4 de junho de 2026

Apuração por telefone sem fio, por Vera Guimarães Martins

 
 
 
Ombudsman
 
Por Vera Guimarães Martins
 
Não foram só as campanhas partidárias que surfaram na onda acusatória nas eleições deste ano. A imprensa navegou como nunca na mesma maré. A busca do furo e do protagonismo jornalístico fez os veículos esgarçarem seus critérios, dando enorme publicidade a acusações que só poderão ser comprovadas no futuro. Se é que o serão.
 
Com a eclosão da Operação Lava Jato, que apura esquema de lavagem de dinheiro oriundo de corrupção, o jornalismo político foi alimentado por fontes anônimas que relatam declarações dadas por terceiros –no caso, dois delatores pegos com a boca na botija.
 
(Vale registrar uma exceção notável: a revelação da pista de pouso pavimentada pelo então governador Aécio Neves em terras de parentes, provada, documentada e noticiada pela Folha em julho.)
 
No mais, o resultado foram manchetes construídas com um fiapo de apuração, baseadas em vazamentos seletivos, feitos a conta-gotas. No poder há 12 anos e profundamente entranhado na Petrobras, o PT levou a pior, mas sobrou denúncia para Eduardo Campos (PSB) e Sérgio Guerra (PSDB), ambos mortos e, portanto, impedidos de se defender.
 
Não vou dizer que “assim é fácil”, porque sei que não é. Não quero desmerecer o esforço dos repórteres da área, que suam para apurar o conteúdo de depoimentos que deveriam ser secretos. O problema é que a natureza sigilosa da apuração dá a algumas fontes um poder enorme, que não deveria ser concedido a ninguém: o de anonimamente vazar o que lhes convém, sem obrigação de apresentar provas. Basta a presunção de que o criminoso esteja falando a verdade para não perder o prêmio da delação. É assustador.
 
A mais barulhenta das acusações, vazada às vésperas da votação, foi a declaração do doleiro Alberto Youssef de que Dilma e Lula tinham conhecimento do esquema de corrupção na Petrobras.
 
“Veja” estourou a história na capa na noite de quinta (23). No dia seguinte, Aécio usou a denúncia no horário político e no debate da TV Globo, Dilma se defendeu com veemência, e o PT foi à Justiça pedindo direito de resposta –justamente atendido, ainda que o ministro que julgou o caso tivesse atuado como advogado do partido em 2010. Para coroar, veio a pantomima da União da Juventude Socialista vandalizando a entrada da editora Abril.
 
Não havia como não dar. A essa altura, já pouco importava se a revelação tinha consistência ou se não passava de uma frase publicada sem muito contexto. As reações eram fatos a serem noticiados.
 
A Folha deu manchete para o caso no sábado (“Doleiro acusa Lula e Dilma, que fala em terror eleitoral”), depois de confirmar com duas fontes que o doleiro havia realmente feito a declaração. Atitude tecnicamente correta, mas que não livra o jornal do pecado original, a fragilidade de uma acusação baseada em declaratório sem provas.
 
A Secretaria de Redação não vê fragilidade e diz que o jornal publica todas as informações que considera relevantes, independentemente do calendário eleitoral.
 
Mas a falta de fontes claramente identificadas ajuda a fomentar novas versões, também difíceis de comprovar. “O Globo”, que deu o caso na sexta creditando a apuração à “Veja”, divulgou na terça que a frase teria sido acrescentada em novo depoimento, numa espécie de retificação solicitada pela defesa um dia depois. O advogado de Youssef nega e diz que desafia qualquer um a provar a nova convocação.
 
A Folha também não encontrou nenhuma fonte que confirmasse a teoria. Mais um lance numa partida de jogadores anônimos.
 
Traçado o cenário, ainda assim, a decisão de publicar ou não as denúncias não é fácil. Sugiro o dilema: você, leitor, publicaria, mesmo com as deficiências aqui expostas, ou preferiria abrir mão, enfrentando suspeitas de ter se omitido para beneficiar este ou aquele candidato?

Redação

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20 Comentários
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  1. Mário Mendonça

    2 de novembro de 2014 12:53 pm

    Nassif
    Agora pautam a

    Nassif

    Agora pautam a ombusdman a defender o indefensavel?

