Sugerido por Pedro Penido dos Anjos
Por Fernando Nogueira da Costa


Prosseguindo na busca de respostas a duas perguntas aparentemente simples:
Por que a taxa real básica de juros no Brasil é tão elevada? Por que, apesar da taxa nominal básica de juros ser tão elevada, a taxa da inflação permanece muito elevada? – vamos agora começar a examinar esta última questão.
Poderia ser a minha resposta quase uma tautologia: “ora, a taxa de juros é tão elevada porque a taxa de inflação ainda é elevada e a diretoria do Banco Central do Brasil insiste em derrubá-la com este único (e equivocado) instrumento”. Em outras palavras, a questão-chave seria por que a taxa de inflação ainda é alta – e não por que a taxa de juro é alta. Esta seria consequência daquela e não causa a queda dela! Todos os diagnósticos – e as terapias decorrentes – estariam equivocados!
A experiência brasileira de estabilização inflacionária em taxa inercial mais baixa demonstra que ter Banco Central independente para praticar política de juros não é nem condição necessária nem suficiente. Para esse objetivo, há sim a necessidade de adotar política macroeconômica abrangente e coordenada, envolvendo política de controle de capital, política fiscal, política cambial, política de juros e política de rendas, em condições internacionais propícias ao acúmulo de reservas internacionais e à sobrevalorização da taxa de câmbio ou apreciação da moeda nacional. Além dessas políticas econômicas em curto prazo há que cortar o custo extra do Brasil com investimentos em infraestrutura e logística, cuja maturação ocorre em longo prazo.
Porém, chegado ao historicamente baixo patamar da taxa de inflação – no último decênio (2005-2014) abaixo do teto (6,5% aa) do regime de meta – será que a política de juros, via controle indireto da demanda agregada, não tem eficácia apenas para impedir sua elevação, mas não para provocar sua queda?
Conforme o Relatório da Inflação do BCB, referente ao primeiro trimestre de 2015, a inflação medida pelo IPCA em 2014 (6,41%) foi superior aos 5,91% observados em 2013. Considerando-se os dois grandes grupos de preços que compõem o IPCA, a inflação de preços livres encerrou o ano em 6,72% (7,29% em 2013), e a inflação dos preços administrados em 5,32% (1,54% em 2013).
Considerando variações trimestrais, a inflação de preços administrados, que havia sido negativa no primeiro e terceiro trimestres de 2013 (devido à redução nas tarifas de energia elétrica e às revogações de reajustes de tarifas de ônibus urbano, respectivamente), iniciou em 2014 um processo de realinhamento em relação à inflação de livres.
Considerando os seis componentes da inflação, a maior contribuição individual para a variação absoluta do IPCA em 2014 adveio dos preços livres (3,14 pontos percentuais (p.p.), seguida pela contribuição dos preços administrados (1,04 p.p.) e do choque de oferta (0,87 p.p). Em termos relativos, esses três itens responderam por 49,0%, 16,2% e 13,6% da inflação total em 2014. Por sua vez, a inércia, as expectativas e o repasse cambial contribuíram com 0,70 p.p., 0,69 p.p. e -0,03 p.p.; ou seja, com 10,9%, 10,8% e -0,5% da variação total do IPCA, respectivamente.
Com relação aos choques de oferta, foi observado um forte efeito inflacionário em 2012, decorrente de significativa elevação de preços agrícolas em consequência de problemas climáticos que afetaram tanto regiões produtoras no exterior como no Brasil. Em 2013, o efeito menor, mas ainda positivo, manifestou-se na alta dos preços dos alimentos in natura observada no início do ano. Em 2014, fatores climáticos novamente afetaram os preços de alimentos, tanto no mercado doméstico como no internacional, ao longo do primeiro semestre.
No período considerado de 2012 a 2014, pode-se observar o efeito crescente da inércia da inflação do ano anterior. As expectativas também apresentaram contribuição crescente no período analisado. Em 2012 e em 2013 observa-se contribuição positiva da desvalorização cambial para a inflação. Mas, em 2014, apesar de se observar um aumento de 11,8% na taxa de câmbio do quarto trimestre em relação ao quarto trimestre do ano anterior, houve uma pequena contribuição negativa para a inflação devido à dinâmica da taxa de câmbio ao longo do ano (tendência de queda até o terceiro trimestre) e à defasagem do repasse cambial para os preços ao consumidor.
