4 de junho de 2026

A fama de durona desaparece em dez minutos de prosa

Sugerido por Mara L. Baraúna

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A Dilma Rousseff que eu conheci pessoalmente

Do El País, por Carla Jiménez

A primeira coisa que fiz ao ser apresentada a Dilma Rousseff, em junho deste ano, foi reparar nos seus sapatos. Baixinhos, um tipo de sapatilha de couro, arredondada na ponta, me deixaram claro que ela precisa de calçados muito confortáveis para lidar com a rotina maçante de uma presidência da República. O encontro com ela aconteceu de forma inesperada. A presidenta queria reunir os correspondentes internacionais para falar sobre os preparativos para a Copa do Mundo. Ao confirmar a participação no jantar no Palácio da Alvorada, tremi. Por mais anos de estrada que se tenha na profissão, ver um chefe de Estado ao vivo sempre dá um certo nervosismo. Pois assim cheguei no dia 03 de junho a Brasília, para seguir ao Palácio da Esplanada, véspera da Copa do Mundo.

O time de jornalistas estrangeiros esperava do lado de fora da casa, observando o belo jardim do Palácio, enquanto conversávamos com alguns ministros, até que ela chegou cumprimentando com beijinhos quem não se intimidou. Ela então puxou o assunto: “E a Copa?”, e logo em seguida pipocaram as perguntas sobre os fantasmas que cercavam o evento – atraso de obras, surto de dengue, entre outras. Enquanto anotava discretamente o que ela dizia – a regra estabelecida pela presidência era não gravar o encontro – passei a reparar em alguns detalhes. Ficava olhando de perto o rosto da presidenta que tem fama de brava, séria, grossa, trator, e toda sorte de apelidos que a tiram do campo da feminilidade. Queria reparar nas rugas – muito menos do que eu imaginava – enquanto ela sorria. E sim, a presidenta sorri. E muito. Deu muitas risadas, e estava entusiasmada, pois tudo estava pronto para o início da Copa do Mundo, a contento.

Chamei a sua atenção quando fiz perguntas de infraestrutura, e as estradas que estavam sendo construídas no Centro-Oeste do país. Sabia que era um assunto que a presidenta gosta de falar, por ter criado um programa de concessões bilionário para melhorar a logística do país. E, efetivamente, ela disparou a falar com uma naturalidade que me deixou até assustada. Em nada lembrava odilmês, como foi apelidado seu modo de falar que por vezes repete palavras e dificulta o entendimento imediato. Ela tem um pouco de cabeça de engenheira, que absorve números, e desenhava no ar o que algumas estradas iriam fazer pelo país.

Mas o momento de ver a Dilma humana foi quando o assunto enveredou para as obras de infraestrutura no Nordeste. Nesse momento, os olhos da presidenta brilharam, e eu pude ver bem de perto que não era mais o cérebro da economista-engenheira, mas o coração da mãe de Paula, e avó de Gabriel, que se manifestava. Ela falou sobre o programa de cisternas, que levou perto de um milhão de reservatórios de água para as casas de pessoas carentes, que antes sofriam com a carestia. “Antes se trocava água pelo voto”, disse Dilma, que tomou o meu caderno para desenhar como eram as cisternas. Ela lembrou dos caminhões pipas que chegavam nessas regiões em véspera de eleições, para fazer ‘escambo’ de voto. O reservatório, porém, ficará para sempre, independentemente do governante que assumir a cidade ou Estado em questão.

Depois de algum tempo, a figura formal da presidenta havia desaparecido. Já era uma pessoa normal, uma profissional em seu ofício como os jornalistas que a rodeavam. Seguimos então para a bela mesa de jantar, e estava curiosa para saber quem se sentaria ao lado da presidenta. Ficou o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, do seu lado esquerdo, e um jornalista boa pinta do seu lado direito. Pensei com meus botões: “Ah, mas essa Dilma não tem nada de boba… ministro e jornalista bonitão, um de cada lado!”.

Lembrei desse detalhe quando, um mês depois, ela recebeu o ator Cauã Reymond no Palácio do Planalto, e ela o saudou antes que ao vice-presidente, Michel Temer, como manda o protocolo. “Desculpe Temer, mas não é todo dia que a gente tem um Cauã no Planalto”, disse ela, para deleite da plateia que caiu na gargalhada.

Dilma mora com a sua mãe na residência oficial, e não se tem notícias de amores ou namorados. “Não dá tempo”, respondeu ela certa vez numa entrevista. Por isso, nesse pequeno detalhe de quem estaria ao seu lado no jantar, que possivelmente era apenas uma coincidência, me despertou a curiosidade sobre como deve ser abrir mão de um relacionamento, e ser cercada por homens poderosos o tempo todo. A presidenta tem um quê de sedutora que o dia a dia não capta.

