Crônica do capitalismo que não veio, por Rui Daher
Nem bem saí do lançamento da biografia de Walther Moreira Salles, “banqueiro-embaixador e a construção do Brasil”, (Companhia Editora Nacional, SP, 2019) escrita por Luís Nassif, e já no táxi comecei a devorar as primeiras páginas.
Todos me sabem vaidoso. Claro que a primeira coisa que fiz foi ler sua dedicatória: “Ao Rui e Cléo, cenas de um país que dava certo”.
E dava.
Quando jovem, misturava o socialismo, a revolução permanente de Trotsky e, aluno dos beneditinos, o calvário do mais antigo revolucionário, Jesus Cristo, segundo informes que nos chegaram D.C.
A queda do Muro de Berlim, no final de 1989, e a derrocada do comunismo soviético no início da década de 1990, mostravam-me que por erros intrínsecos ao sistema que se pretendia implantar, com justiça e igualdade sociais, ou pela força de divulgação do ideário capitalista, seja em infra e superestrutura, o sistema econômico seria imbatível séculos afora.
Países do 3º mundo, emergentes, pobres, seja lá como os queiram rotular, teriam destinos apenas subalternos aos interesses do Ocidente hegemônico. Hoje em dia, não mais apenas, conforme tenho lido e anotado em meus artigos. Junte-se aí a virada para a Ásia, como próximo centro do mundo.
Não sei precisar se aí teremos alguma vantagem ou dará na mesma. O que poderiam fazer as Américas do Sul, Central e o continente africano para impedir o avanço imperialista ocidental e chinês rotulado, conforme Eric Hobsbawm (1917-2012), de globalização?
Ao mesmo tempo em que cobrava do Luís o lançamento do livro e dele ouvia preciosismo acurado, conversava com meu grande amigo Roberto Grün sobre o Partido dos Trabalhadores (PT), que à primeira oportunidade no Poder Executivo, não se unira aos setores mais avançados do capitalismo nacional.
Roberto, que me levou a estudar a contemporaneidade do marxismo clássico, me dizia: “Rui, eles não existem mais. Sobraram os rentistas improdutivos. Não mais os capitães de indústria, como Moreira Salles, Roberto Simonsen, a família Ermírio de Moraes, Gerdau, outros”.
Corri aos livros, às suas histórias e feitos, e entendi o Roberto. Da mesma forma como sei que, ao final da leitura da biografia de Walther Moreira Salles, por Luís Nassif, entenderei “o país que dava certo”.
Comentários fechados.