Tipicamente, a variação cambial afeta a inflação por meio dos preços de produtos importados. Contudo, mudanças na taxa de câmbio também impactam os preços ao consumidor por meio de um canal adicional: a depreciação cambial que leva a preços mais altos dos produtos importados irá, por sua vez, aumentar a demanda pelos produtos domésticos que competem com os bens importados. À medida em que a demanda aumenta, haverá também pressões de alta sobre os preços domésticos e sobre salários. Todavia, essa pressão de demanda é reduzida em contexto de menor crescimento econômico.
Alguns economistas, sempre diagnosticando “inflação de demanda“, acham que “a expansão do custo não é causa de inflação”, porque sem um aumento do poder aquisitivo e da demanda, o aumento do custo levaria ao desemprego e à recessão, e não à inflação. Em outras palavras, sem a oferta de moeda sancionar, não há aumento contínuo de preços, devido ao risco de perda de mercado. Mas com a criação endógena (isto é, pelas forças do mercado) de moeda, a responsabilidade pela inflação, fomentada pela pressão dos sindicatos e empresas sobre os preços relativos, é apontada por esses autores pela falta do “freio” monetário.
Outros economistas, sempre diagnosticando “inflação de custos“, acham que “o excesso de demanda global não é causa da inflação”, porque os preços e os salários não aumentam por pressão do mercado, mas são “aumentados” por decisões administrativas formais e explícitas. Porém, resta a pergunta: há economia de mercado em que todos os preços e salários sejam administrados na base do cálculo de custo e mantidos nos níveis predeterminados, mesmo perante o excesso de demanda, caracterizado pela ocorrência de pedidos não atendidos? O “racionamento capitalista” não se dá via preços?
Seguindo sempre o primeiro diagnóstico, o Banco Central limita-se a regular a demanda agregada via mecanismo de transmissão monetária indireta, isto é, através do canal dos juros. No caso brasileiro, em vez de fazer um controle monetário geral (e recessivo), há um controle seletivo, mantendo um crédito direcionado aos setores prioritários com taxa de juros subsidiada, pois é fixada abaixo da taxa de mercado com recursos livres.
Continua no próximo post.
https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2015/04/30/iv-por-que-a-taxa-de-juros-e-tao-elevada-e-a-taxa-de-inflacao-nao-cai/
Jose Mayo
1 de maio de 2015 1:17 pmDigamos de modo claro: o nome da coisa é ESTAGFLAÇÃO!
O primeiro passo do combate eficaz a qualquer “doença” é o diagnóstico. A este se chega por sinais e sintomas e, para o caso, os sinais são inflação + recessão + desemprego crescentes, e os sintomas estão nas ruas.
Não estamos combatendo inflação nenhuma com os juros altos; estamos drenando, para gáudio e gozo dos rentistas, os recursos que poderiam ser voltados para a produção e o crescimento econômico da nação.
A hora é para “keynesianos”, não para “levyanos” entreguistas.
Fora FMI !!! Fora Levy !!!
Orlando Soares Varêda
1 de maio de 2015 2:53 pmPerfeito! Jose Mayo.
Perfeito! Jose Mayo. Concordo em número, grau, temeratura, e velocidade do vento. Espero, que consigam sobreviver ao tornado, quando este se formar.
Orlando
Guarda Nacional da Cidadania
1 de maio de 2015 3:13 pmEUA –
EUA – 1,7Japao – 2,7Suecia – – Suiça – – Alemanha 0,1 0,9Dinamarca 0,1 0,6Espanha 0,1 – Finlandia 0,1 1,0França 0,1 – Italia 0,1 0,3Zona Euro 0,1 Israel 0,1 0,5UK 0,5 1,4Canada 0,8 1,9Noruega 1,3 2,0Coreia Sul 1,8 ? Taiwain 1,9 Australia 2,3 2,5Chile 3,0 4,5Mexico 3,0 3,8China 5,4 2,3Africa Sul 5,8 5,8India 7,5 6,0Turquia 7,5 8,2Russia 12,5 7,3Brasil 13,5 6,5
Guarda Nacional da Cidadania
1 de maio de 2015 3:56 pmFavor deletar este comentário acidentalmente enviado s/formato
Obrigado, estou enviando outro, que espero saia formatado em 3 colunas: País, Juros e Inflação.
Espertinho da Banca
1 de maio de 2015 3:49 pmVende mais prq é + fresquinho ou é + fresquinho prq vende mais ?
