

    Mostraremos a evolução da arquitetura e da decoração no Rio (já escrevi sobre isso), as mudanças na poesia, com a geração de 42, a música dos conjuntos vocais, o aparecimento de Caymmi, a simplicidade sofisticada do samba sincopado, e a evolução harmônica e temática do samba-canção. E a larga tradição de letras não rebuscadas da música brasileira pré-bossa nova”.

    Putz, falou e disse. Tiro na mosca. Noto, de passagem, que esse parágrafo ilustra à perfeição o que mencionei antes sobre ruptura e continuidade.

    “Dogma 5 – A produção da BN foi a mais rica e sofisticada da música brasileira

    Vamos tentar romper com a visão repetitiva e convencional de que a BN foi fruto da influência do jazz e de Debussy e tentar mostrar que a maioria das canções relevantes da BN não podiam ser classificadas como BN pura.”

    Aí me calo. O que Nassif tem pesquisado e  recolhido sober Garoto e outros bambas fala mais alto. 

    Olhem, pra um pitaco já fui longe demais. Fui. 

  4. Cris Kelvin

    24 de dezembro de 2015 3:41 pm

    Em quem sabe, então, a Bossa será…

    D1 –  A Bossa não é uma ruptura, mas uma antropofagia que convergiu influências a novo modo de tocar.

    D2 – Era uma música regional e socialmente circunscrita a um certo extrato social. Ouço ecoar o preconceito de Rui Castro com relação à música de  Luiz Gonzaga que – antes da adesão de certa  juventude ao violão – levou muita gente ao estudo do acordeão.

    D3 – Infatilização talvez não seja o termo. Tem a ver com cultura de massa, comunicação pela média, que ganhou força a partir dos anos 60, a par do rock, tendo os Beales como expressão máxima de divulgação em larga escala.

    D4 – Não sei a que elite se refere. Intelectual? Nos extratos econômicos mais elevados, a tendência é naturalmente conservadora, a cortejar os lugares cristalizados pela tradição.  Até porque cultura não costuma ser o foco.  Ta certo, Caymmi; Noel simplificou as letras, mas há (D1) um fluxo histórico compondo organicamente o destino  por mistura e interação  na cadeia causal da necessidade. Como uma gota de vinho ligada a todas as partes do mar. 

    D5 – Desconfio da serventia das classificações.  Bossa nova é um modo de fazer, de interpretar, inclusive, conferindo outra feição ao original.  Bossa pura (?)  talvez só exista onde a criação partiu do próprio ritmo.

    Ia postar “Amar é Bom”, dos Garotos da Lua com JG (1951/52) para denotar esse “cantar contra o tempo”, caracteristica do movimento.  Mas opto por aquilo que permitiu ao mestre Chico a simplicidade de cantar em prosa:

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=59P64-TtOKY%5D

     

  5. antonio rodrigues

    25 de dezembro de 2015 12:18 pm

    A Bossa Nova aconteceu, alem

    A Bossa Nova aconteceu, alem de outros fatores, em decorrencia do momento politico que viviamos no final dos anos 50 e começo dos 60.

    O Brasil culturalmente fervia.

    Descobrimos o vigor cultural da Bahia, da arte popular de Pernambuco, a nossa capacidade de fazer cinema, teatro, arquitetura, poesia. Percebemos que nas favelas não havia apenas pobreza, mas muita cultura.

    Tivemos um presidente, como Juscelino, que saia dos palacios para conversar com os artistas, lhes dando apoio.

    Muitas são as fotos dele sentado ao lado de  pianistas, junto ao piano.

    Uma das principais razões do golpe militar de 64 foi a ascensão de nossa cultura a nivel mundial. Esse fato começou  incomodar as nações dominantes.

    Nossos generais golpistas eram uns toscos que so entendiam de porretes, tortura, cavalos e marchas, mas seus mentores estrangeiros sabiam bem o que queriam.

    Atacar o desenvolvimento de nossa cultura viva e autentica foi uma das metas.

    De inicio perdemos grandes musicos que emigraram, como Walter Wanderley, Deodatto, Do Um. Airton Moreira, Flora Purim, Don Salvador e outros.

    O desenvolvimento da cultura esta sempre ligado a ação dos canais de comunicação.

    O jornal Ultima Hora era o suporte de tudo o que acontecia de positivo no pais.

    Com o golpe, seu chefe foi um dos primeiros politicamente cassados.

    Depois de ataques de por todos os lados, acabaram por destruir a UH.

    A cultura perdeu seu alto falante.

    Ao mesmo tempo os outros veiculos de informação que apoiavam o golpe incentivavam o surgimento da “musica jovem”, do ie ie ie.

    É um grande erro afirmar que a Bossa Nova foi uma musica de elite.

    O Desafinado com João Gilberto ficou por muito tempo como campeão nas paradas de sucesso.

    Elizeth Cardozo vendia como agua.

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