4 de junho de 2026

A natureza da crise e a ascensão do conservadorismo, por Aldo Fornazieri

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Não é tarefa simples compreender a natureza da atual crise brasileira. Ela se compõe de múltiplas determinações e múltiplos aspectos e permite que seja abordada a partir de vários ângulos. Em sendo uma crise tipicamente tupiniquim e observando a magnitude impressionante das manifestações do dia 15 e a calmaria insípida dos dias seguintes é possível concluir, como diz uma conhecida frase, “que tudo pode acontecer, inclusive nada”. Os idiotas da objetividade se apressaram em asseverar que a história do Brasil se dividiria “entre o antes do dia 15 e o depois do dia 15 de março”. 

O “tudo pode acontecer” se deve aos seguintes fatores: temos, por um lado, um governo que reluta em governar, um partido do governo que não consegue sequer explicar-se a si mesmo, um sistema político e institucional deslegitimado, um sistema partidário corrompido; e, por outro, um contingente enorme de pessoas descontentes, sem direção e que clamam por uma saída militar sem sequer saber o que isto significa. O “inclusive nada” se deve ao tato de que nestas terras quentes, onde o calor solar não é capaz de incendiar os corações e de impregnar o ar com substâncias inflamáveis, nunca tivemos soluções jacobinas para as nossas crises. Como bem disse Raimundo Faoro, no Brasil as mudanças, as transições, “sempre foram transadas”. Ao mesmo tempo em que nos pavoneamos de sermos uma nação “pacífica e ordeira” e uma “democracia racial”, naturalizamos sem nenhuma culpa a tragédia de sermos o país mais violento do mundo e de termos um racismo institucionalizado que vitimiza seus jovens negros e pobres.

Ingredientes de uma Crise Estrutural

A atual crise tem elementos de crise estrutural e fortes componentes de uma crise política. A presença de elementos de crise estrutural é observável pelo fato de que há evidentes sinais de esgotamento do modelo vigente do capitalismo brasileiro. O nosso capitalismo se define pelo modelo patrimonialista-rentista e pela exportação de commodities. O patrimonialismo rentista agrega as seguintes características: desonerações e benefícios fiscais perniciosos e antiisonômicos; empréstimos (principalmente do BNDES) a juros subsidiados que privilegiam os setores econômicos politicamente articulados com o governo; sistema de concessão  e de prestação de serviços ao  setor público e às estatais cartelizado e definido pela corrupção; privilégios corporativos no setor público, incluindo políticos e juízes; agências reguladoras capturadas pelas reguladas em detrimento dos consumidores; indexação da renda financeira à correção monetária; entrelaçamento corrupto entre os interesses dos partidos políticos com os interesses das estatais e das empresas privadas contratadas como prestadoras de serviços, como mostra o caso da Petrobras que é apenas a ponta do iceberg do que ocorre no Brasil.

As economias baseadas nos modelos de exportação de commodities já mostraram seus limites, nas últimas décadas, nas várias crises internacionais que afetam o comércio mundial. Ademais, revolução tecnológica, o advento da globalização e as exigências que estas duas variáveis estabelecem, inviabilizam a possibilidade de que os países cujas economias sejam orientadas para a exportação de commodities se tornem jogadores significativos do poder mundial pela sua pouca relevância econômica e comercial. Esse modelo também bloqueia as tarefas internas da realização de reformas estruturais (infraestrutura, judiciário, tributária, trabalhista etc.) e as mudanças relacionadas à revolução educacional e aos investimentos em pesquisa.

Na medida em que o PT incorporou e se incorporou a esse modelo de  capitalismo atrasado, rentista, patrimonialista e necessariamente corrupto, o esgotamento e os limites desse modelo explicam, em parte, os limites e a crise do PT e de seus governos. Os picos mais agudos da crise estrutural desse modelo se apresentam nos momentos de baixo crescimento e de alta inflação, quando as disputas distributivas se tornam mais agudas. Foi assim na longa transição do governo Sarney, no curto desvario do governo Collor, no esgotamento das reformas liberais do governo FHC a partir de 1999 e nesse perturbado trânsito do primeiro para o segundo mandato do governo Dilma.

