
Entro no café em Poços de Caldas e dou de cara com Chico Formoso. Só os mais antigos para saberem a lenda urbana que foi Chico, o radialista mais conhecido da maior rádio que o interior brasileiro já conheceu, a gloriosa rádio Cultura de Poços.
O cast da Cultura era imbatível, o Chico, os locutores Wagner Durante, Oswaldo Correia, o repórter Eduardo (me esqueci o sobrenome). E a concorrente, Difusora, era mais humildinha, tendo como locutor o Francisco Chacon, e sua voz de bronze, e como repórter o Mauro Silva, que depois fez carreira na rádio Bandeirantes.
Por aqueles tempos, a Cultura já tinha sido vendida para a Rede Bandeirantes.
O apelido de Chico Formoso veio a propósito de uma grande semelhança com o personagem Amigo da Onça, de Péricles. Feio, sim. Mas permanentemente alinhado e galanteador, dono de um charme reconhecido pelas moças de Poços e arredores.
Início dos anos 70, com a Difusora entrando na cidade, o governador Rondon Pacheco vem em visita à cidade. Dona da audiência, a Cultura deitou em berço esplêndido, com uma entrevista exclusiva garantida.
Enquanto isto, Mauro Silva pegou sua lambretinha e se pôs rumo à estrada de Caldas, por onde vinha a comitiva de Rondon. Houve uma parada providencial da comitiva, aproveitada por Mauro para gravar uma entrevista, montar na lambreta, acelerar, chegar em Poços e colocar a entrevista no ar, antes mesmo da chegada da comitiva.
O feito doeu fundo no amor-próprio da equipe da Cultura. Chico foi imediatamente enviado ao Palace Hotel para antecipar a entrevista coletiva e sufocar o enorme estardalhaço que estava sendo feito pela concorrente Difusora.
Lá, informaram que o governador recolhera-se aos seus aposentos – como se dizia na época – para descansar e não queria ser interrompido. O bravo Chico não se fez de rogado: driblou a segurança de Rondon e ficou de tocaia no terceiro andar, aguardando o momento em que Rondon sairia dos aposentos.
Aqui, um pequeno parêntesis.
Rondon Pacheco era uma pessoa extraordinariamente medrosa. Tinha medo até de bicho-papão. Conta-se que dormia de luz acesa.
Pois foi Rondon sair do apartamento para ver pela frente um sujeito com a cara do Amigo da Onça, com uma geringonça na mão – que, depois, soube-se ser um gravador especial – gritando a plenos pulmões: “Governador, governador!”.
Rondo saiu correndo gritando “socorro”, sendo perseguido pelo Chico gritando “governador, governador”.
Apareceu a segurança e Chico foi preso e, depois, libertado, graças à intervenção do prefeito municipal.
Outro grande nome do rádio local, Wagner Durante, quase chegou a locutor da rádio Bandeirantes.
Dono de uma voz potente, bonita mesmo, e de expressões que caíam no gosto do povo da cidade, foi escalado para um teste em um jogo do São Paulo.
No meio do jogo a bola cai na área do São Paulo e era pontapé para todo lado. E Wagner usou a expressão que o consagrara em Poços: “Rebuceteio na área do São Paulo!”. “Rebuceteio” é uma expressão popular em Poços, tanto quanto o “por bosta” em São João da Boa Vista: “fulano é feio por bosta”, “aquela menina é bonita por bosta”.
Os paulistas não entenderam direito o alcance cultural da expressão e despacharam Wagner Durante de volta para Poços.
Cláudio José
18 de janeiro de 2015 2:08 pmNassif você deve ter muitas
Nassif você deve ter muitas boas histórias de bastidores não precisa dar o nome dos santos, mas coloque no blog, para agente rir um pouco!
Eduardo Ramos
18 de janeiro de 2015 3:28 pmdaquilo que não tem preço:
daquilo que não tem preço: nossa memória afetiva, nossa história…..
jns
18 de janeiro de 2015 3:54 pmCajú e Totonho
“Vai chupar dinamite aceso!”
Nos bastidores da emissora de rádio 98 Futebol Clube
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Urariano Mota
18 de janeiro de 2015 5:06 pmTentando continuar o fio da história
Isto aconteceu quando eu apresentava o programa Violência Zero, na Rádio Tamandaré, que começava ao meio-dia, todos os sábados. O Violência Zero foi um espaço de direitos humanos, bancado por Fernando Lira, quando ele era Minsitro da Justiça. Pois bem, estamos eu e Mariana Arraes lendo as linhas da reportagem, ali naquele aquário (nave fechada ao ruído externo do estúdio, mas vista por vidros), quando entra Rui Sariunho, o produtor do programa, esbafoido a falar baixinho mas quase gritando:
– Cristina Tavares vai entrar no ar, pelo telefone!
Cristina Tavares era a brava deputada que veio da oposição à ditadura. Então eu perguntei a Rui, baixinho, depois de uma deixa pra fala de Mariana:
– Ela está em Brasília?
– Não. Ela está no aeroporto daqui!
E Rui sumiu, rápido e magro como ele só, anunciou a nova e sumiu. Então a voz da deputada entrou no ar:
– Boa tarde, amigos e ouvintes do nosso Violência Zero.
E eu:
– Boa tarde, deputada. Bem-vinda à´nossa terra, De volta ao Recife?
Ela:
– Não, eu não estou chegando…
E eu, rápido, porque em rádio não pode haver vacilo, silêncio, pausa no ar, porque gera um “buraco radiofônico”. Rápido, peguei-a na palavra:
– Ah, então está partindo. Boa viagem, deputada!
E Cristina, embaraçada:
– Naaão. Eu estou aqui esperando uma amiga…
Foi uma gozação geral. A minha única defesa depois do programa foi esta: se uma deputada está no aeroporto, como é que ela nem viaja nem está chegando?
Marcelo T. Duarte
18 de janeiro de 2015 6:08 pmO sobrenome do repórter
Luis,
O nome completo do repórter era Eduardo Paiva já falecido.
Marcelo
Andre Araujo
18 de janeiro de 2015 11:23 pmOs locutores da época de ouro
Os locutores da época de ouro do rádio tinham voz empostada, dicção caprichada, português escorreito. Hoje, especialmente na Bandeirantes, é um festival caipira, os comentaristas de futebol fazem questão de exagerar no caipirês,
mas será que décadas na Capital não corrigem esse horrendo sotaqme, outro pior ainda, tem o sotaque e o português de
clube de varzea, tipo o personagem Coalhada, do imortal Chico Anisio.
A Cultura de Poços era das famosas fora do circuito Rio-São Paulo, como a Radio Clube de Pernambuco, Verdes Mares de Fortaleza, Sociedade da Bhia. O português de locutor tinha que ser limpido, porque essa tradição acabou?
LACosta
18 de janeiro de 2015 11:29 pmAqui na terra a expressão foi mais forte…ou tanto quanto
Ainda vivo e em atividade o narrador esportivo da Cultura D’Oeste utilizou a expressão equivalente ao “Rebu…” o famoso “C* de burro”!!!