
Mauro Senise lançou um novo projeto, Danças (Biscoito Fino). O álbum traz um CD – que conta com participações especiais de um quarteto fantástico, os grandes instrumentistas e compositores Gilson Peranzzetta, Jota Moraes, Cristóvão Bastos e Antonio Adolfo – e também um DVD, com direção de Walter Carvalho e coreografia e interpretação corporal de Deborah Colker e Chico Diaz.
O CD mostra Senise com um sopro que, por mais que com ele estejamos familiarizados, assusta, tão bela é a sonoridade que tira tanto dos saxes alto e soprano quanto da flauta. De fato, sua interpretação ao longo das 13 faixas beira o soberbo.
Matutando agora sobre esta hipótese veio-me à cabeça a importância que o projeto “Danças” pode ter na vida de Mauro. Claro, é por isso que o seu sopro atual, ainda mais melodioso, preciso, peculiar, irresistível mesmo, deriva da realização de tamanha produção. Afinal, tornar real um sonho não acontece todo dia, nem é para qualquer um.
Fato é que Mauro Senise nos traz um álbum com dois disquinhos preciosos, que, somados, representam som e corpo. Imagem e música se complementando, linguagens engrandecendo-se mutuamente.
O repertório tem oito composições e arranjos do quarteto já citado no primeiro parágrafo, além de outras cinco: “Vou Deitar e Rolar” (Baden Powell e Paulo César Pinheiro), “Miles” (Sueli Costa), “Ilusão à Toa” (Johnny Alf), “Harmonia das Esferas” (Gabriel Geszti) e “Noite de Verão” ( Edu Lobo e Chico Buarque).
Além de Jotinha (vibrafone), Antonio (piano), Cristóvão (piano) e Peranzzetta (piano), mais sete instrumentistas tocam com Senise: Gabriel Geszti (piano), Leonardo Amuedo (guitarra), Mingo Araújo (percussão), Ricardo Costa (bateria), Rodrigo Villa (contrabaixo) e Zeca Assumpção (contrabaixo), além da Orquestra dos Sonhos (doze cordas arregimentadas por Hugo Pilger).
O que se escuta é uma sucessão de acertos orquestrais e interpretativos. Todos indo às notas como se o fizessem pela última vez, inebriando-nos com música em estado de graça.
O DVD tem fotografia embebida e embevecida pela música. As imagens em P&B mostram Colker e seu par, Chico Diaz, oscilando entre clareza e mistério. Com os músicos presentes na cena, o casal movimenta-se e traduz corporalmente as quatro músicas selecionadas. Elas saem da flauta, dos saxes soprano e alto de Senise, que toca ora com Jotinha (vibrafone), ora com um piano de cauda, em que se alternam Gabriel Geszti, Gilson Peranzzetta e Cristóvão Bastos: apesar da alternância, o som sempre voeja através deles e de suas músicas.
Na dança vê-se o som ascender. Nas imagens, ora do alto, ora no mesmo plano dos protagonistas, estão os bailarinos, ora juntos, ora separados, num ritual de fantasia, no qual dança e música dão-se as mãos e doam singelezas aos que tiverem Danças nas mãos, a mais recente realização de Mauro Senise. Aí está a verdade.
Não à toa, seu sopro fez-se ainda mais belo – ode à fertilidade e à materialização da criatividade.
Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4
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