Em alguns momentos, passava pela minha cabeça que Dilma foi torturada brutalmente com choques elétricos durante a ditadura, chegando a ter a arcada dentária descolada de tantos socos. Quem consegue sobreviver sem amargura a isso? Tive vontade de enchê-la de perguntas a respeito, mas não vi brecha. Continuava reparando na Dilma humana, que evitou a sobremesa para não engordar, embora não tenha resistido a um bocadinho de sorvete, se a memória não me falha.

Depois de tanta informalidade, as perguntas duras já haviam sido feitas e houve espaço para matar as pequenas curiosidades. Quantas horas dorme? – Seis horas por noite. – Gosta de seriados? – Adoro as séries da BBC de época, e Downton Abbey. Quais livros está lendo? – O livro de Thomas Pikkety, Capital do Século XXI. E gostei de O homem que amava os cachorros (de Leonardo Padura).

Em seguida, ela mostrou o resto da casa, as pinturas, e os detalhes de obras do arquiteto Oscar Niemeyer na residência oficial. Ao final, antes de se despedir, reuniu os jornalistas para uma foto oficial. Sem me dar conta estava ao lado dela, e ela colocou as duas mãos nos meus ombros, numa proximidade inesperada. Cheguei do jantar pensando: “Por que ela tirou foto ao meu lado? Agradei nas perguntas?”. Ao trocar de roupa, me dei conta de um detalhe. Eu vestia um casaquinho vermelho, da cor do PT, o que deve explicar por que ela me escolheu para sair ao lado. Essa presidenta não tem nada de boba…
 

Cintia Alves

Cintia Alves é jornalista especializada em Gestão de Mídias Digitais e editora do GGN.

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17 Comentários
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  1. MThereza

    28 de outubro de 2014 8:35 pm

    delícia de texto.

    delícia de texto.

  2. altamiro souza

    28 de outubro de 2014 8:47 pm

    ótimo texto.

    ótimo texto.

  3. altamiro souza

    28 de outubro de 2014 8:48 pm

    mas acrescento: melhor é a

    mas acrescento: melhor é a dilma.

  4. Jorge Luis

    28 de outubro de 2014 9:16 pm

    O Irmão de Dilma, Igor

    O Irmão de Dilma, Igor Roussef, é proprietário de um poderoso…….. fusca!

    Puxa! Para uma mulher que, segundo os coxinhas, roubou bilhões, podia pelo menos dar uma ajudinha para o único irmão. Não precisava ser assim, uma Land Rover, como as várias registradas em nome da rádio daquele outro mineiro, mas pelo menos um golzinho ou um uninho, acho que dava.

    http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,irmao-da-presidente-o-ex-hippie-de-passa-tempo,1583445

     

  5. Gilson AS

    28 de outubro de 2014 9:55 pm

    Confesso que ultimamente ando

    Confesso que ultimamente ando meio caidinho  pela presidenta.

    Que a nega véia não me ouça, eh,eh,eh

  6. IV AVATAR

    28 de outubro de 2014 9:58 pm

    Bate-papo descontraído

    Os jornalistas estrangeiros costumam entrevistar Dilma com esse formato de bate-papo e não com os massacrantes interrogatórios do pig, ficou bom, não podemos deixar de lado essas relações de afetividade entre as pessoas, isso é tudo. Longa vida a Dilma, ela ainda servirá muito a esse país, muitos que enfrentaram a ditadura poderiam estar vivos mas não tiveram a mesma sorte, muitos não resistiram às torturas, na época eram todos jovens e poderiam estar ai contribuindo com o nosso desenvolvimento e o bem-estar do povo brasileiro.

    1. Carlos G P Lenz

      29 de outubro de 2014 1:02 am

      tudo muito correto…

      … mas também temos HERÓIS que estão ainda hoje pagando na cadeia !!!

      Estou aguardando ansiosamente quando canalhas que foram do stf pagarão pelas injustiças cometidas na AP 470, vulgo mentirão.

       

       

  7. antonio francisco

    28 de outubro de 2014 10:44 pm

    Boechat entrevistou Dilma hoje

    Ele, professoral, como sempre.

    No jornal da Band. Pena que não sei trazer o link da entrevista para cá. 

     

  8. jo lima

    29 de outubro de 2014 12:07 am

    Sinceramente, pouco me lixo

    Sinceramente, pouco me lixo se ela é durona, mole, desbocada, grossa, gente fina, etc. Agradeço aos céus por ela não ser minha chefe ou parente. 

    O que me interessa é que ela tenha a competência que não demonstrou pra dirigir bem a economia. O Nassif usou o adjetivo desastrosa para a condução da área econômica. Votei nela porque o que o psdb queria era voltar a um modelo que causou desemprego e fez uma reforma previdenciária que ferrou muita gente próxima a mim . E que Dilma tenha a humildade de ouvir Lula – afinal, ela foi eleita pelo espetacular acerto dele na condução da crise de 2008. É como se Lula deixasse pra ela uma herança em dinheiro que, ela, em 4 anos, zerou – só deixando intacto, ainda bem, o pleno emprego. 