Crise de Coordenação Política e a Anomia Antipolítica

A crise distributiva se agrava porque ela se soma à crise de coordenação política. Essa crise se caracteriza pelo colapso da funcionalidade e da legitimidade das instituições, incluindo as da sociedade civil, e do sistema político e partidário. A crise econômica gera os descontentamentos, as contendas distributivas e a perda de lealdades eleitorais e políticas. A crise de coordenação política, a corrupção sistêmica, a incapacidade do poder público de resolver problemas e garantir direitos e serviços de qualidade, são elementos que estabeleceram um divórcio entre a sociedade e o sistema de representação. Os partidos e seus representantes perdem a capacidade de persuadir as pessoas e de dar direção e sentido à sociedade. O discurso político torna-se desmoralizado e irrelevante.

Tanto nos protestos de 2013, quanto nos do último dia 15, perceberam-se ingredientes de anomia antipolítica, que contamina amplos setores da sociedade. Essa anomia antipolítica afeta os partidos governistas e a oposição, o governo nacional e os governos infranacionais, o Executivo e o Legislativo. Sugerir que o PSDB ou a mídia foram os protagonistas da convocação dos protestos é não perceber o que ocorre na sociedade. No máximo, esses dois atores, pegaram carona de um movimento que estava em curso.

A anomia antipolítica, de modo geral, tem um conteúdo conservador. Na medida em que o PT, principal partido do governo, se autodefine como de esquerda, popular e progressista, a reação conservadora vem reforçada. A reação conservadora se fortalece também pelos seguintes elementos: como reação a avanços culturais, nos costumes e a determinadas conquistas sociais; como tentativa de estorno de bandeiras ideológicas ultrapassadas da esquerda; como descontentamento ante a perda de capacidade do governo de regular satisfatoriamente o conflito distributivo; como reação à perda e limitação de ganhos; como medo à perda de emprego e renda. Esses três últimos elementos jogam também para a oposição setores sociais que apoiavam o governo e o PT. No plano institucional, a soma dessas crises e incapacidades provoca um aumento de tensões e conflitos entre os próprios parceiros do arranjo governamental. Se a crise se tornar mais aguda, as defecções serão inevitáveis.

A presente crise pode ser lida também pela chave da “crise de interegno” de Gramsci ou pela chave da “crise de direção” de Trotsky. Ou seja: o velho está morrendo sem que o novo tenha surgido. As condições para a mudança estão dadas sem que haja uma força inovativa capaz de realizá-la. Assim, os possíveis desdobramentos da atual crise apontam, pela ordem, para três direções: 1) o esgotamento dos protestos, desorganizados e sem rumo, com a vitória da oposição tradicional em 2018; 2) a rearticulação do atual bloco de forças políticas com capacidade de renovar-se e vencer em 2018; 3) o surgimento de uma nova força conservadora, alavancada pela continuidade dos protestos. Entre o “tudo” e o “nada” que podem ocorrer, estamos mais próximos do “nada”, pois as três alternativas, com suas diferentes matizes e vieses, se inscrevem no contexto de um modelo de capitalismo atrasado, patrimonialista e corrupto.

Aldo Fornazieri – Cientista Político e Professor da Escola de Sociologia e Política.

Aldo Fornazieri

Cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política.

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18 Comentários
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  1. W K

    23 de março de 2015 11:02 am

    Um teórico da administração que

    destrincha essa problemática é Fredmund Malik, austríaco que vive na Suiça, e mostra todos os problemas inerentes a esta situação:

    http://en.wikipedia.org/wiki/Fredmund_Malik

     

     

  2. Fábio de Oliveira Ribeiro

    23 de março de 2015 1:07 pm

    É um erro chamar de

    É um erro chamar de “conservadores” pessoas que querem “destruir o regime constitucional”. 

  3. Conde de Rochester

    23 de março de 2015 1:43 pm

    A esperança é a ultima que morre?