    Assim, piora a situação….

    A esperança mora na justiça, se é que ela exista ………………..

    1. Neideg

      2 de novembro de 2014 2:34 pm

      Que “Justica”? A balizadora

      Que “Justica”? A balizadora de tda bandalheira eleitoral produzida na Midia e PSDB. Esses picaretas togados, qualquer dia, engolem metade do PIB brasileiro com suas malandragens em periodos eleitorais, salvando bandidos e criminalizando inocentes.

      No dia que o Brasil abrir o olho para esse cancer, ele ja tera destruido o pais. Esquecam PIG e PSDB, o Golpe e os crimes mais crueis contra a sociedade Brasileira esta embaixo das Togas.

      1. edmar

        2 de novembro de 2014 4:13 pm

        Mais pura verdade!

        Mais pura verdade!

    2. Neideg

      2 de novembro de 2014 2:36 pm

      Que “Justica”? A balizadora

      Que “Justica”? A balizadora de tda bandalheira eleitoral produzida na Midia e PSDB. Esses picaretas togados, qualquer dia, engolem metade do PIB brasileiro com suas malandragens em periodos eleitorais, salvando bandidos e criminalizando inocentes.

      No dia que o Brasil abrir o olho para esse cancer, ele ja tera destruido o pais. Esquecam PIG e PSDB, o Golpe e os crimes mais crueis contra a sociedade Brasileira esta embaixo das Togas.

  2. André Paulistano

    2 de novembro de 2014 12:57 pm

    E la nave va

    A pergunta que nos é feita contém um pequenino truque. Não se trata ou não de  publicar as denúncias. Acho que o próprio texto deixa claro que denúncias devem sim ser publicadas se vem de fontes confiáveis.

    A questão correta seria: devia ou não repercutir uma notícia falsa, que intencionalmente causa um alvoroço tremendo. E se sim, noticiar o alvoroço legitimando (de propósito ou não) o falso fato. Com um agravante: sem deixar absolutamente claro que o alvoroço foi feito em cima de uma fato que carece de comprovação. E não se resguardar simplesmente com o famoso “de acordo com a revista tal….”

    Ainda mais em período eleitoral e tentando manter uma isenção que não existe.

  3. Assis Ribeiro

    2 de novembro de 2014 12:57 pm

    “você, leitor, publicaria,

    “você, leitor, publicaria, mesmo com as deficiências aqui expostas, ou preferiria abrir mão, enfrentando suspeitas de ter se omitido para beneficiar este ou aquele candidato?”

    A ombudsman coloca no mesmo patamar de atos que influenciam as eleições a ação e a inação de informações à véspera do pleito?

    Ela está querendo dizer que os movimentos jornalísticos podem determinar às vésperas de uma eleição o resultado das urnas?

    Ela tenta justificar o “direito” da imprensa de divulgar denúncias graves e de fontes contestáveis sem comprovação?

  4. marcio valley

    2 de novembro de 2014 12:59 pm

    O questionamento final da

    O questionamento final da ombusdman foi formulada de forma equivocada. As duas possibilidades (publicar ou não publicar) são capazes de fazer surgir dúvida sobre a intenção de beneficiar esse ou aquele candidato. Se as duas são capazes, o ideal seria a escolha mais ética: não publicar.

    1. Under_Siege

      2 de novembro de 2014 4:29 pm

      falso dilema da Ombudswoman

      se não há provas da denúncia, não há razão jornalística para se publicar as ilações!

      Tão óbvio e simples para um leigo como eu.

       

      Agora… espera-se investigação profunda e séria, sem viéses.

      E punição à altura para o que representou a capa-panfleto boca-de-urna do PSDB.

       

      Ou se adequa ao regime democratico a imprensa ou este é um país SEM FUTURO.

       

      :://

       

  5. CarlosI

    2 de novembro de 2014 1:01 pm

    mídia

    Com relação à última frase da ombudswoman da folha “você, leitor, publicaria, mesmo com as deficiências aqui expostas, ou preferiria abrir mão, enfrentando suspeitas de ter se omitido para beneficiar este ou aquele candidato ?’, só tenho uma coisa a dizer: se o jornal mantivesse manifesta equidistância e imparcialidade em relação às duas candidaturas, até dava para engolir.      Porém, a realidade, ao longo do tempo, comprovou que a folha tinha preferência por um dos candidatos e nunca escondeu isso.            Ademais, o bom-senso determina que informações jogadas ao vento, sem a apresentação de provas, não devem ser levadas em conta.

