
A lista de Janot teve o efeito de um tiro disparado por um sniper dirigido ao centro do coração do Congresso Nacional. Além de acertar Renan Calheiros e Eduardo Cunha, os estilhaços do tiro atingiram nada menos do que a CPI da Petrobrás, o Conselho de Ética e a CCJ. Todos sabemos que muitas investigações ainda precisam ser feitas e as culpabilidades ou inocências estabelecidas. É verdade também que há que se ter cautela acerca das delações premiadas. Mas existem indícios fortes na sustentação dos pedidos de investigação, suficientes para deixar o país estarrecido e indignado. O Ministério Público foi excessivamente cauteloso, pois poderia ter pedido o indiciamento de vários nomes.
As figuras de proa das instituições parlamentares e os nomes de envergadura de vários partidos constantes na lista seriam suficientes para determinar o fim de uma era política em qualquer país sério. Mas, no Brasil, as ações de políticos voltadas para o mal parecem não ter limites. Nem mesmo a dura lição do Mensalão, que ceifou a carreira de lideranças históricas do PT, serviu de lição para os políticos de diversos partidos e menos para políticos do PT que, salvo provas em contrário, persistiram nos malfeitos. Enquanto a boa governança, com poucas exceções, é uma raridade, a ousadia para a corrupção desafia a imaginação. Ou seja: falta coragem para fazer o que é certo, justo e o republicano e sobra covardia para enganar o povo e assaltar a coisa pública.
A degradação moral dos políticos e das instituições produz conseqüências sociais desastrosas: o Brasil é o país mais violento do mundo, segundo a Anistia Internacional; aqui se mata mais do que três zonas de guerra juntas; os jovens pobres e negros, além de serem as maiores vítimas da violência, são os que menos têm oportunidades; a violência contra as mulheres está entre as maiores do mundo; as drogas devastam parcela importante da sociedade; o ensino é de má qualidade e bloqueia um salto do Brasil para o futuro; a sonegação fiscal é uma prática generalizada que sangra os cofres públicos mais do que a corrupção. Todas essas tragédias foram naturalizadas pelos políticos e pela sociedade. Espantamos-nos com o que acontece nas guerras do Oriente e nos tornamos insensíveis na percepção dos nossos males e das nossas dores.
O cinismo incorporou-se ao quotidiano das instituições. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, tenta atribuir a inclusão do seu nome na lista de Janot por influência do Planalto e por motivos de perseguição política. Na verdade, nem o próprio Janot tinha margem para fazer manobras interessadas ou persecutórias em sua lista. Ela já veio informada pela Justiça Federal do Paraná e pelas investigações conduzidas pelo juiz Sérgio Moro. Qualquer deslize do Procurador Geral o colocaria em dificuldade em face das informações colhidas previamente nas investigações. Na sua esperteza, Cunha quer confundir a opinião pública fugindo de suas responsabilidades. O mínimo que se espera dos presidentes da Câmara e do Senado e dos membros da CPI, do Conselho de Ética e da CCJ, arrolados nas investigações, é o afastamento de seus cargos enquanto as investigações durarem. Esta é uma exigência que deve ser estabelecida pela sociedade se se quiser preservar as instituições democráticas e republicanas do país.
Uma Nova Chance Para Dilma
A lista de Janot exerce um efeito paradoxal sobre o governo e a presidente Dilma. Por um lado, uma crise de tal dimensão não é boa para nenhum governo, pois aumenta os riscos e afeta a economia e a governabilidade. Um Congresso em crise, ainda mais com uma base aliada arredia a um governo que não dialoga, faz crescer as incertezas.
Por outro lado, na medida em que o epicentro da crise se desloca do governo para o Congresso, Dilma tem uma oportunidade ímpar para iniciar efetivamente seu segundo mandato e emergir mais forte do que ela está no momento. Dilma foi beneficiada por três fatores: 1) está fora das investigações, o que enfraquece a tese do impeachment; 2) dois atores incômodos, Renan e Cunha, que vinham apostando contra o governo, foram atingidos em cheio pela lista; 3) a oposição também foi atingida com a inclusão do nome do senador Antônio Anastasia (PSDB) e pela acusação de que o ex-presidente do partido, Sérgio Guerra, já falecido, teria recebido R$ 10 milhões do esquema de corrupção da Petrobrás.