    Entre o “tudo” e o “nada” que podem ocorrer, estamos mais próximos do “nada”, pois as três alternativas, com suas diferentes matizes e vieses, se inscrevem no contexto de um modelo de capitalismo atrasado, patrimonialista e corrupto.

    E vale lembrar informações postadas neste blog que apontam:

    Não é mais possível não vermos o papel dos atravessadores que travam a economia. Não há PIB que possa avançar com tantos recursos desviados.

    O principal entrave ao desenvolvimento do país aparece com força.

    O reajuste financeiro é vital, não o reajuste fiscal proposto, compreensível este último mais por razões de equilíbrios políticos do que por razões econômicas.

    E para os bancos e outros intermediários, é mais simples ganhar com a dívida do que fomentar a economia buscando bons projetos produtivos, o que exige identificar clientes, analisar e seguir as linhas de crédito, ou seja, fazer a lição de casa. Os fortes lucros gerados na intermediação financeira terminam contaminando o conjunto dos agentes econômicos.
     
    Assim entende-se que os lucros dos intermediários financeiros avancem de 10% quando o PIB permanece em torno de 1%, e o desemprego seja tão pequeno: o país trabalha, mas os resultados são drenados pelos crediários, pelos juros bancários para pessoa física, pelos juros para pessoa jurídica e pela alta taxa Selic. É a dimensão brasileira da financeirização mundial.

    Fechando a ciranda, temos a evasão fiscal. Com a crise mundial surgem os dados dos paraísos fiscais, na faixa de 20 trilhões de dólares segundo o Economist, para um PIB mundial de 70 trilhões. O Brasil participa com um estoque da ordem de 520 bilhões de dólares, cerca de 25% do nosso PIB. Ou seja, estes recursos que deveriam ser reinvestidos no fomento da economia, não só são desviados para a especulação financeira, como sequer pagam os impostos no nível devido.

  4. democracia direta

    23 de março de 2015 10:19 pm

    PERFEITO! SÓ RECLAMAR NÃO ADIANTA, É PRECISO AGIR.

    Entretanto, temos um grave problema no Brasil. Nosso sistema de ensino é precário, nossos jovens não saem da escola com o raciocínio crítico desenvolvido, e ainda sofrem uma lavagem cerebral da globo, que lhes ensina a não pensar, preparando a população para ser manipulada. Essa realidade faz com que o conteúdo político da internet seja visto por pouquíssimas pessoas, e dominado por gente ligada diretamente aos políticos, onde podemos encontrar milhares e milhares de assessores dos mesmos. 

    RECLAMA, MAS NÃO FAZ NADA!

    Vemos gente reclamando na internet até pelos cotovelos, mas quando são convocados para discutir a formação de um partido novo, nos moldes da NOVA POLÍTICA que está vindo da Europa, ninguém participa. É preciso se convencer, de que as coisas não caem do céu. Se a gente não for lá e fizer, nada acontece. 

    O QUE É A NOVA POLÍTICA?

    Basicamente, é um partido que não precisa eleger delegados para suas convenções, que tem assembleia deliberativa on line para seus filiados, onde os políticos se comprometem a consultar seus filiados pela internet, para decidir como votarão no cogresso. Ou seja, na NOVA POLÍTICA, não tem como deputado e senador vender seu voto. Saiba mais:

    http://democraciadiretabrasileira.blogspot.com.br/2015/02/partidos-com-democracia-direta-e-um.html

  5. Irene Rir

    23 de março de 2015 11:17 pm

    Falou em patrimonialismo falou na Globo

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=FF2hrTGHcfY align:center]

  6. gentilhomme

    23 de março de 2015 11:25 pm

    patrimonialista rentista exportador

    Com todo o respeito ao Professor Fornazieri, mas de onde é que saiu essa tipologia do capitalismo brasileiro?

