4 de junho de 2026

Histórias de radialistas

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Entro no café em Poços de Caldas e dou de cara com Chico Formoso. Só os mais antigos para saberem a lenda urbana que foi Chico, o radialista mais conhecido da maior rádio que o interior brasileiro já conheceu, a gloriosa rádio Cultura de Poços.

O cast da Cultura era imbatível, o Chico, os locutores Wagner Durante, Oswaldo Correia, o repórter Eduardo (me esqueci o sobrenome). E a concorrente, Difusora, era mais humildinha, tendo como locutor o Francisco Chacon, e sua voz de bronze, e como repórter o Mauro Silva, que depois fez carreira na rádio Bandeirantes.

Por aqueles tempos, a Cultura já tinha sido vendida para a Rede Bandeirantes.

O apelido de Chico Formoso veio a propósito de uma grande semelhança com o personagem Amigo da Onça, de Péricles. Feio, sim. Mas permanentemente alinhado e galanteador, dono de um charme reconhecido pelas moças de Poços e arredores.

Início dos anos 70, com a Difusora entrando na cidade, o governador Rondon Pacheco vem em visita à cidade. Dona da audiência, a Cultura deitou em berço esplêndido, com uma entrevista exclusiva garantida.

Enquanto isto, Mauro Silva pegou sua lambretinha e se pôs rumo à estrada de Caldas, por onde vinha a comitiva de Rondon. Houve uma parada providencial da comitiva, aproveitada por Mauro para gravar uma entrevista, montar na lambreta, acelerar, chegar em Poços e colocar a entrevista no ar, antes mesmo da chegada da comitiva.

O feito doeu fundo no amor-próprio da equipe da Cultura. Chico foi imediatamente enviado ao Palace Hotel para antecipar a entrevista coletiva e sufocar o enorme estardalhaço que estava sendo feito pela concorrente Difusora.

Lá, informaram que o governador recolhera-se aos seus aposentos – como se dizia na época – para descansar e não queria ser interrompido. O bravo Chico não se fez de rogado: driblou a segurança de Rondon e ficou de tocaia no terceiro andar, aguardando o momento em que Rondon sairia dos aposentos.

Aqui, um pequeno parêntesis.

Rondon Pacheco era uma pessoa extraordinariamente medrosa. Tinha medo até de bicho-papão. Conta-se que dormia de luz acesa.

Pois foi Rondon sair do apartamento para ver pela frente um sujeito com a cara do Amigo da Onça, com uma geringonça na mão – que, depois, soube-se ser um gravador especial – gritando a plenos pulmões: “Governador, governador!”.

Rondo saiu correndo gritando “socorro”, sendo perseguido pelo Chico gritando “governador, governador”.

Apareceu a segurança e Chico foi preso e, depois, libertado, graças à intervenção do prefeito municipal.

Outro grande nome do rádio local, Wagner Durante, quase chegou a locutor da rádio Bandeirantes.

Dono de uma voz potente, bonita mesmo, e de expressões que caíam no gosto do povo da cidade, foi escalado para um teste em um jogo do São Paulo.

No meio do jogo a bola cai na área do São Paulo e era pontapé para todo lado. E Wagner usou a expressão que o consagrara em Poços: “Rebuceteio na área do São Paulo!”. “Rebuceteio” é uma expressão popular em Poços, tanto quanto o “por bosta” em São João da Boa Vista: “fulano é feio por bosta”, “aquela menina é bonita por bosta”.

Os paulistas não entenderam direito o alcance cultural da expressão e despacharam Wagner Durante de volta para Poços.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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7 Comentários
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  1. Cláudio José

    18 de janeiro de 2015 2:08 pm

    Nassif você deve ter muitas

    Nassif você deve ter muitas boas histórias de bastidores não precisa dar o nome dos santos, mas coloque no blog, para agente rir um pouco! 

  2. Eduardo Ramos

    18 de janeiro de 2015 3:28 pm

    daquilo que não tem preço:

    daquilo que não tem preço: nossa memória afetiva, nossa história….. 

  3. jns

    18 de janeiro de 2015 3:54 pm

    Cajú e Totonho

     

    “Vai chupar dinamite aceso!”

    Nos bastidores da emissora de rádio 98 Futebol Clube

    [video:http://youtu.be/Bw4MbQ21La0 width:600 height:450]

  4. Urariano Mota

    18 de janeiro de 2015 5:06 pm

    Tentando continuar o fio da história

    Isto aconteceu quando eu apresentava o programa Violência Zero, na Rádio Tamandaré, que começava ao meio-dia, todos os sábados. O Violência Zero foi um espaço de direitos humanos, bancado por Fernando Lira, quando ele era Minsitro da Justiça. Pois bem, estamos eu e Mariana Arraes lendo as linhas da reportagem, ali naquele aquário (nave fechada ao ruído externo do estúdio, mas vista por vidros), quando entra Rui Sariunho, o produtor do programa, esbafoido a falar baixinho mas quase gritando: 

    – Cristina Tavares vai entrar no ar, pelo telefone! 

    Cristina Tavares era a brava deputada que veio da oposição à ditadura. Então eu perguntei a Rui, baixinho, depois de uma deixa pra fala de Mariana: 

    – Ela está em Brasília?

    – Não. Ela está no aeroporto daqui!

    E Rui sumiu, rápido e magro como ele só, anunciou a nova e sumiu. Então a voz da deputada entrou no ar: 

    – Boa tarde, amigos e ouvintes do nosso Violência Zero.

    E eu:

    – Boa tarde,  deputada. Bem-vinda à´nossa terra, De volta ao Recife?

    Ela:

    – Não, eu não estou chegando…

    E eu, rápido, porque em rádio não pode haver vacilo, silêncio, pausa no ar, porque gera um “buraco radiofônico”. Rápido, peguei-a na palavra: 

    – Ah, então está partindo. Boa viagem, deputada!

    E Cristina, embaraçada:

    – Naaão. Eu estou aqui esperando uma amiga…

     

    Foi uma gozação geral. A minha única defesa depois do programa foi esta: se uma deputada está no aeroporto, como é que ela nem viaja nem está chegando? 

  5. Marcelo T. Duarte

    18 de janeiro de 2015 6:08 pm

    O sobrenome do repórter

    Luis,

    O nome completo do repórter era Eduardo Paiva já falecido.

    Marcelo

  6. Andre Araujo

    18 de janeiro de 2015 11:23 pm

    Os locutores da época de ouro

    Os locutores da época de ouro do rádio tinham voz empostada, dicção caprichada, português escorreito. Hoje, especialmente na Bandeirantes, é um festival caipira, os comentaristas de futebol fazem questão de exagerar no caipirês,

    mas será que décadas na Capital não corrigem esse horrendo sotaqme, outro pior ainda, tem o sotaque e o português de

    clube de varzea, tipo o personagem Coalhada, do imortal Chico Anisio.

    A Cultura de Poços era das famosas fora do circuito Rio-São Paulo, como a Radio Clube de Pernambuco, Verdes Mares de Fortaleza, Sociedade da Bhia. O português de locutor tinha que ser limpido, porque essa tradição acabou?

  7. LACosta

    18 de janeiro de 2015 11:29 pm

    Aqui na terra a expressão foi mais forte…ou tanto quanto

    Ainda vivo e em atividade o narrador esportivo da Cultura D’Oeste utilizou a expressão equivalente ao “Rebu…” o famoso “C* de burro”!!!

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