4 de junho de 2026

As lições ensinadas pelos estudantes das escolas ocupadas

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Da Carta Capital

 
Eduardo Nunomura

O rapper Criolo subiu ao palco às 15h45 e como num passe de mágica a ficha começou a cair para João, Omar e Joana. Os três e outros tantos milhares de jovens simplesmente venceram. Mas na manhã de domingo, dois dias após terem derrotado o governador Geraldo Alckmin, ainda tentavam decifrar tudo o que eles, alunos secundaristas, tinham ensinado ao Brasil e, especialmente, à esquerda brasileira.

“Nossa luta continua, não nessa forma, mas a luta é algo que vamos levar para o resto de nossas vidas”, resume Joana Noffs, aluna da Escola Estadual Professor Antônio Alves Cruz, no bairro do Sumaré. Joana se considera de esquerda, convicta, que diz ter aprendido em duas semanas de ocupação do colégio mais do que seus 16 anos que já se passaram. “Mostramos o modo como os alunos sonham a escola e como uma vida em comunidade é possível”, diz ela.

João, Omar e Joana, alunos do colégio Alves Cruz, em São Paulo - Fotos: Eduardo Nunomura

João, Omar e Joana, alunos do colégio Alves Cruz, em São Paulo – Fotos: Eduardo Nunomura

Os pais de Joana apoiaram a decisão da jovem em ocupar o colégio. Visitavam a filha para saber se estava tudo bem e se os colegas precisavam de alguma coisa. Saíam felizes de saber que ela estava aprendendo com a escola da vida.João Cecci, colega de Joana, também tem pais compreensivos – a mãe dele praticamente não saía do Alves Cruz. O jovem de 16 anos, ao contrário da amiga, não se vê como de esquerda ou de direita, mas não pensou duas vezes para fazer parte dessa batalha. Já os pais de Omar Abduch, de 17, não aprovaram. Aliás, ele mesmo era contra a ocupação no início, mas se rendeu ao movimento quando ouviu de um coordenador da escola que no passado os alunos não pensavam duas vezes para lutar por seus direitos. Omar se define como de direita, votou em Alckmin e até afirma que votaria nele novamente. Mas admite que algo mudou dentro de si.

“Quando decidimos aderir às ocupações, foi um ponto crítico. Não faríamos parte da reorganização, não iria mudar nada para nós, mas ao entrarmos muitas outras também foram ocupadas”, diz Omar. Fazia sentido. “Começamos pequenos e fomos se agigantando.” O Alves Cruz é uma escola considerada modelo em São Paulo. Nela, os níveis de ensino já são separados e há 11 turmas de ensino médio. O currículo é mais arejado. Há atividade de maracatu do baque virado, por exemplo. Mas, por melhor que a escola seja, os três jovens são unânimes em dizer que não tinham muita ideia de que o conhecimento estava muito além dos muros do colégio e podia ser construído por eles.

“Tive uma aula de física em que aprendi em um dia mais que o bimestre inteiro”, afirma Omar. Profissionais de todas áreas passaram a ocupar, literalmente, as salas para oferecer aos alunos aulas livres de assuntos variados. Eram os voluntários da educação. Teve sexismo, feminismo, em aulas dadas duas ou três vezes por dia. Ia quem queria, e os alunos foram sem que nenhum sinal do colégio precisasse tocar. “A escola, como é hoje, não faz mais sentido. Eles nos incentivam a sermos competitivos. Educação não é competição, mas uma eterna troca”, explica Joana.

Os filhos do lulismo estão nos dizendo a que vieram. Vieram para mudar nossa percepção vertical de que uns mandam e outros obedecem. De queEduardo Cunha não deve ser imexível por ser chantagista e de que governar no presidencialismo de coalizão é ceder mais do que ir para o enfrentamento. Os alunos que ocuparam mais de 200 escolas públicas resistiram às pressões midiáticas, à contrariedade da opinião pública e até a violência policial.

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Ocupar e resistir, um entre tantos lemas que criaram, foi ecoado por milhares de pessoas no show da Virada da Ocupação (#viradaocupação), em que centenas de artistas, como Criolo, Maria Gadú, Paulo Miklos, Pequeno Cidadão, Filipe Catto, 5 a Seco, Vanguart, Arnaldo Antunes e Céu, se dispuseram a cantar de graça no domingo para celebrar a vitória dos estudantes – Alckmin não teve outra saída a não ser revogar, na sexta-feira 4, o decreto que fechava 93 escolas públicas, cujo objetivo era o de economizar dinheiro. Joana, João e Omar assistiram aos shows. A Praça Horácio Sabino, no Sumarezinho, é vizinha ao colégio. Os artistas fizeram questão de entrar no Alves Cruz para conversar com os jovens.

No Alves Cruz, mais de 20 alunos decidiram ocupar o colégio no dia 24, quando outras escolas já estavam participando do movimento. De lá para cá, houve ampla discussão entre os alunos, muitas assembleias foram realizadas e mesmo as opiniões divergentes passaram a ser respeitadas – e também combatidas. A maioria deles se considera de esquerda, contabilizam João e Joana, mas debates partidários passaram longe dali. O tema central era a educação. “A ocupação simbólica de uma escola-modelo mostra a resistência política contra a forma como o sistema educacional é pensado em todo lugar”, diz Joana.

