3 de junho de 2026

O Julgamento do Século, por Marco St.

“Julgamento do século” é hoje uma expressão totalmente banalizada.

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Mas sim, houve nos anos 20 do século passado, um caso que mereceu ser chamado pela primeira vez desta forma, por tudo o que representou e representa até hoje, apesar de que tecnicamente, nem julgamento foi.

Um caso que ganhou repercussão nacional nos EUA e depois no mundo todo. Em um dado momento o mundo discutia a filosofia de Nietzsche e questionava a pena de morte.

Estou me referindo ao crime cometido em Chicago, no ano de 1924,  pelos brilhantes estudantes e amantes Nathan Freudenthal Leopold, Jr. e Richard Albert Loeb (Leopold e Loeb).

Os dois jovens que pertenciam a duas das famílias mais ricas e prósperas de Chicago eram extremamente inteligentes. Leopold com 19 anos era superdotado e já havia se formado na faculdade de direito. Loeb era o mais novo graduado da Universidade de Michigan.

Eis que em seus costumeiros debates intelectuais os dois resolveram planejar um assassinato, cometer o “crime perfeito” , inspirados, diriam eles,  por Nietszhe e sua obra (em especial OUbermensch  “Além-Homem” ou “Super-Homem”.

A vítima escolhida foi um garoto de 14 anos, primo de Loeb, chamado Bobby Franks

O garoto foi atraído para o carro pelos dois e assassinado com uma pancada na cabeça por um objeto de ferro efetuado por Loeb. Posteriormente os dois esconderam o corpo e jogaram ácido para tentar evitar a identificação. Escreveram uma carta aos pais de Frank simulando um sequestro e um pedido de resgaste.

O que os dois não esperavam é que um trabalhador local encontrou o corpo do garoto em um terreno isolado e a polícia achou junto ao corpo um par de óculos com uma armação rara e sofisticada. Em Chicago, apenas 3 pessoas tinham comprado o modelo. Uma delas era Nathan Leopold.

Todos os álibis que tentaram forjar caíram por terra. Os dois acabaram confessando e a imprensa começava ali uma cobertura midiática jamais vista. Leopold e Loeb deram inúmeras entrevistas explicando em detalhes o crime. A “razão” do cometimento do crime abalou profundamente a sociedade local e depois a nacional.

O julgamento se tornou um espetáculo da mídia. A família de Loeb contratou Clarence Darrow, um advogado que viria a se tonar uma lenda do direito americano. Darrow não se importava muito com a aparência. Andava com os cabelos desgrenhados e roupas sujas, mas já era famoso por ter defendido casos de assassinatos rumorosos na época e por seu protagonismo na defesa dos direitos civis. Ele odiava os religiosos fundamentalistas. A imprensa sensacionalista dizia que ele receberia 1 milhão de dólares por sua atuação. Na verdade recebeu 100 mil dólares divididos entre toda a sua equipe.

Darrow surpreendeu a todos quando os dois se declararam culpados. Dessa forma evitou um júri popular , que ele acreditava que poderia condenar seus dois clientes à pena de morte. Em vez disso,  pôde montar o caso em frente a apenas uma pessoa, o juiz  Jonh R. Caverty.

Chamou para testemunhas todos os melhores especialistas de comportamento humano da época. Médicos e psicanalistas. Darrow inclusive convidou Sigmund Freud para testemunhar. Ele só não foi porque já estava com sérios problemas de saúde e idade avançada para a viagem.

Durante as doze horas do último dia de julgamento, Darrow fez uma exposição, considerada a melhor de sua carreira. O discurso antológico, e que na verdade era mais do que uma tentativa de defesa, mas sim um líbelo contra a pena de morte,  incluía: “Esse terrível crime era inerente a esses garotos, … que havia se originado no passado … devemos culpar alguém que tomou os ensinamentos de Nietzshe em sua vida? … devemos realmente condenar um garoto de 19 anos pela filosofia que foi obrigado a absorver na faculdade?”  Os jornalistas presentes no tribunal afirmaram que ao final do discurso de Darrow muitos presentes estavam às lágrimas, inclusive o próprio Caverty. O juiz sentenciou Leopold e Loeb a prisão perpétua por assassinato, adicionados 99 anos pelo sequestro. Escaparam da pena de morte.

Anos mais tarde Loeb foi morto por outro prisioneiro e Leopold chegou a ser solto décadas depois. Escreveu um livro sobre o assunto. Morreu em 1971.

O impacto deste crime, da origem e do tórrido envolvimento amoroso dos assassinos, do julgamento, da atuação magistral do advogado e todas as suas consequencias, inclusive filosóficas,  impactaram profundamente a sociedade ocidental e em especial o mundo cultural.

A peça teatral “Rope” foi a primeira inspirada diretamente na filosofia do crime. Com o mesmo nome,  Alfred Hitchcok a adaptou para o cinema em 1948. No Brasil o filme se chamou Festim Diabólico.