PAIS JUROS INFLAÇÂO
Suecia 0,0 0,0
Suiça 0,0 0,0
EUA 0,0 1,7
Japão 0,0 2,7
Espanha 0,1 0,0
França 0,1 0,0
Zona Euro 0,1 0,0
Italia 0,1 0,3
Dinamarca 0,1 0,6
Alemanha 0,1 0,9
Finlândia 0,1 1,0
Israel 0,1 0,5
UK 0,5 1,4
Canadá 0,8 1,9
Noruega 1,3 2,0
Coreia Sul 1,8 0,8
Taiwain 1,9 0,0
Cingapura 2,0 0,0
Australia 2,3 2,5
Mexico 3,0 3,8
Chile 3,0 4,5
China 5,4 2,3
Africa Sul 5,8 5,8
India 7,5 6,0
Turquia 7,5 8,2
Russia 12,5 7,3
Brasil 13,5 6,5
Ucrania 30 24,9
PS1: 2014
PS2: Boa parte dos indices baixos está em queda ou mesmo negativo
PS:
Conde de Rochester
1 de maio de 2015 6:42 pmcontos
Estes comentarios quilometricos que pretendem discutir a situação financeira são contraditorios intrisicamente, é a mesma coisa de se discutir o termometro e não a febre.
Enquanto prevalecer o interesse de grupos e a politica for exercida para se manter privilégios o crescimento, e qdo haver crescimento será pifio. Inflação é sintoma de doença que acomete uma sociedade
A cobiça, a indiferença a ganancia é tanta que preferem matar a galinha dos ovos de ouro, em vez de se utilizar os ovos disponiveis como investimento, o que da trabalho e impreterivelmente retira privilégios, e proporcionar um verdadeiro futuro para este povo esquecido.
Não estamos combatendo inflação nenhuma com os juros altos; estamos drenando, para gáudio e gozo dos rentistas, os recursos que poderiam ser voltados para a produção e o crescimento econômico da nação.
O capital especulatico, o sorvedouro da força produtiva, sabem disto e sabem também que as dificuldades de estruturas que impedem do Brasil funcionar são tantas e históricas, que nos finalmentes e efetivamente os gestores da macro economia, não patricinam plano econômico, algum que de alguma forma projetasse equacionar o desequilíbrio financeiro, procuram sim manter seus privilégios e empurrar com a barriga a economia , via personagens como nosso ilustre ministro.
Toda estrutura financeira, econômica,trabalhista esta carcomida, é muito entulho a ser retirado e é lógico que os rentistas e os administradores destes interesses sabem disto. Um País forte, dinâmico e competitivo é reflexo de um povo forte, dinâmico e competitivo, não existe outra possibilidade. Não existe mágica no capitalismo. Se não existe um mercado interno pujante, dinâmico o capitalismo é capenga. O Brasil vive para satisfazer minorias financeiras e interesses políticos desde a monarquia eo que fazem é manter a coisa em banho-maria, impedem a marola para não engulir caca.
Tudo no Brasil, excetuando o andar de cima, esta nivelado por baixo, nada funciona como deveria, os salários são baixo a coisa não anda. . Toda a base econômica e financeira esta carcomida, somente a industria não consegue alavancar com um crescimento sustentável e de longo prazo. São necessárias pelo menos três décadas para se mudar a base educacional de uma nação e sabedores da disposição política de não abrir mão de qualquer privilégio, fica a constatação de que este País não mudara tão cedo, se é que mudara algum dia.
Quem adiciona coerencia à macroeconomia do desenvolvimento é correlação de forças da sociedade em cada época. Isto nem de longe existe no Brasil, as conexões que deveriam unir as diversas áreas do mundo financeiro e econômico não existem, o Brasil esta acéfalo. O segredo do sucesso dos países adiantados é o fundamento de suas economias, todos eles possuem um mercado interno forte e pujante. Sem isto não existe pais forte economicamente, neste ponto o governo do Lula se destaca dos outros, com o acesso ao credito e a política social o mercado interno cresceu e se fortaleceu, o mérito do Pt é descobrir o caminho das pedras, coisa que a elite sempre escondeu, isto é histórico no Brasil.
O tal do espírito animal tem que ser despertado no pequeno negocio, é ai que esta a ultima sustentação que tornara o Brasil um Pais prospero.
Espertinho da Banca
1 de maio de 2015 6:58 pmMais fresquinho prq vende + ou vende + prq é mais fresquinho?