    Exportador de commodities? Se ele se refere ao ciclo recente de valorização de commodities, ele está falando da mesma categoria em que estão EUA, Canadá, Austrália, Noruega e Rússia. Não em parece de todo mau. Se el quer dar a entednder que o Brasil “depende” em qualquer sentido substantivo dessas exportações, está defesado em uns 70 anos. Desde os anos 80 as exportações industriais são mais importantes que as básicas no Brasil. O período recente foi a única exceção. Por dois motivos simples: 1, as commodities valorizaram muito e 2, o câmbio valorizou ainda muito mais. Em 2011 estava 30% acima de 1999, quando FH transformou nosso país num país rastejante. Só que … as exportações são absolutamente secundárias na dinãmica econômica do Brasil. Desde a crise de 30… 

    O patrimonialista rentista também é digno de nota. Eu não digo que não seja. Mas aí pergunto onde não é. De fato, o “segredo” do capitalismo hiperdesenvolvido está justamente na imbricação profunda entre a grande corporação e o Estado. Ai tem de tudo: subvenção, participação no capital, propriedade cruzada, lugar no conselho de administração, golden share. De fato, boa parte das políticas de desenvolvimento econômico desses países são políticas para aumentar a governança desses grupos sobre suas cadeias de valor, dirigi-los a outras, enobrecer seu elo e criar novos grupos. Naturalmente, isso e´diferente de obedecê-los, por que desde Marx sabemos que  o que é bom para o capitalismo como um todo não é a soma do que é bom para cada capitalista individual (e Vargas o demonstrou fartamente na experiência brasileira). 

    Certa vez, ouvi de Belluzzo que curiosamente o capitalismo hiperdesenvolvido reproduzia características que seriam tipicas do cilco mercantilista holandês. Aí, li o Braudel e descobri que nunca deixou de ser assim, pelo menos onde funcionou. 

    Não surpreende que a explicação da crise atual decorrente traga mais calor que luz.

    1. Ricardo Cavalcanti-Schiel

      24 de março de 2015 1:46 am

      Determinante em última instância????

      Cher monsieur

      Essa tipificação não é econômica. É sociológica.

      A caracterização do patrimonialismo é um tema já largamente explorado pela literatura das ciências sociais brasileiras. O capitalismo aí é apenas um somenos generalista. Nossa produção analítica já está a anos-luz de clivagens pouco produtivas para perscrutar a complexidade social, como aquelas de uma certa doxa economicista a respeito do… capitalismo.

      1. gentilhomme

        24 de março de 2015 1:46 pm

        gostei do vocativo
        Caro Ricardo, eu conheço um pouco dessa literatura, mas ela é claramente descolada da realidade. Simplesmente não bate com os fatos. Ainda nos anos 70 Conceição Tavares – não sei se entendi bem tua última frase, mas cito alguém insuspeito de doxia – chamou a atenção para o fato de que o Brasil era já um país industrializado e complexo. O mistério então era entender porque a modernização intensa vidida desde a Ia Guerra não tinha liquidado as mazelas sociais.
        De 1988 para cá o de mais importante que aconteceu foi que o Brasil defasou do ponto de vista industrial – já possuiu a quina maior indústria do mundo, hoje é “apenas” a oitava ou nona – e avançou muito do ponto de vista social e político.
        Esse é o cerne da tensão quie vivemos hoje, é o determinante essencial de última instância: a tentativa de constituir um moderno welfare state, baseado nos parâmetros civlizatórios dos países centrais com um nível de produtividade e de sofisticação do aparato produtivo-empresarial incompatível com essa aspiração.
        O bloqueio se manteve e em certa medida se aprofundou porque o Brasil – ainda hoje o mais bem sucedido país de grande porte em deixar a condição colonial e agrário-exportadora para trás, ênfase em “o mais” – falha sistematicamente em compreender que está inserido em um sistema internacional. Sua ascensão parou no meio do caminho no final dos anos Geisel (com características políticas e sociais muito diversas!), e para novamente naquele ponto em que continuamos a ser o país grande e irrelevante no grande jogo.
        No mundo das aparências isso se manifesta com a dificuldade em melhorar de vida apesar dos melhores esforços individuais, em o filho fazer faculdade com a poupança da família e ter que trabalhar no balcão vendendo cachorro quente, na insegurança do operário que se qualifica mas sua empresa vive fugindo da concorrência, no funcionário público altamente qualifcado que vive pelos cantos, cuidando de banalidades formais, no pesquisador que monta um projeto de ponta e descobre que só no país de primeiro mundo poderá achar um destino para isso, etc etc.
        Sem contituiurmos um sistema produtivo-empresarial de primeiro mundo, não há como sermos de primeiro mundo. A luta para chegar a esse patamar, contudo, não é trivial, exige mobilização nacional, esforço coordenado e perspectiva estratégica – vale dizer, os outros, de forma mais coordenada em alguns casos, ,menos em outros – farão o que for possível para impedir (por exemplo, grampear o celular pessoal da Chefe de Estado).
        Não é fácil furar esse bloqueio – corresponde ao que outrora se designava sistema centro-periferia, mas há outros nomes – e há bons motivos para crer, como fizeram os dependitistas (antes de Conceição), que é de fato impossível. Se é apenas improvável, uma condição indispensável para sua superação é a percepção da posição relativa, das alternativas para alterá-la (uma delas atendendo pelo nome de “pré-sal”), e a articulação das corporações e grupos de interesse fundamentais para viabilizar uma estratégia nessa direção.

