4 de junho de 2026

Rivesaltes, maior campo de concentração do Ocidente, é transformado em museu

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Jornal GGN – Localizado na França, próximo à fronteira com a Espanha, o campo de concentração de Rivesaltes foi o maior do Ocidente e aprisionou mais de 60 mil pessoas ao longo do século, e, agora, se torna um museu. No começo, espanhóis que fugiam de seu país de origem, em um exôdo de meio milhão de pessoas. Metade dos 20 mil espanhóis que passaram por Rivesaltes foi enviada aos campos nazistas, e 65% deles morreram. 2.300 dos 7.000 judeus deportados também perderam suas vidas. 

Também foram presos no campo soldados alemães capturados depois da Segunda Guerra, colaboradores e, a partir de 1960, harkis argelinos, e, nos 80 e 90 e até 2007, o campo também recebeu imigrantes ilegais.

Enviado por Carioca

Do O Globo

 
Ao longo do século, Rivesaltes aprisionou mais de 60 mil judeus, ciganos e refugiados
 
RIVESALTES, FRANÇA — A trinta quilômetros da fronteira oriental com a Espanha, ficou adormecido por 70 anos um capítulo vergonhoso da história da França e da Europa. Em um terreno baldio em Tramontana, ainda se pode ver os esqueletos de dezenas de barracões e latrinas. É o campo de concentração de Rivesaltes, o maior construído no Ocidente. De 1939 a 2013, mais de 60 mil “indesejáveis” viveram aqui. Os primeiros, refugiados espanhóis. Logo, judeus, ciganos, alemães, colaboradores e harkis argelinos. Por último, imigrantes irregulares. Na sexta-feira, o primeiro ministro Manuel Valls inaugurou um memorial no lugar.

 
A Catalunha francesa no Languedoc-Rosellón foi, em 1939, o refúgio de meio milhão de espanhóis da Retirada — o êxodo que todos conhecem na região, mas não na Espanha. Um deles era o comandante Victoriano Gómez Díaz, de Torrejón el Rubio (Cáceres). Entrou no campo de 600 hectares em julho de 1940, onde acabaria erguendo 650 casernas.
 
— Dormiam em um berço com muita umidade. Tinham piolhos, sarna… Comiam pouco e mal. Passavam muito frio. Os guardas, muitos marroquinos, lhes davam surras — conta sua filha, Rosy Gómez, que hoje vive em Argéles-sur-Mer, ao lado de uma enorme praia onde os espanhóis eram amontoados antes de serem transportados a outros campos.
 
Rosy preside a associação Filhos e Filhas de Republicanos Espanhóis e Crianças Exiladas e organiza todos os anos a Marcha da Retirada, refazendo os caminhos usados para entrar na França, pelos Pirineus. Aos 63 anos, ainda se emociona ao passar pelo terreno pela enésima vez.
 
— Esse anel de ossos de animais, com as iniciais V.G., foi meu pai quem fez, em Rivesaltes.
 
Um dos sobreviventes espanhóis que passou pelo Campo é Gilberto Susagna, de 80 anos, que vive em Perpiñán. Foi preso junto com sua mãe, em 1941. Seu pai, comunista, era o xerife do povoado. Perdeu um pulmão na batalha de Madri e fugiu para a França em 1939.
 
— Os judeus e os ciganos sofriam mais, minha mãe me contava. Eu, ainda garoto, não tanto. Mas me marcou a vida toda.
 
Quase metade dos 20 mil espanhóis que passaram por Rivesaltes foi enviada aos campos nazistas. 65% morreu. Também perderam a vida 2.300 dos 7.000 judeus deportados ali.
 
— Enviaram meu pai para Mauthausen em 1941 e, no último momento, uma mão amiga lhe segurou quando já embarcava no trem — narra Rosy.
 
No campo, projetado e administrado por autoridades francesas, foram encarcerados também soldados alemães presos depois da Segunda Guerra, colaboradores e, a partir de 1960, harkis argelinos. Para fechar o círculo da desonra, nos anos 1980 e 90 e até 2007, o campo recebeu também imigrantes ilegais. Até 2013, permaneciam em alojamentos próximos.
 
‘CRIANÇAS VOAVAM’
 
O passeio entre as instalações e as latrinas estremece. Cada cômodo tem 30 metros de largura, seis de cumprimento e cinco de altura. As frágeis paredes e portas não protegiam os refugiados nem do vendo congelante do inverno frio nem do calor asfixiante do verão.
 
— Era terrível. As doenças, o frio… O vento, o vento… Repetem os sobreviventes com quem tenho falado. As crianças voavam — conta o presidente do Comitê Científico do Memorial, Denis Peschanski, durante um passeio entre os barracões. Seu pai lutou como brigadista em Albacete, na guerra civil e foi internado em campos franceses.
 
Foram muitas as tentativas de se destruir as provas deste passado negro. Em 1998, encontraram milhares de arquivos do campo no lixo. O governo e as autoridades locais decidiram derrubar os galpões. Foram impedidos por associações civis, pelos filhos de exilados espanhóis e pela sensibilidade de alguns outros altos cargos locais.
 
Um dos que se mobilizou foi o prefeito socialista de Argelés, Pierre Aylagas, filho de um agricultor republicano espanhol preso em vários campos, entre eles Rivesaltes.
 
— Trabalhei por esse memorial porque condiz com os valores que defendo — declarou.
 
O memorial, obra do reconhecido arquiteto Rudy Ricciotti, é um enorme edifício de concreto sem janelas, fincado abaixo do nível do solo, para não deixar protagonismo aos barracões que o circundam. É um símbolo do confinamento forçado. Em seu interior, nos 4 mil metros quadrados, uma grande sala de fotos, vídeos, mapas, um auditório e um grande espaço pedagógico para alunos e professores.
 
— Simboliza uma época pouco gloriosa da França mas reconhecida por fim — disse Geneviève Dreyfus-Armand, prestigiada historiadora do exílio. — Seria bom se a Espanha também reconhecesse seu passado negro. Um povo sem memória não pode construir uma democracia de verdade. Não se pode confundir vítimas com executores.

 

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

1 Comentário
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Flavio Martinho

    19 de outubro de 2015 6:02 pm

    Os podres da tão cultuada e

    Os podres da tão cultuada e aplaudida França estão aparecendo.

Recomendados para você

Recomendados