Mas para que a chance de Dilma se concretize, ela precisa fazer a coisa certa. Ou seja: a presidente precisa liderar o processo do ajuste fiscal, fortalecendo a equipe econômica, hoje o único caminho que permite a recuperação da economia lá adiante; trazer o PMDB para o núcleo central do governo e conceder aos aliados de Michel Temer mais poder de articulação no Congresso; dialogar mais com os partidos aliados e com a sociedade; distensionar as relações com a oposição, particularmente com o PSDB; apresentar-se como líder de um Brasil que passa por dificuldades, mas indicando um caminho otimista de superação; melhorar a gestão e a qualidade dos serviços públicos; melhorar a eficiência e o desempenho da Petrobrás para contrabalançar a crise que a envolve.
É certo que tudo isto é difícil, pois parte dos aliados e setores do PT jogam contra o ajuste. Mesmo que medidas do ajuste sofram derrotas no Congresso, o governo tem condições de persegui-lo com ações que não dependem de aprovação parlamentar. O fato é que a quota de erros que o governo Dilma poderia cometer chegou a seu limite. O lugar que Dilma terá na história agora depende do seu equilíbrio, de sua prudência, da sua disposição de ouvir e de comandar o Brasil num momento de grandes dificuldades.
Aldo Fornazieri – Cientista Político e Professor da Escola de Sociologia e Política.
NICKNAME
9 de março de 2015 12:31 pmsetores do PT jogam contra o ajuste”.
Aldo não diz nada de novo,mas é,e acerta,precisa bater nat ecla com q concordo,de stores do PT(e digo:de Sindicalistas ).Atrevo-me a repetir,mesmo,até pq há artigos-títulos e maioria de comentários/comentaristas,q agouram,q fazem algumas análises ou precipitadíssimas,pessimistas).Impeachmente não interessa ao PSDB(q tem força),nem ao PMDB (a parte mais decente – q há).Delfim Neto,há quem torça o nariz, não o leia e.. não o tenha gostado,tem ótima análise citando um excelente analsita econômico.É lastimável q basta um artigo-título ser assinado p/um Mauro Santayana q lá vêm aplausos abundantes (lidos sem senso mais crítico ).Existem outros blogs c/alguns melhores e diversos colaboradores, no campo de esquerda, talvez p/isso tenham menor audiência.Não são partidários. “a platéia ainda pede bis, a platéia só deseja ser feliz” – a música
NICKNAME
9 de março de 2015 1:25 pm«Aún cuando todos los expertos coincidan, pueden muy bien…
«Aún cuando todos los expertos coincidan, pueden muy bien estar equivocados»./«El mundo necesita mentes y corazones abiertos, y estos no pueden derivarse de rígidos sistemas ya sean viejos o nuevos» /«El problema de la humanidad es que los estúpidos están seguros de todo y los inteligentes están llenos de dudas»./«Lo que los hombres realmente quieren no es el conocimiento, sino la certidumbre”; (Esta última vi tb. em newsletter q recebia,em castelhano,p/um antivírus espanhol,atuamente uso outro,tb completo,alemão, muito bom). http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/1950/
Andre Araujo
9 de março de 2015 12:33 pmNão vi tiro algum, como o
Não vi tiro algum, como o Ministro Relator pediu a abertura de inquerito, a coisa vai ser empurrada para alguma hora cair da mesa, se fosse denuncia seria muito pior, quem vai pagar a conta serão os empresarios, como era previsivel.
Ivo Zefiro
9 de março de 2015 12:56 pmGlobo bate em Dilma e defende Alckmin
Enquanto Dilma leva bomba da imprensa, veja como a Globo protege Alckmin desinformando a população sobre o protesto feito na USP
https://www.youtube.com/watch?v=GnXls9NUc2E
Fábio de Oliveira Ribeiro
9 de março de 2015 1:18 pmÉ um erro confundir o
É um erro confundir o Congresso Nacional com o presidente do Senado e o presidente da Câmara. Ambos podem ser afastados e até, conforme o caso, presos. Nada do que ocorrer com eles impedirá o funcionamento do Congresso Nacional, pois a instituição pública é perene e sua existência independe deste ou daquele parlamentar.
