
da Folha
Luiz Carlos Mendonça de Barros
O nervosismo no mercado se deveu à percepção de que o juro demorará a subir, e não por temor de crise
Os mercados financeiros internacionais viveram um novo dia de pânico na quarta-feira. O epicentro desse terremoto mais recente ocorreu no segmento de juros americanos, um dos mais líquidos e calmos entre todos os outros que compõem a arquitetura financeira moderna.
A flutuação dos preços –e, portanto, dos juros– dos títulos de dez anos emitidos pelo governo americano foi realmente selvagem. Em poucos momentos de negociações o valor desses papéis caiu incríveis 5,4%, queda que poucos operadores experientes poderiam imaginar.
Como a maioria dos negócios é realizada nos mercados futuros, via sofisticados programas de computador, essa variação de preços inesperada e brutal provocou o que se chama, na língua do Tio Sam, de “sell off”. Traduzido para nossa língua, esse termo que dizer: “Salve-se quem puder porque os prejuízos serão grandes”.
Os gênios da raça –a grande maioria– que tinham quase certeza de que o próximo grande movimento nesse mercado seria de alta dos juros –e queda dos preços dos papéis– iniciaram uma corrida maluca para limitar seus prejuízos. Como sempre acontece nesses momentos, o pânico se instala e os preços chegam a níveis irracionais também.
O incrível é que a mídia no dia de hoje não fala dessa situação e associa a queda dos juros nos EUA a uma visão catastrófica na economia. Isso não é verdade, pois o crescimento americano está se estabilizando e deve chegar a mais de 2,5% neste ano e no próximo.
Com o Fed deixando o aumento de juros para mais tarde, ficam reforçadas as defesas contra a onda deflacionista que vem da Europa. Outra âncora para manter os juros quietos é a inflação abaixo da meta do Fed, tendência reforçada recentemente com a queda significativa dos preços do petróleo.
O gatilho para o “sell off” dos últimos dias foi a declaração sempre curta, mas firme, de Stanley Fischer, vice-presidente do Fed e hoje o principal nome técnico da instituição. Ele disse aos jornais que em uma situação de economia mais fraca fora dos Estados Unidos –como ocorre agora– o Fed seria mais lento na normalização da política monetária americana.
Um sinal claro para os mercados de que a aposta na alta dos juros americanos estava fundamentalmente errada e que os mercados de títulos de juros deveriam corrigir seus preços. Da publicação de suas palavras na mídia especializada até o início da correria desenfreada dos especuladores foi um pulo.
Em um mundo totalmente ligado pelas mesas de operações das instituições financeiras, a onda de nervosismo e irracionalidade iniciada em Wall Street espalhou-se pela Europa e por mercados emergentes como o Brasil.
Em cada país a mídia e os operadores de mercado encontraram em questões locais –como as eleições do próximo dia 26 aqui no Brasil– motivações secundárias para justificar a queda das Bolsas de Valores e a volatilidade nos mercados de juros e câmbio.
Pouco a pouco, ao longo do dia, a verdadeira causa dos movimentos do mercado –“sell off” dos juros norte-americanos– foi sendo esquecida, e os jornais brasileiros, e de outras regiões do mundo, no dia seguinte falavam apenas na falta de confiança na economia americana e nos riscos de o mundo todo cair em uma nova e sincronizada recessão.
Quando a paz voltar ao mercado e as análises fundamentadas substituírem os comentários menores dos analistas e da mídia, o que deve ficar dessa confusão será muito positivo.
Com o cenário de mudança na política monetária americana empurrado para fins de 2015, os juros baixos vão fortalecer o crescimento futuro e, com isso, criar uma força compensatória para outro ataque de pessimismo em relação à economia da União Europeia.
Ajudará também a China nessa transição de política econômica baseada nas exportações e investimentos em infraestrutura para o consumo interno. E também o Brasil, se o próximo governo devolver aos principais agentes econômicos a confiança e o respeito pela condução da economia.
LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS, 71, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo Fernando Henrique Cardoso). Escreve às sextas-feiras, a cada 14 dias, nesta coluna.
Lucinei
17 de outubro de 2014 11:06 amTêm os que os que
Têm os que os que “interpretam sinais” do mercado e os que observam a economia real. Segue arrtigo de Paul Krugman, da carta capital.
Economia
Análise / Paul Krugman
Ainda não saímos do mato
É preciso um período longo de mercados de trabalho mais rígidos apenas para voltarmos para onde estávamos por Paul Krugman — publicado 17/10/2014 03:36 Danilo
Logo após a divulgação do mais recente relatório sobre o emprego, indicador de que as coisas estavam melhores do que se esperava, minha caixa de entrada começou a se encher com pedidos para o Federal Reserve acelerar o ritmo da “normalização” e com previsões de que o fará em breve. Mas a tese do esperar para ver na verdade continua tão forte como sempre, e talvez até um pouco mais.
Como tentei explicar antes, existem dois pontos-chave na política do Fed. Primeiro, não sabemos quanta folga existe no mercado de trabalho americano. Segundo, as consequências de superestimar essa folga e esperar demais para aumentar as taxas de juro seria relativamente menos grave, enquanto os custos de subestimar a folga e aumentar as taxas cedo demais poderiam ser enormes.
Sobre o primeiro ponto, realmente não sabemos quanta folga existe. Não me mostre o seu novo método de estimativas e afirme que ele prova que “existe x% de folga”. Há muitas pessoas inteligentes por aí fazendo estimativas inteligentes. Elas não concordam, e ninguém realmente acredita na econometria de qualquer modo, a menos que os números digam o que elas querem escutar. Desculpem, mas essa é a realidade. Realmente não sabemos muito sobre a folga até depois do fato, se e quando finalmente virmos uma retomada notável da inflação, e em particular nos salários.
