4 de junho de 2026

Com poucos indecisos, Uruguai vive polarização partidária

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Eduardo Botinelli, do centro de pesquisas de opinião pública do Uruguai

Jornal GGN – A campanha eleitoral em curso no país vizinho, Uruguai, marcha com duas principais características: a polarização partidária que mantém o país praticamente dividido entre centro-esquerda, Frente Amplio (FA), e centro-direita, Partido Nacional (PN); e a persistente falta de inovação nos quadros políticos, com a perpetuação de representantes com legado familiar. O primeiro turno das eleições está marcado para o próximo dia 26 de outubro.

Dos dois principais postulantes, o candidato do partido do governo, Tabaré Vázquez (FA) presidiu o país entre 2005-2010, e Lacalle Pou (PN) é filho do ex-presidente Luis Alberto Lacalle (1990-1995). O candidato Pedro Bordaberry, do Partido Colorado (PC), relegado ao terceiro lugar, tenta desvincular-se da figura política do pai, filho do ditador Juan María Bordaberry, que comandou o golpe de Estado, em 1973.

“Isto não é um fenômeno novo, e é reproduzido em vários âmbitos da atividade política, por exemplo, no Parlamento, onde aproximadamente metade dos deputados e senadores têm antecedentes familiares na política”. A afirmação é de Eduardo Botinelli, sociólogo e diretor da Factum, o mais antigo e referente centro de pesquisa de opinião pública do Uruguai.

Segundo as intenções de voto para o primeiro turno, o Frente Amplio alcança 42%, Partido Nacional 32%, Partido Colorado 15%. O Partido Independiente soma 3%, Unidad Popular 1% e o Partido Ecologista (PERI) também 1%. O Uruguai vem de dois sucessivos governos frenteamplistas, logo após a finalização deste mandato de José Mujica (2010-2014), que foram os primeiros a romper com a hegemonia partidária do Partido Colorado, que compõe o grupo dos chamados Partidos Tradicionais, junto com o PN.

“O Partido Colorado governou o Uruguai durante quase todo o século XX. Representa o setor mais conservador da sociedade, em geral, se opõe ao matrimônio homossexual, à despenalização do aborto, estão a favor do endurecimento das penas e da redução da idade penal dos menores infratores”, afirma Bottinelli.

Nesta entrevista, Bottinelli apresentou-nos um breve panorama das internas desta campanha eleitoral política presidencial. O acirramento da disputa era algo impensado pelo partido do governo, que há anos dois tinha como assegurada a vitória nestas eleições. A perda da folga de vantagem frente a Lacalle Pou, segundo Bottinelli, pode ser atribuída à falta de visão e interpretação de Vázquez e de sua equipe, diante dos questionamentos da opinião pública, vindos também das internas do FA.

Desde maio deste ano até o último mês de agosto, as pesquisas de opinião realizadas pela Factum mostraram quedas entre 3% e 1% de Tabaré Vázquez. “Vázquez não sintonizou-se com a nova realidade eleitoral. Mas em agosto, logo depois dessa queda sistemática de meses nas pesquisas, houve um rompimento na campanha eleitoral do Frente Amplio e assim entenderam que estavam efetivamente com problemas”, afirmou.

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Segurança pública e classe média

Atualmente, as áreas da segurança pública e a economia aparecem como um dos principais problemas a serem enfrentados no Uruguai, segundo pesquisa de opinião pública realizada pela Factum, divulgada em setembro último.

De acordo com o diretor da Factum, Eduardo Bottinelli, o aumento da inflação tem levado a população a indagar a impossibilidade de sustentação do crescimento econômico. “Esperava-se uma inflação em torno de 6% ou 7%, e esteve próxima dos 10%. Por outro lado, há preocupação que o crescimento não se sustente e assim ocorra um aumento da desocupação”, aponta Bottinelli.

Também o entorno político e econômico dos países vizinhos Brasil e Argentina influem para que a economia hoje seja vista como um dos principais problemas no Uruguai. “Nos últimos cinco ou seis anos a economia não aparecia entre os primeiros lugares”, destaca Bottinelli.

O estilo de Mujica

O presidente José Mujica que o mundo vê não é o mesmo visto pelos uruguaios. Ao contrário do que se poderia imaginar, seguindo este olhar de fora, a figura de Mujica não tem sido sistematicamente utilizada pelo candidato do governo à presidência, Tabaré Vázquéz, do partido Frente Amplio (FA), durante esta campanha eleitoral em curso no país.

“Mujica goza de uma imagem internacional que, inclusive, surpreende no Uruguai. Não é a mesma que ele possui internamente, aqui é mais questionado e inclusive seu estilo provoca certas críticas por parte da sociedade”. Afirma o sociólogo Eduardo Botinelli, que acrescentou o fato de Vázquez ter optado por um estilo próprio, e por não associar diretamente sua imagem à de Mujica.

“No geral, Vázquez não associa sua imagem diretamente a de Mujica. Tanto é que Vázquez prefere optar mais pelo seu perfil e não ter que assumir questionamentos do atual governo”. Ainda segundo Bottinelli, a proposta de Vázquez é a de dar continuidade ao atual governo, mas parte do próprio eleitorado frenteamplista pede mudanças de rumo que sejam mais favoráveis à classe média.

“O governo de Vázquez seria em grande forma uma continuidade do de Mujica. No sentido de que o governo Vázquez representa uma continuidade, e de certo modo está sendo mostrado assim, por exemplo, manifestando que seria mantido o mesmo ministro do Interior, ou que a política econômica estará nas mãos do mesmo grupo que a tem conduzidos nos últimos nove anos. O eleitorado freteamplista quer de certa maneira a continuidade, mas também procura mudanças ou a reversão de algumas decisões que têm afetado fundamentalmente a classe média”.

 

 

Cintia Alves

Cintia Alves é jornalista especializada em Gestão de Mídias Digitais e editora do GGN.

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