
No país da zoofobia
por Felipe A. P. L. Costa
O ensino de zoologia entre nós ainda tem um acentuado viés antropocêntrico. Para constatar isso, basta frequentar a escola ou folhear algumas de nossas coleções didáticas de Ciências (ensino fundamental) e Biologia (ensino médio). Fixando nossa espécie no centro de todas as preocupações, o viés antropocêntrico parece querer dividir o restante do reino animal em duas partes: de um lado, os animais benéficos, muitos dos quais nós criamos (incluindo “as abelhas que nos dão o mel”, “o bicho-da-seda que nos dá a seda” e “os grandes animais que nos dão a carne, o leite, a lã e os ovos”); de outro, os animais nocivos (incluindo pragas agrícolas e vetores de doenças), muitos dos quais nós combatemos ou queremos exterminar.
Como a ênfase dada aos animais nocivos tende a ser exagerada e distorcida, os alunos muitas vezes ficam com a impressão de que a natureza é um lugar extremamente hostil, habitado por criaturas perigosas. Mal-entendidos como esse perduram pela vida afora, até porque, após a conclusão dos estudos pré-universitários, a maioria dos alunos deixa de ter contato com quase todas as disciplinas cursadas no ensino médio. Assim, como a maioria dos alunos deixa de ter qualquer contato com a zoologia, as impressões forjadas durante o ensino básico tendem a se solidificar ao longo da idade adulta. Em vez de promover a aquisição de uma postura científica esclarecida, interessada e respeitosa, as impressões grosseiras e distorcidas que nos são transmitidas culturalmente (via escola, mídia etc.) favorecem a proliferação de um sentimento generalizado de zoofobia, entendido aqui como uma aversão crônica aos animais selvagens e a tudo o que eles representam.
A origem dessa cadeia de problemas, claro, não está nos livros didáticos, mas no enfoque adotado pelos próprios programas oficiais de ensino. Por sua vez, editoras e autores de livros didáticos, preocupados quase que exclusivamente em atender às demandas governamentais, apenas reproduziriam as distorções programáticas. O problema vem de longe, embora as aberrações tenham adquirido uma nova roupagem nos últimos anos. Três ou quatro décadas atrás, por exemplo, ouvíamos na escola que certos animais eram úteis aos seres humanos porque do corpo deles podíamos extrair a matéria-prima para a confecção de coisas como botões de camisa, pentes e tonéis de tinta. O discurso atual não é muito diferente – basta trocar botões, pentes e tinta pelos ‘sofisticados’ produtos moleculares de agora (ADN, proteínas, fármacos etc.).
Inimigos naturais, vetores, animais peçonhentos
O viés antropocêntrico costuma arranjar os animais nocivos em três categorias: inimigos naturais, vetores de doenças e animais peçonhentos. Todavia, além de heterogêneas, essas categorias não são mutuamente exclusivas, pois um mesmo animal cabe em mais de uma delas. Pernilongos, por exemplo, podem ser classificados como inimigo natural (as fêmeas de algumas espécies se alimentam de sangue humano), mas alguns também se comportam como vetores, pois podem transmitir agentes patogênicos.
Entre os inimigos naturais, encontramos parasitas, patógenos e predadores, além de um variado elenco de competidores. A despeito dos prodigiosos avanços tecnológicos promovidos ao longo dos últimos séculos, nós, seres humanos, ainda servimos de hospedeiro para inúmeros parasitas (carrapatos, lombrigas, tênias etc.) e micróbios patogênicos (amebas, bactérias, fungos etc.). É verdade que muitos parasitas representam um transtorno apenas momentâneo, notadamente no caso de ectoparasitas (carrapatos, piolhos etc.), embora às vezes possam causar doenças ou problemas mais graves. Em compensação, estamos relativamente livres da ação de predadores naturais. Os poucos animais selvagens que poderiam ser classificados como tal (e.g., ursos e grandes felinos) são relativamente raros ou vivem confinados em áreas mais ou menos restritas. Por fim, entre nossos competidores, encontramos animais que consomem ou tentam consumir certos recursos que cultivamos ou exploramos. O principal exemplo seriam alguns insetos fitófagos (‘pragas agrícolas’) que se alimentam de determinadas plantas cultivadas.
Já o grupo dos vetores é formado por animais que involuntariamente transmitem parasitas ou micróbios patogênicos. Ainda que não representem, por si só, um problema grave, esses animais são responsáveis pela disseminação de certas doenças. Trata-se de um grupo bastante heterogêneo, no qual reencontramos vários ectoparasitas que se alimentam de sangue. Todavia, além de certas semelhanças na dieta (vetores comumente são hematófagos), muitos têm outra característica importante em comum: eles trocam de hospedeiro com frequência, um comportamento particularmente apropriado (do ponto de vista dos patógenos) para um candidato a vetor. Pense, por exemplo, na eficácia dos pernilongos como vetores. Além do hábito hematófago e da troca constante de hospedeiros, muitos deles são particularmente ativos durante a noite, quando os indivíduos atacados estão dormindo e aí, excetuando-se as medidas preventidas (e.g., redes de proteção), pouco ou nada pode ser feito contra a ação desses insetos.