        1. Ricardo Cavalcanti-Schiel

          24 de março de 2015 7:44 pm

          Sumarismos

          Só dá pra responder a uma desqualificação sumária por outra desqualificação sumária: Pela sua arenga que não chega a juntar lé com cré, dá pra perceber quem é que anda “descolado da realidade”.

  7. Elielde de Azevedo Santos

    23 de março de 2015 11:50 pm

    Crescimento do Conservadorismo

    As falhas do governo petista criou oportunidade para o crescimento do conservadorismo assim como o mau governo de FHC propiciou a eleição do Lula.

    Frente a este momento de conservadorismo, a esquerda deve ser propositiva e capaz de sentir o momento histórico, pois a classe média que foi às ruas não é a inimiga da esquerda. Há muita desinformação na mídia, mas a formação e a história podem esclarecer quem é quem no tabuleiro de xadrez dos interesses pelo poder.

  8. Elielde de Azevedo Santos

    23 de março de 2015 11:50 pm

    Crescimento do Conservadorismo

    As falhas do governo petista criou oportunidade para o crescimento do conservadorismo assim como o mau governo de FHC propiciou a eleição do Lula.

    Frente a este momento de conservadorismo, a esquerda deve ser propositiva e capaz de sentir o momento histórico, pois a classe média que foi às ruas não é a inimiga da esquerda. Há muita desinformação na mídia, mas a formação e a história podem esclarecer quem é quem no tabuleiro de xadrez dos interesses pelo poder.

  9. Elielde de Azevedo Santos

    23 de março de 2015 11:50 pm

    Crescimento do Conservadorismo

    As falhas do governo petista criou oportunidade para o crescimento do conservadorismo assim como o mau governo de FHC propiciou a eleição do Lula.

    Frente a este momento de conservadorismo, a esquerda deve ser propositiva e capaz de sentir o momento histórico, pois a classe média que foi às ruas não é a inimiga da esquerda. Há muita desinformação na mídia, mas a formação e a história podem esclarecer quem é quem no tabuleiro de xadrez dos interesses pelo poder.

  10. Ricardo Cavalcanti-Schiel

    24 de março de 2015 2:55 am

    Boa síntese

    Boa síntese a do Fornazieri, sobretudo o vaticínio da última oração. E creio que é preciso tirar dele a sua consequência lógica: o esgotamento político do projeto petista, aquele da “esperança” (que dizia ser capaz de “vencer o medo”), aquele que um dia quis se apresentar como alternativa consistente de reforma social (igualmente consistente).

    É aí que talvez esteja a maior perda simbólica para as esquerdas: a aparentemente sólida esperança, que agora se desmancha no ar. Sem ela e sem sua capacidade de alentar a invenção política, continuamos irremediavelmente atados à sociedade do privilégio (https://jornalggn.com.br/noticia/a-crise-de-representacao-e-o-esgotamento-da-opcao-bipartidista).