 

Richard Fleischer em 1959 dirigiu o filme “Compulsion”,  (Estranha Compulsão ou Gênio do Mal). O destaque do filme é a atuação dos atores Dean Stockwell, Bradford Dillman e Orson Welles. Aqui, ao contrário do filme de Hitchcock, o foco do filme é o julgamento. Orson Welles só aparece na parte final do filme (fazendo o advogado da dupla). As 12 horas de discurso original de Darrow foram aqui condensadas e interpretadas magnificamente por Welles em um monólogo dos mais extensos já filmados por Hollywood na época.

Além desses filmes clássicos, há outras dezenas também inspirados no “crime perfeito”, no julgamento, (Hollywood produziu toneladas de filmes de julgamentos), na vida de Leopold e Loeb, e claro, na extraordinária vida de Clarence Darrow e suas atuações nos tribunais..

    

A trama também foi adaptada para inúmeros seriados de TV, literatura, música, bem como para livros sobre filosofia, psicologia, crimes, adolescentes, direito e etc.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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8 Comentários
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  1. Cesar Saldanha

    21 de dezembro de 2014 1:24 pm

    “do tórrido envolvimento amoroso dos assassinos”,

    os dois eram homossexuais? Foi isso que eu entendi? Pois, se houvesse um terceiro, a palavra seria trângulo amoroso, certo? Mas a questão em si seria a profundidade da frieza dos autores, que terminaram com  o derramento de sangue de um parente dos assassinos, que era inocente e presa fácil, os dois destruiram laços familiares com a monstrusidade de amobos. Por que isso? Poder? Conhecimento acima dos normais? Acima dos valores e códigos da sociedade? Acima da justiça? Ou esqueceram de Deus: “não matarás”? Quando o ser humano ultrapassa a linha dos valores e da razão entra em seu declínio humano. E quase um século se passou e a história desse desvio padrão humano permanecem em nossas memórias, por quê? Mais de 10.000 anos aconteceu o primeiro assassinato de sangue em família e o homem aceita os fatos como se fosse lenda: Caim e Abel.  

    1. dinarte22

      21 de dezembro de 2014 4:43 pm

      Caim e Abel?

      Ha 10 mil anos?  Ja tinha imprensa? Foi divulgado ou so anotação verbal? Ou o homem ja nasceu sabendo escrever?

      E eu que pensava que a humanidade tinha mais de 30 mil anos. Quem esta certo? o Corão? O Torá? os textos budistas? Os ensinamentos vedra?Ou a cultura das tribos asiaticas com mais de 40 mil anos?

      Procura-se nemo. E procura-se tambem adao e eva, mais seus filhos estranhos, que se odiavam. Terá o deus israelense errado na dose? Nao previu o que estava para acontecer? Ou queria isso mesmo?

       

       

    2. Athos

      22 de dezembro de 2014 3:36 pm

      Antes de ler o texto, ao ver

      Antes de ler o texto, ao ver apenas a foto, eu pensei que fosse um caso de assassinato de homosexuais…os da foto.

  2. Alessandre de Argolo

    21 de dezembro de 2014 4:09 pm

    Conheço o caso, que é famoso

    Além de Festim Diabólico de Hitchcock, teve um bom filme com a ótima atriz americana Sandra Bullock que foi baseado na história de Leopold e Loeb, chamado Murder by Numbers (no Brasil, Cálculo Mortal, 2002), dirigido por Barbet Schroeder, que também conta com Ryan Gosling e Michael Pitt no elenco fazendo o que seriam os papeis influenciados pela história de Leopold e Loeb.

  3. Horacio Duarte

    21 de dezembro de 2014 4:44 pm

    Simples

    Lá como aqui, ricos e brancos, claro que não morreram na cadeira eletrica.

  4. Carla Antonia

    21 de dezembro de 2014 6:31 pm

    Vítimas e carnífices

    De fato, em quase todos os casos de homicídios, a opinião pública parece esquecer da vítima, ou seja, uma vida interrompida por mão de um carnífice.

    O ponto é esse: uma pessoa simplesmente parou de viver, não teve mais direito de crescer, amar, sofrer, estudar, trabalhar, errar, acertar, envelhecer… nada, acabou… me pergunto até  onde chegam os direitos dos homicidas, que negaram a um ser humano o direito de existir… sem falar da dor que causaram aos sobreviventes…

  5. Jair Fonseca

    21 de dezembro de 2014 7:54 pm

    Caso extremo de incompreensão

    Caso extremo de incompreensão galopante do que seja a filosofia de Nitzsche.

  6. Paulo F.

    23 de dezembro de 2014 11:43 am

    Ue?

    Pensei nos Rosenberg ou melhor em Sacco & Vanzeti.

    Ou ainda em Dreyfus ou no julgamento (?) do caso Lindenberg.

    For Dreyfus, EUA onde o espetáculo sobrepuja a verdadeira justiça….

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