antonio francisco
9 de março de 2015 1:51 pmBurburinho e Brasil247 de olho
https://twitter.com/stanleyburburin/status/574789359427321856
OLHA ESSA: Tesoureiro do PT, Vaccari será julgado direto pelo STF | Brasil 24/7 Ao contrário do tucano Azeredo
http://www.brasil247.com/pt/247/brasil/172476/Tesoureiro-do-PT-ser%C3%A1-julgado-direto-pelo-STF.htm
NICKNAME
9 de março de 2015 2:11 pmAntônio, gosto é gosto: não gosto do 247
brasil247 , não gosto.
Cada um com seu gosto e leituras e contribuições (válidas pra uns, nem tanto pra outros, isso é normal). Nâo considere como mera contrariedade.
Luís Henrique Donadio
9 de março de 2015 1:52 pmMuito bom o artigo,
Muito bom o artigo, restabelece um mínimo de bom-senso.
Principalmente em relação ao chororô das empreiteiras e à teoria de alguns de que o governo só se salva mediante um acordão com Renan e Cunha.
Esses dois subiram no telhado, acordo com eles é na melhor hipótese inócuo. Na pior, é suicídio político. Não demora vão ter de renunciar aos seus tão duramente conquistados carguinhos nas mesas do legislativo.
Juliano Santos
9 de março de 2015 2:16 pmVinha discirdado dos post do
Vinha discirdado dos post do Fornazieri. Mas nesse disse uma frase certeira. ” A cota de erros da Dilma se esgotou”. Um erro grave agora seria contar com a paciência do povão para aguardar que depois do tal ajuste a sua vida possa retomar a melhora que vinha tendo desde Lula.
Precisa ser presente e atuante para induzir no povo esse otimismo. Por si só, na inércia, isso não vai acontecer. Por enquanto só esse pronunciamento foi pouco. Se não chamar para si o apoio do seu núcleo duros de apoiadores, os mais pobres, estes ficarão em silêncio assistindo o barulho da classe média golpista que vem sendo estimulada diariamente pelo pig
NICKNAME
9 de março de 2015 5:16 pma adoração ao povo
coisa de crente, mesmo. Basismo (pra usar “ismos”, coisa que detesto, mas tô usando aki). A maior fiscalização sobre bolsas-família, por exemplo, é apreciada pelo povão e pela classe média, um golpe com uma cajadada só. Dilma joga xadrez. Agora, sou eu que repito e repito: erro crasso é criticar Dilma e qq um des seus ministros. O pronunciamento não foi pouco, mas… tudo é pouco, sempre. Bolcheviques que achavam pouco viraram cinzas, não que eu concorde, mas tem hora (não de fuzilamentos e ostracismos), mas de críticas e crítcas.A começar pelo Nassif e GGN, já basta Aldo Fornazieri, quanto agouro..
CARLOS CARIACÁS
9 de março de 2015 6:23 pmPorém Dilma joga no lixo as chances
Adorei o artigo. todavia, duvido muito ue Dilma e qualquer um de seu núcleo de governo leia ou, se ler, aplique as sugestões que você apresenta e que o país e quem votou nela sabem que são urgentes. Perdi a esperança (não falo aqui nem de confiança) na capacidade de Dilma de se erguer. Como disse Ciro Gomes, a presidente tem um bom anjo da guarda diante das patetadas políticas dela e de seus conselheiros. estou preparando a minha alma para o pior: o retrocesso político, do conservadorismo… E a culpa é de Dilma e também é de Lula (pois sabia do perfil autoritário, centralizador da presidente). Dilma sempre jogou fora as chances, demonstrou inflexibilidade (vício que destroi quem quer se manter no poder). Dilma não tem conceto. O fim dela e de todos nos que desejavamos mais justiça social caminha para onde ela jogou suas chances: no lixo.
Calvin
9 de março de 2015 7:11 pmMenos, e não mais comando estatal!
Menos presença do Estado é o que poderá garantir menos corrupção, pela diminuição da venda de facilidades para sanar dificuldades.
O Brasil que produz (e a Embraer, a Vale, as Teles) estão aí, intactas e produzindo, aguardando que o paquiderme saia do caminho.