Sobre o segundo ponto, se o Fed esperar demais, a inflação poderá se acelerar por algum tempo, e reduzi-la novamente para a meta seria duro (embora, na verdade, a meta devesse ser mais alta). Mas tem importância menor comparado ao cenário alternativo de aumentar os juros cedo demais e depois descobrir que entramos em uma armadilha deflacionária da qual é realmente difícil sair. Se você estiver no Fed, preferiria acordar e descobrir que a taxa da inflação básica aumentou 3% ou que você se tornou o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi?
E se você estiver confuso porque a queda do índice de desemprego não significou um aumento mais rápido do salário, bem, isso apenas confirma a tese de que realmente não sabemos quanta folga existe. Alguém pensa que o crescimento do salário foi loucamente excessivo antes da crise financeira de 2008? Se você não pensa, então deveria acreditar que precisamos de um período prolongado de mercados de trabalho mais rígidos apenas para voltarmos para onde estávamos.
Não há nada no novo relatório de emprego que sugira que faz sentido aumentar as taxas tão cedo. Na verdade, acho muito difícil entender por que alguém pensa que as taxas devam subir mesmo em 2015.
Punidos pela virtude do dólar?
Eu raramente discordo do economista Jared Bernstein, e na verdade concordo com a maior parte de uma postagem recente dele em um blog no início deste mês sobre a conexão entre o pleno emprego, os déficits comerciais e o dólar como moeda de reserva. Sim, concordo que o persistente déficit comercial dos Estados Unidos é um problema para se atingir o pleno emprego, e que deveríamos ter uma política de dólar fraco, e não forte.
Mas a posição de moeda de reserva do dólar é a raiz do problema? Há muito tempo afirmo que a posição de moeda de reserva é um fenômeno supervalorizado – não é realmente um benefício significativo para o país que emite a moeda, deixando de lado as questões de emprego. Mas também não estou convencido de que seja algo tão importante quando tentamos compreender os persistentes déficits comerciais. Afinal, não somos o único país que tem déficits externos duradouros.
Temos coisas que fazem o excesso de poupança global vazar para os Estados Unidos, como um grande e profundo mercado financeiro, com muitos atores dispostos a criar o que parecem ativos seguros, juntamente com uma sensação geral de que os EUA são o último refúgio, e assim por diante. Mas a Grã-Bretanha oferece muitas dessas coisas, e na verdade tem um registro comparável de influxos de capital e déficits persistentes, enquanto a Austrália administra déficits externos realmente grandes há muito tempo.
Como questão de políticas, não penso que isso importe muito. Deveríamos buscar um dólar mais fraco.
Mas não creio que seja útil frasear o problema em termos de posição de moeda de reserva.
droubi
17 de outubro de 2014 11:12 amA fada da confiança
“Ajudará também a China nessa transição de política econômica baseada nas exportações e investimentos em infraestrutura para o consumo interno. E também o Brasil, se o próximo governo devolver aos principais agentes econômicos a confiança e o respeito pela condução da economia.”
Eu acho gozado. A grande ameaça global é a falta de inflação. O Mendonça de Barros entendeu perfeitamente isto, pelo artigo acima.
Na UE, deflação a vista. Nos EUA, se não deflação, inflação muito abaixo da meta.
Então como assim não há uma visão catastrófica da economia? Porque inflação baixa ou ameaça de deflação com a economia crescendo pífios 2,5% é sim uma visão catastrófica.
E isto vale para os EUA, para a UE e para o resto do mundo também.
O único lugar no mundo ocidental onde há inflação para ajudar é o Brasil.
Mas no Brasil, segundo Mendonça de Barros, o governo deve “devolver aos principais agentes econômicos a confiança”.
É como se houvesse uma teoria econômica que fosse válida para os EUA e outra para o Brasil.
Como diz o Krugman, é a fada da confiança, que vai fazer os investidores tirarem o dinheiro empoçado da poupança e investí-lo.
Muito pelo contrário: o melhor que o governo poderia fazer, agora, é ser totalmente irresponsável, gerar pânico nos mercados, abaixar os juros e declarar em alto e bom tom que a inflação e o câmbio são livres, que não vai controlá-los.
Aí sim os investimentos ressurgiriam.
OCT 15 10:15 AM
Oct 15 10:15 am 139
1937
EmailShareTweet
From the beginning, economists who had studied the Great Depression warned that policy makers needed, above all, to be careful not to pull another 1937 — a reference to the fateful year when FDR prematurely tried to balance the budget and the Fed prematurely tried to normalize monetary policy, aborting the recovery of the previous four years and sending the economy on another big downward slope.
Unfortunately, these warnings were ignored. True, the Fed at least stood up to the inflationistas demanding tighter money now now now; but its actions were at the least hobbled by the chorus. The ECB actually did raise rates for a while, as did the Riksbank in Sweden. And fiscal austerity driven by fear of the invisible bond vigilantes (and justified by faith in the confidence fairy) was the norm everywhere, although worse in Europe.
And now things are sliding everywhere. Actually, Europe already had one 1937, with its slide into a double-dip recession; but now it’s very much looking like another. And the world economy as a whole is weakening fast.
So now we have another milestone: Earlier today the 10-year yield dropped below 2 percent. It’s up again slightly as I write this, but all the market signals are saying that once again the big risk is deflation or at least very sub-par inflation.
I hope that the Fed will stop talking about exit strategies for a while. We are by no means out of the Lesser Depression.
Lionel Rupaud
17 de outubro de 2014 5:16 pmUai por que todo esse estresse?
A. Fraga e 164 economistas juram que a crise acabou!