    Ou estamos entrando em um longo e agônico processo de mexicanização, ou talvez tenhamos que (se o conseguirmos) inventar algum Podemos.

    Aliás, o clima político no Brasil está bem parecido ao da Espanha no fim do governo do PSOE em 2010. Em ambos os casos, o que determinou os limites da reforma social foi a conjuntura que domesticou seus atores: o “regime de 1978”, na Espanha; a Nova República, no Brasil. Nenhum desses dois atores (PSOE e PT), por mais que se quisesse reformista, conseguiu fazer política numa escala suficientemente arrojada para superar as peias que precondicionavam seus horizontes.

  11. MarcoPOA

    24 de março de 2015 9:27 am

    Me desculpe!

    Mas pra que tanta firula e explicações?

    A questão é uma só, curta e grossa: “Credibilidade”

    A presidenta incorruptível, proba, honesta, honrada, tecnicamente competente (como tantos de seus apagados ministros) não passa confiança nem como gestora de um condomínio, quanto mais chefe do executivo!

    Dilma se resume a uma triste figura, absolutamente muda, assistindo dia a dia milhares de empregos que orbitavam (e ainda orbitam) a Petrobras sumirem sem uma unica atitude em defesa dos mesmos!

    Foi decretado que a Petrobras é corrupta e a canga foi aceita bovinamente de forma covarde!

    Quem vai peitar o juiz ‘Moro’, sua tropa de procuradores e principalmente a escandalização midiática que está sendo usada?

    Quem vai ter coragem de berrar contra a ignomínia que estão fazendo contra a Petrobras, suas empresas satélites, fornecedores e prestadores de serviços?

    Puna-se os corruptos, não as empresas que geram empregos!

    Quando eu veria Leonel Brizola assistindo uma barbaridade dessas enfurnado em um gabinete, cercado de gente que concorda com tudo, assumindo a posição de um totem incorruptível sem nenhuma utilidade?

    Nunca!

    Como dar crédito para um governo insonso, recheado de incompetentes e desmoralizado?

    1. Alisson

      24 de março de 2015 11:52 am

      Foi direto ao ponto! Falta

      Foi direto ao ponto! Falta coragem política pra peitar a oposição descarada que a mídia e o judiciário estão fazendo ao executivo. O PSDB é uma mera figura decorativa nesse processo de paralização do governo. O governo está totalmente apático, tenta responder a um bombardeio diário da mídia e do judiciário com notinhas lidas timidamente para meia dúzia de jornalistas. Tudo que foi imputado ao governo foi aceito! Só pode ser uma crise interna do partido. Como explicar um ministro como Jaques Wagner no ministério da Defesa? Pelo capital político dele, ele deveria estar na casa civil. Cadê o ministro da justiça? Não tem ministro da justiça nesse país?

  12. margot riemann

    24 de março de 2015 10:52 am

    Alguns apontamentos:a) o

    Alguns apontamentos:

    1) o rentismo é fenômeno global.. Munidalmente o capital financeiro rende mais lucros que o capital produtivo. Também vem caindo em todos os países o peso relativo da renda do trabalho na formação da riqueza nacional.

    2) Em reação, orquestrado pelas mídias em todos os países, e com algumas exceções (Grécia, Espanha), vêm crescendo os movimentos de direita. O povo é manipulado para culpar os imigrantes (ou os gastos com bolsa-família) pelas dificuldades de ascensão econômica, pela insuficiência dos serviços públicos, etc. 

    3) O modelo de  ‘capitalismo atrasado, rentista, patrimonialista e necessariamente corrupto’ tem raízes seculares ancorado nos interesses do grande capital internacional (que o implantou estabelecendo alianças com oligarquias regionais e sistematicamente corrompendo agentes do Estado) e também nacional. Modificar este modelo implicaria em mudanças na dinâmica das forças políticas

    4) Não é possível mudar relações de poder de forma voluntarista, com canetadas. Este foi o grande erro de Dilma. Enfrentou o rentismo, baixando a selic  sem o devido respaldo político. Assim, teve que voltar a subir os juros, e a parcela do orçamento destinado à rolagem da dívida subiu de 15% em 2011 para 19% em 2015. E enfrentou a corrupção colocando Graça Foster, desmontando esquemas montados, ameaçando os cartéis das empreiteiras. Este é o verdadeiro fundamento da  oposição a Dilma. Trata-se de uma tentativa de voltar à velha ordem.