  6. paulo vi

    2 de novembro de 2014 1:06 pm

    Sou leitor, não tenho dilema

    Sou leitor, não tenho dilema com o assunto, mas, tenho a resposta para sua pergunta capciosa: – Apenas pessoas criadas na malandragem sem eximem das responsabilidades fazendo perguntas. É constatável!

  7. alexis

    2 de novembro de 2014 1:08 pm

    Colocação Errada

    A pergunta é:

    “Você faria uso eleitoral da noticia, em capa panfletária, e antecipando a data da edição da revista em forma tendenciosa, ou colocaria o comentário do Youssef, como apenas uma opinião de réu, dentro do corpo da edição da VEJA, emitida a público na data certa?”

    Outras perguntas que teriam sido feitas:

    “Você divulgaria que estamos ficando sem água em São Paulo?” Os tucanos responderam “não”.

    Lembrando ainda que, 25 anos atrás, a massacre em Carandiru demorou três dias (engavetada nas redações) até as eleições concluírem, para ser divulgada!!!

     

    1. Caio Oliveira

      2 de novembro de 2014 1:34 pm

      Perfeita colocação!

      Perfeita colocação!

  8. peregrino

    2 de novembro de 2014 1:24 pm

    às vezes procuramos parecer melhores…

    e mostramos o que realmente somos, muito piores, ao não resistir aos nossos prazeres

    imprensa de merda essa que temos em São Paulo

    1. peregrino

      2 de novembro de 2014 1:27 pm

      tenta consertar…

       mas só concerta

  9. peregrino

    2 de novembro de 2014 1:41 pm

    cabe aqui a mesma pergunta…

    que ninguém tem coragem de fazer ao Alckmin sobre falta d’água, e que, no caso em tela era para ter sido ao Juiz ou qualquer outro golpista que colheu o depoimento………………

    segue a pergunta que esquecem de fazer, quando é para prejudicar Lula ou Dilma :

    ””’por que tudo que está sendo dito agora não foi dito antes?””

  10. Danilo prociu

    2 de novembro de 2014 2:43 pm

    KKKKK. Ombusdman da folha tem

    KKKKK. Ombusdman da folha tem que ser contorcionista.

  11. sergio m pinto

    2 de novembro de 2014 3:03 pm

    Maneira suave da ombusdman

    Maneira suave da ombusdman criar uma situação de dúvida da editoria, deixando em segundo plano o “pecado original’ de publicar qualquer coisa sem comprovação factual. Quem não te conhece, que te compre.

  12. altamiro

    2 de novembro de 2014 3:03 pm

    na pergunta ela deixa

    na pergunta ela deixa explícito que é possível publicar

    um factóide para promover o estelionato eleitoral.

    ora, se é mentira, factóide, invençãom não se publica.

    o resto é golpe, assumido pela ombudsman.

    é o mesmo que perguntar para um tucano se ele participou deste golpe.

    não, diria o tucano. é culpa do pt.

    1. helcio dias de sa

      2 de novembro de 2014 4:08 pm

      na pergunta ela deixa

      Qualquer preso politico ou nao em qualquer penitenciaria de qualquer lugar em troca de premios declara aquilo que o ouvinte quer ouvir ou precisa .Tenho um outro nome para esse tipo de coisa e nao se chama jornalismo.Essa lenga lenga de obstaculos para um pobre reporter conseguir informaçoes. Como afirma a moça em questao.Eles derramam criminosamente a pasta de dente no chao para todos pisarem e escorregaram,e querem que o pobre do reporter encontre um tubo,cheio de rotulos, para retorna-la ajuntando tanta meleca em forma de pasta de dentes.

  13. Vilmar

    15 de novembro de 2014 8:19 pm

    A nossa mídia(quarto poder),

    A nossa mídia(quarto poder), de uma maneira geral, diz ou escreve o que não deve e esconde o que convem. Chamam isso de liberdade de imprensa.

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