Se a derrota de Alckmin é pública e notória, o que jovens secundaristas disseram é que a esquerda brasileira precisa ter humildade para ouvir o que eles estão nos ensinando. Com uma causa única, legítima e verdadeira, eles não divergiram um momento sequer de que estavam lutando pelo direito de serem educados. Usando as redes sociais, sobretudo o Whatsapp, criaram uma extensa rede de estudantes de escolas que sabiam o que fazer e como fazer para mobilizar a opinião pública em seu favor. Na maioria das vezes, bateram o pé firme para dizer que as escolas não seriam fechadas.

“Não estou aqui só por minha escola, mas por um movimento que envolve pensar fora da escola, coletivamente”, afirma João. Segundo ele, o ensino tem de ser repensado, desde a qualidade de formação dos professores até os procedimentos em sala de aula. “Vamos sempre ter alguma coisa para mudar, e sabemos que não dá para mudar o sistema em apenas duas semanas.”

Ao lado e antes do trio Joana, João e Omar, centenas e milhares de jovens estão dando recados valiosos, que a esquerda brasileira, em particular, parece não querer ouvi-los. Em três ocasiões, eles simplesmente mudaram a forma como a classe política dirige o país. Em junho de 2007, alunos da Universidade de São Paulo ocuparam a reitoria e lá permaneceram por 50 dias. O então governador José Serra enviou a Tropa de Choque da Polícia Militar e transformou o campus num campo de guerra. Era um movimento horizontal, combatido por parte do discurso da imprensa que tentava mostrar que havia partidos infiltrados no movimento dos estudantes. Em junho de 2013, integrantes do Movimento Passe Livre, muitos deles egressos da lutas estudantis da USP, pararam São Paulo e boa parte do país em torno da bandeira do transporte gratuito escolar. Obrigaram o prefeito Fernando Haddad e Alckmin a recuarem do aumento de 20 centavos nos ônibus e metrô.

Desta vez, os alunos conseguiram que as atenções se voltassem para a escola pública, a causa das causas sociais. Mobilizaram pais, o que é natural. Mobilizaram profissionais de várias áreas que doaram seu tempo para a causa estudantil, o que é essencial para que as engrenagens sociais comecem a se movimentar. E mobilizaram artistas e produtores culturais, o que é excepcional porque há tempos a música brasileira parecia ausente das discussões que valiam a pena. E todos eles em favor de uma luta que deveria ser de todos. Há uma grande dúvida neste exato instante se depois que Alckmin recuou, os alunos não deveriam recolher seu time de campo. Mas quem somos nós para dizer o que eles devem fazer.

 

Redação

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16 Comentários
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  1. Luis Armidoro

    7 de dezembro de 2015 5:43 pm

    Parece que a luz do Sol

    Parece que a luz do Sol voltou a brilhar em SP

    Espero que seja o início do fim das trevas tucanas que há mais de 20 anos destróem a esperança em SP

  2. Bi

    7 de dezembro de 2015 6:15 pm

    “A escola, como é hoje, não

    “A escola, como é hoje, não faz mais sentido. Eles nos incentivam a sermos competitivos. Educação não é competição, mas uma eterna troca” (Joana).

    Precisamos mesmo reaprender tudo com essa garotada!

     

  3. Maria Luisa

    7 de dezembro de 2015 6:15 pm

    As voltas que o mundo da

    O governo de SP querendo “reorganizar” as escolas de forma autoritaria e os meninos dizerndo que precisam de mais: mais escola, mais professores e bem preparados, mais incentivos. Aprendeu, Alckmin?

    SP e os todos os estados precisam incentivar sua mocidade. Mais educação e melhor e não o desmantelamento de escolas e a falta de dialogo. 

    Cala a boca ja morreu!

  4. Jose mestre Carpina

    7 de dezembro de 2015 6:23 pm

    esperança…

  5. Nosde

    7 de dezembro de 2015 6:42 pm

    Já tá no Face . . . . .

    Já tá no Face . . . . .

  6. lala

    7 de dezembro de 2015 6:54 pm

    Alckmin não aprendeu

    Alckmin não aprendeu nada

    Quanto a isto não tenho nenhuma dúvida.

    Apenas deu um recuo tático, quem viver,verá. 

    1. Gerinho da Terra

      8 de dezembro de 2015 12:15 am

      Verdade

      Verdade, ele só adiou para fazer escola por escola o que facilita. Perde força quando é uma unica escola ao invés de muitas. Fica pontual e fragiliza a luta. Modelinho dividir para conquistar.

      Mas isso não dimunui o fato de tantos jovens terem sentido o gosto da participação, de lutar pelos direitos.  Sem querer, foi um favor que o governador fez ao povo.

  7. João Bosco Rocha

    7 de dezembro de 2015 7:18 pm

    Viva!

    Nossos jovens acordaram!