    5) O PT ascendeu ao governo em 2002 com respaldo para enfrentar a questão social e não para mudar a engrenagem de poder e contestar os grandes grupos econômicos nacionais e internacionais. Quando o fez – caso de Dilma – enfrentando os altos juros e a corrupção, desencadeou um movimento golpista.

    6) As forças do  rentismo, patrimonialismo e dos beneficiários da corrupção estão dispostas ao vale-tudo. Soma-se a isto a gana da oposição para voltar ao governo, ao controle da Petrobras, do Banco do Brasil, Caixa etc.

    7) O fantasma do fascismo só não é mais forte no Brasil porque as instituições da sociedade civil têm sólidas raízes democráticas. A sociedade quer superar o subdesenvolvimento. Quer ter o padrão econômico, político e social de país desenvolvido. Quer superar o rentismo, patrimonialismo e a corrupção. O problema que passou a culpar erroneamente o PT por essas mazelas.

    8) A cruzada contra a corrupção foi incentivada pela mídia para poder atingir o PT.  No bojo desta cruzada assistimos hoje a um verdadeiro ‘politicídio’: tentativa, no momento bem sucedida, de destruição do PT. E como processos políticos podem ter desfechos imprevisíveis, nunca é demais lembrar da frase do alemão Niemöller:

    Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista. Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era social-democrata. Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista. Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu. Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse.

    Explicando: hoje a mídia mira o PT. E o processo de desconstrução é levado a cabo de maneira precisa e científica. Amanhã pode mirar outro grupo político. 

    Independente dos erros do PT,  que são muitos – a máquina partidária burocratizou-se e o partido afastou-se em muitas regiões da socidade – não é aí que reside o problema. Os governos petistas foram altamente vitoriosos, avanços importantíssimos, que vão além da diminição da desigualdade e inclusão social, foram conquistados. Nada justifica a demonização que está em curso. Trata-se de uma campanha política liderada com êxito pela mídia.

    Diante da gravidade do momento político atual, vejo a união de forças políticas em defesa da democracia, dos direitos sociais, dos interesses da nação como absolutamente imprescindível.

    1. Luís Henrique Donadio

      24 de março de 2015 1:36 pm

      “Este é o verdadeiro

      “Este é o verdadeiro fundamento da  oposição a Dilma. Trata-se de uma tentativa de voltar à velha ordem.”

      Quoted for truth. Foi na veia e colheu o sangue.

      A questão é: como a tentativa de voltar à velha ordem consegue se dissimular como tentativa de destruir “a ordem de sempre”, e como se desconstrói essa autêntica journée des dupes?

  13. Batata

    24 de março de 2015 4:03 pm

    A Ilha de Thomas More

    Realmente não é simples entender a crise, principalmente se a gente usa os óculos errados.

    Acho que a Margot Riemann foi brilhante na refutação de equívocos monumentais desse artigo, utilizando as devidas lentes corretivas. Gostaria de me ater a alguns pontos que acho necessário indicar para reflexôes/reinterpretações.

    ” … uma crise tipicamente tupiniquim …”

    Já de partida o analista da crise opta por ignorar os entornos de seu objeto, privilegiando a estratégia míope de análise. Se estivéssemos na Ilha dos puros e dos bons de Thomas More, ainda poderíamos concordar; mas hoje a dita ilha utópica estaria assim como a de Jersey ou as Cayman, onde os auto presumidos bons nadam de braçada.

    A crise de 2008 não existiu, o mundo não sofreu nenhuma mudança significativa nos últimos 15 anos? Os BRICS não alteraram a geopolítica mundial? A UNASUL não blindou os países sul-americanos de interferências dos interesses do Capital Internacional?