Aqui 2 listas de juros x inflação de diversos países, em 2014, classificadas por juros a/ano e inflação a/ano:
Notar que a maioria daquelas muito baixas ou indicadas como 0 (zero) na verdade podem ser negativas ou decrescentes. O Brasil tem a MAIOR diferença entre juros (~dobro) e inflação. Tirem suas conclusões:
PAIS…………JUROS…INFLAÇÃO (por juros crescentes)
Suécia………….0,0…….0,0
Suiça……………0,0…….0,0
EUA…………….0,0…….1,7
Japão……………0,0…….2,7
Espanha………..0,1…….0,0
França………….0,1…….0,0
Zona Euro…….0,1…….0,0
Itália…………….0,1…….0,3
Dinamarca…….0,1…….0,6
Alemanha……..0,1…….0,9
Finlândia……….0,1…….1,0
Israel…………….0,1…….0,5
UK……………….0,5…….1,4
Canadá………….0,8…….1,9
Noruega………..1,3…….2,0
Coréia Sul……..1,8…….0,8
Taiwain…………1,9…….0,0
Cingapura……..2,0…….0,0
Austrália……….2,3…….2,5
México…………3,0…….3,8
Chile…………….3,0…….4,5
China……………5,4…….2,3
África Sul……..5,8…….5,8
India…………….7,5…….6,0
Turquia…………7,5…….8,2
Russia…………..12,5…..7,3
Brasil……………13,5…..6,5
Ucrania…………30,0…..26,0
PAIS…………JUROS…INFLAÇÃO (por inflação crescente)
Suécia…………..0,0……0,0
Suiça…………….0,0……0,0
Espanha………..0,1……0,0
França…………..0,1……0,0
Zona Euro……..0,1……0,0
Taiwain…………1,9……0,0
Cingapura……..2,0……0,0
Itália……………..0,1……0,3
Israel…………….0,1……0,5
Dinamarca…….0,1……0,6
Coréia Sul……..1,8……0,8
Alemanha……..0,1……0,9
Finlândia……….0,1……1,0
UK……………….0,5……1,4
EUA……………..0,0……1,7
Canadá………….0,8……1,9
Noruega………..1,3……2,0
China……………5,4……2,3
Austrália……….2,3……2,5
Japão……………0,0……2,7
México…………3,0……3,8
Chile…………….3,0……4,5
África Sul……..5,8……5,8
India…………….7,5……6,0
Brasil……………13,5….6,5
Russia…………..12,5….7,3
Turquia…………7,5……8,2
Ucrânia…………30,0….26,0
Ze Guimaães
1 de maio de 2015 9:27 pmEscolha
Não é uma questão de ciência, nem a presidente está sem escolhas. Ela escolheu sim esta situação, e poderia ter escolhido muito bem abaixar os juros se assim o quisesse, pois Lula já fez isto antes. Com certeza, se abaixasse os juros o país, as contas publicas ficariam muitissimo melhores, e a inflação não seria afetada, quase. Então por que não o faz?
É apenas uma questão de falta de coragem.
Alguns comentaristas dizem que se Dilma abaixasse os juros, logo seria derrubada do poder. Pode ser que seja verdade.
Agora a reflexão: Daqui a quatro anos, com os juros mantidos neste patamar nossa dívida estará do tamanho do PIB, ficaremos como a Grécia; por bem ou por mal, Dilma E O PT sairão do poder, seja por golpe, ou pelas urnas. Não seria bem mais bonito se ela fizesse a coisa certa, abaixasse os juros e corresse todos os riscos pelo bem do país e do povo?
Ou Dilma escolhe ser lembrada como uma presidente que se sacrificou em prol do país como Vargas o fez, ou ela entrará para a história como mais uma presidente mediocre, pulsilânime, que pensando em si mesma, fugiu das decisões que deveria ter tomado e empurrou com a barriga.
Esta é a nova cara do novo PT, que em matéria de juros se assemelha tanto ao PSDB. Para o novo PT o que importa é permanecer no poder, custe o que custar, mesmo que seja para trair o povo.
edmorc
2 de maio de 2015 10:29 pmO buraco é mais embaixo
Quando em um certo momento do seu primeiro mandato a presidenta Dilma resolveu baixar os juros e adotar as tais medidas macroprudenciais, o que aconteceu:
1) Os deformadores de opinião pagos pela banca passaram a escrever e dar entrevistas diuturnas, ameaçando com a volta da inflação. Aquelas charges repetitivas do dragão inflacionário vieram com tudo.
2) Mas não foi só isso: paralelamente os oligopólios que dominam a economia brasileira, perdendo receitas com suas aplicações nos títulos do Tesouro, efetuaram recomposição de suas margens de lucro, subindo os preços de produtos e serviços. E a presidenta teve que recuar.