  8. jasantos

    7 de dezembro de 2015 7:52 pm

    quem sabe faz a hora
    Garotada!
    chega de ser boi de presepio!
    quem sabe faz a hora não espera acontecer.

    Eu fiz todos os meus estudos nas escolas publicas, universidade inclusa.Os filhos de geraldo, serra e aluisio não! Isso faz toda a diferença.É muito comodo ter dinheiro para estudar nas partIculares e que se lixe o ensino publico!

    VAMOS MUDAR ESSE QUADRO!

    PARABENS GAROTADA.

  9. aliancaliberal

    7 de dezembro de 2015 7:58 pm

    “Joana se considera de

    “Joana se considera de esquerda, convicta”,coitada não sabe o que é ser de esquerda e o que representa esta forma nefasta de pensar o mundo.

     

     

    1. Gerinho da Terra

      8 de dezembro de 2015 12:11 am

      Brincando com imagens.

      Comunismo na mente de um adolescente educado pelos em escolas de elite fora dos padrões do MEC.

      1. aliancaliberal

        8 de dezembro de 2015 12:59 pm

        Tu acha que a ascensão social

        Tu acha que a ascensão social individual tem a ver com ações de um governo inepto.

        Este é o grande erro da esquerda começar a aceditar nas suas próprias mentiras e perder o sentido  da realidade.

    2. rdmaestri

      9 de dezembro de 2015 1:58 pm

      Aliança, ser de esquerda é tentar ir em direção ao futuro e…

      Aliança, ser de esquerda é tentar ir em direção ao futuro e pensar.Se elea fizer estas duas coisas el a é de esquerda, não precisa do ranço partidário para isto.

  10. Sérgio T.

    7 de dezembro de 2015 9:56 pm

    Polícia para quem precisa de polícia

  11. Liduina

    7 de dezembro de 2015 11:38 pm

    Emocionada.
    Fiquei emocionada

    Emocionada.

    Fiquei emocionada ao ler o texto.

    Essa tomada de consciência da garotada soa como uma vitória nossa.

    É uma vitória pra quem deseja uma país melhor.

  12. rdmaestri

    9 de dezembro de 2015 1:54 pm

    Quem não aprendeu nada foi quem escreveu o texto.

    A reportagem é válida em termos de depoimentos, mas um colapso em termos de conclusões.

    No parágrafo em que coloca no mesmo nível José Serra, Alckmin e Haddad, se vê claramente o ranço de sempre de colocar todos os políticos no mesmo saco. Haddad mandando para a câmara de vereadores um aumento do preço da passagem em 20 centavos é colocado no mesmo nível do que Serra e Alckmin mandando a polícia baterem em estudantes.

    Coloca no mesmo nível de politização o movimento de Passe Livre que ninguém se sabe de onde veem e para onde vai. Este movimento tem a cara de pau de comparar o transporte coletivo de uma cidade na Bélgica (Hasselt) que promoveu (passado) o transporte livre durante algum tempo. O passe livre teve tanto, mas tanto sucesso que o número de passageiros aumentou tanto, mas tanto mesmo, que em 2013 acabaram com a farra e cobram agora somente €0,60 por passagem (R$2,58) para uma cidadezinha de 80.000 habitantes que a extensão das linhas não podem passar de 3 quilômetros, pois se passar disto cai já em outro município! Pois o movimento Passe Livre, decantado em prosa e verso, compara esta cidade que para linhas de Transporte Coletivos que não passam de uma curta distância com a cidade de São Paulo com seus milhões de habitantes e com linhas de ônibus de dezenas de quilômetros. Ou seja, usando falsas comparações coloca Haddad, o torturador do transporte público, junto com os que enviam a polícia para bater e prender os manifestantes.

    O movimento dos estudantes de São Paulo tem uma pauta clara e factível assim como seus jovens militantes não precisam declarar qual partido pertencem, pois aos 14 anos de idade não parece que seja a prioridade e o momento necessário para isto.

    Além da comparação esdrúxula entre Haddad, Serra e Alckmin há uma crítica velada a “esquerda brasileira” que não soube ouvi-los, numa velha e conhecida incitação ao “aparelhamento do movimento” que graças ao bom Deus não foi tentado pela “esquerda brasileira”.

    Quem não ouviu os alunos foi Eduardo Nunomura, pois pergunto se os alunos  gostariam que a “esquerda ouvisse” o movimento, ou melhor, falando, recuperasse ou aparelhasse o mesmo?

    O autor talvez gostaria que vereadores, deputados ou outros militantes de esquerda fora do âmbito estudantil  fosse para frente das passeatas ou entrassem nas ocupações?

    Ele não entendeu o básico, que a ESQUERDA, que neste caso são os alunos, não só ouviram as suas próprias vozes como tiraram lições valiosas para as suas próprias vidas! ELES É QUE SÃO A ESQUERDA!

    O mais correto em todo o no texto é a última frase, que num lampejo de sabedoria, ou simplesmente colocando uma frase de efeito, ele escreveu:

    Mas quem somos nós para dizer o que eles devem fazer.

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