    Quem foi protagonista disso tudo? Quem teve peso político na seara internacional para compor esses novos alinhamentos?

    Não foi a Austrália!

    Se olharmos para além de nossas fronteiras, vamos nos deparar com com processos similares ocorrendo na Argentina e na Venezuela. Meras coincidências? Ou seria um processo que visa o desmanche da UNASUL / Mercosul?

    Não seria também mera coincidência que, a empresa que operou o esvaziamento da presença internacional na exploração da principal jazida descoberta nos últimos anos, e que se tornou no vetor de um processo de desenvolvimento gerido à revelia dos jogos internacionais de exploração de petróleo seja o foco dessa crise, onde se opera despudoradamente no sentido de desmontá-la? 

    A derrubada dos preços do petróleo, articulada pelo Obama e pelo Rei Saudita (êles tem nome?), não tinha alvo de impacto? Rússia, Iran, Venezuela e Brasil (com a Petrobrás na berlinda)?

    ‘O Caso Mattei’ foi uma obra meramente ficcional? Qualquer relação com o que vemos hoje são fantasias conspiratórias.

    “Um Governo que reluta governar …”

    Governar seria o quê? Fechar o Congresso e caçar os acusados de corrupção, impondo soluções jacobinas? Aliar-se a Eduardo Cunha e apoiá-lo para a Presiddência da Câmara? Intervir no Judiciário e impor limites às investigações? Afrontar o Presidente da Câmara e o Congresso como fez o Ministro Cid Gomes, jogando para o ar o ato de governar?

    Esse Governo teve que ser montado no fio de uma lâmina de uma denúncia sob sigilo, que poderia estar incriminando qualquer indicado, e com a preocupação de compor uma base de sustentação no Congresso e fora dele, depois de uma eleição polarizada e da configuração de um Congresso descaradamente conservador. O financiamento privado do processo eleitoral deixou suas marcas indeléveis, quer conseguindo emplacar bancadas escancaradamente atreladas a interesses dos diversos setores empresariais, quer acuando os partidos de centro-esquerda com acusações de desvios de dinheiro público.

    ” … nunca tivemos soluções jacobinas para nossas crises.”

    Como será que o articulista analisa 1964? Vacância de poder, como queria o Ranieri Mazzilli? Ou o jacobinismo não pode ser conservador, restaurando as crises de hegemonia política com os tanques na rua? Os métodos de Guillotin foram transfigurados pelas novas tecnologias francesas desenvolvidas na Argélia, obnubilando o caráter jacobino?

    ” … há evidentes sinais de esgotamento do modelo do capitalismo brasileiro”

    Chevron, Bosch, Fiat, HSBC, Santander, TIM, Microsoft, Bayer, Sony, Mercedes, IBM, Coca-Cola, SABESP (com seus investidores internacionais), ………..

    Rebuscaremos a velha Burguesia Nacional para explicar isso? Ou devemos tratar da permeabilidade do Capital Internacional em nossos processos produtivos?

    ” … sugerir que o PSDB e a mídia foram protagonistas da convocação dos protestos é não perceber o que ocorre na sociedade.”

    O jogo ambíguo das lideranças do PSDB/DEM/Solidariedade, só os preservou de terem que assumir publicamente suas intenções, operando da maneira que pensam os processos produtivos: terceirizações; a Fundação do Lehman, como base de operações, os cabos eleitorais e o baixo clero psdbista assumindo a máscara de apartidários; os irmãos Koch (financiadores do Tea Party) financiando formação de jovens e entidades ligadas à organização dos protestos; e a mídia em convocação e cobertura permanentes são uma mera consequência ou coincidência ou curiosidade jornalística para com o grande acontecimento do século?

    Desse jeito é fácil resumir a crise a apenas um dos lados da luta política. A culpa é da Dilma e do PT.

    Não adianta citar Faoro, Gramsci e Trotsky, e não dar cabo dos contornos da luta de classes contemporânea, acenando desde o princípio que tudo (ou nada) pode acontecer.

    Será que esse muro é largo para continuar se equilibrando em cima?

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