    Enfim, pouco me importa se ela é uma gatinha ou uma jararaca. O que importa é que ela coma os ratos. 

  9. guilherme souto

    29 de outubro de 2014 12:15 am

    Num mundo macho, onde se

    Num mundo macho, onde se decide com um pinto na mesa, essa gente quer que a dona Dilma abaixe a cabeça?

    O triste é saber que tem tanta mulher caindo nessa esparrela?!…

  10. JB Costa

    29 de outubro de 2014 12:44 am

    Um depoimento desse não deixa

    Um depoimento desse não deixa de ser uma crítica indireta ao jornalismo da dita grande mídia, cujo maneira de operar é radicalmente diferente. 

    O fulcro é sempre colocar o(a) entrevistado contra a parede. Se for petista, é claro. De quebra, apontar repassar singularidades pessoais como defeitos. 

     

  11. Fatima Magalhães

    29 de outubro de 2014 12:46 am

    A fama de durona desaparece

    No nosso imaginário afetivo, Dilma é uma diretora de Escola daquelas das quais  nos lembramos sempre com muito carinho: canta com  as crianças, na hora da entrada, o hino da independencia, soprando as estrofes esquecidas. No mês de  junho, recolhe pela rua, pelo bairro, por onde for, prendas  pra festa junina que vão sustentar os passeios das crianças ao zoologico durante o ano. Nunca falta  à  Escola e, por isso, os alunos e professores são tambem assiduos, faça chuva, faça sol.  Vai a todas as  salas de aula todos os dias e conhece pelo nome cada aluno.  Dá bronca quando estes correm pelo corredor depois da hora do recreio quando as turmas já estão em aula. Acompanha a trajetória  de vida de cada aluno depois que ele sai com o canudo da escola. Prova a merenda  na cozinha antes que ela seja servida no refeitorio. Se zanga com os pais quando eles faltam à reunião de avaliação sobre o rendimento escolar de seus filhos. Fica feliz e sorri bonito, contando o segredo do sucesso, quando sua Escola é eleita a melhor do bairro, da cidade, do estado,  do país, do mundo!. Faz greve –  de fome – junto  com os professores da Escola por melhores salarios,  pelo resgate de condições dignas de  trabalho e reconhecimento  da importancia do magisterio na vida do  cidadão. Olha o caderno de cada aluno, mesmo sendo diretora da Escola e dá visto após  o professor dar o seu. À noite, não dorme enquanto não prepara todo  o plano  trabalho  para a manhã seguinte. Na cabeceira,  livros  dos mestres  Paulo  Freire, Darcy Ribeiro, Anisio Teixeira, e de poesias de Drummond e de  Cecilia, dão a base  para a lida cotidiana na Escola, ao mesmo tempo que abrem caminho para novas idéias e  sonhos. Esta é a Professora Dilma: a melhor diretora de Escola que conhecemos. E esta Escola é o nosso Brasil!

  12. Dulcinéa_sc

    29 de outubro de 2014 1:56 am

     
        Alguém disse mais acima

     

        Alguém disse mais acima “relações de afetividade”.  É isto.  A presidenta é um ser humano como nós.  Às vezes nos esquecemos disso.  Amei o texto!

  13. Tapuia PI

    29 de outubro de 2014 3:28 am

    Texto lindo! Tocante. Bom

    Texto lindo! Tocante. Bom ler, porque os daqui no dia seguinte à eleição pareciam que estavam fazendo perguntas no debate. 

  14. Ana Maria

    29 de outubro de 2014 3:43 am

    Dilma é a Mãe por natureza,

    Dilma é a Mãe por natureza, que adotou o Brasil e ama e defende este filho como toda Mãe.

  15. Daveslley Oliveira Cardoso

    29 de outubro de 2014 7:46 am

    Um texto excelente!

    E além de tudo agradável, bem narrado, e sem as inquisições chatas, enfadonhas e agressivas do Jornalismo golpista do PIG. O Jornalismo raivoso não informa, só deforma! Parabéns pelo ótimo texto, e que Deus conceda à Presidenta Dilma, forças e energias para realizar um mandato triunfante! 

  16. jo lima

    29 de outubro de 2014 8:52 am

    Como ela não é minha chefe e

    Como ela não é minha chefe e nem parente, a única coisa que desejo é que Dilma não seja incompetente na economia como tem sido até agora. Na parte política não espero nada – afinal o que se pode esperar de alguém que fala em reforma política sem saber a diferença entre plebiscito e referendo? Como o PMDB já demonstrou, ela ainda está no nível Maquiavel para colorir parte pré-primário. Talvez confunda O Príncipe com o Pequeno Príncipe. Ah, Lula, que saudade…

    Pouco me importa  se ela é uma gata descrita na música do Chico ou uma jararaca das músicas do Bezerra da Silva. O que me importa é que ela coma os ratos. 

     

     

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