Por fim, temos o grupo formado pelos animais peçonhentos, muitas vezes referidos (erroneamente) como ‘animais venenosos’. Não custa ressaltar: embora peçonha e veneno sejam termos relacionados, há bons motivos para não confundirmos um com o outro – peçonha é inoculada, veneno é ingerido. Assim, animais peçonhentos são aqueles que ativamente inoculam substâncias tóxicas em outros seres vivos – e.g., substâncias paralisantes em suas presas. Aranhas, escorpiões e serpentes são exemplos de animais peçonhentos, não de animais venenosos; todos eles estão equipados com estruturas especializadas para inocular peçonha: quelíceras, no caso das aranhas; aguilhão, no caso dos escorpiões; dentes especializados, no caso das serpentes.
Atirando no próprio pé
Se houvesse um ranking de zoofobia entre os brasileiros, os animais peçonhentos provavelmente estariam nas primeiras posições. É difícil conhecer alguém que, estando diante de uma serpente, não queira simplesmente vê-la morta. Algo semelhante ocorre com os escorpiões e, em menor grau, com as aranhas. Em todos esses casos, no entanto, as reações são quase sempre exageradas e injustificáveis. Em primeiro lugar, porque é perfeitamente possível se livrar ou se afastar desses animais com certa facilidade, sem correr riscos desnecessários. Em segundo lugar, porque estamos diante de uma generalização grosseira, visto que raros animais peçonhentos representam de fato algum risco para nós – uma ou duas espécies de escorpiões, duas ou três de aranhas e três ou quatro de serpentes. Quer dizer, mesmo os grupos de animais mais ‘perigosos’ – os quais, por isso mesmo, poderiam gerar reações de aversão um tanto justificadas – abrigam espécies que, em sua grande maioria, são inofensivas para nós.
[De quase 80 gêneros de serpentes que ocorrem no Brasil, apenas seis abrigam espécies peçonhentas (tanatofídeos): Micrurus (coral verdadeira), da família Elapidae; Bothrops (jararaca), Crotalus (cascavel), Lachesis (surucucu), Bothriopsis (jararaca cinza) e Porthidium (jararaca-bicuda), todos da família Columbridae. A maioria dos acidentes registrados no país envolve serpentes do gênero Bothrops (jararacas). No caso de escorpiões, os acidentes quase sempre envolvem indivíduos da espécie Tityus serrulatus, o escorpião-amarelo; uns poucos envolvem o escorpião-preto, T. bahiensis. Entre centenas de espécies de aranhas encontradas no Brasil, apenas umas poucas seriam motivo de preocupação, a saber: aranhas dos gêneros Latrodectus (viúva-negra), Loxosceles (aranha-marrom), Lycosa (tarântulas) e Phoneutria (armadeira).]
O que dizer então da aversão a animais sabidamente inofensivos, mas sobre os quais pairam nuvens de desinformação e preconceito? Veja o que ocorre com morcegos e lagartixas. Qual é o grau de tolerância que os moradores das cidades ou mesmo da zona rural têm à presença desses animais? No caso dos morcegos, penso que seja bem baixo, fazendo com que esses animais ocupem as primeiras posições em um ranking da aversão. Trata-se, porém, de um grande exagero.
De um total de quase 1,2 mil espécies conhecidas de morcegos em todo o mundo, apenas três são hematófagas, das quais apenas uma (Desmodus rotundus, o vampiro ou palha-seca) pode ocasionalmente se alimentar de sangue humano. A maior preocupação, nesse caso, estaria voltada para o papel que esses morcegos hematófagos desempenham na transmissão de doenças, notadamente do vírus da raiva. Aqui onde moro, por exemplo, na zona rural de um município do sudeste de Minas Gerais, o último ataque de um morcego hematófago teria ocorrido há cerca de duas décadas (a vítima foi um cavalo), de acordo com a declaração de um vizinho amigo nosso, que mora aqui há uns 30 anos. Ele diz não se incomodar com a presença de morcegos (a maioria de hábitos frugívoros ou insetívoros), mas não sei se essa mesma tolerância se repetiria entre os demais vizinhos.
Na zona rural, é provável que o grau de tolerância aos morcegos só não esteja em níveis mais baixos por uma questão relativa, pois aqui as serpentes tendem a ocupar as primeiras posições. Já nas cidades, onde as chances de encontrar uma serpente são em geral bem inferiores às de encontrar um morcego, estes últimos devem ocupar as primeiras posições no ranking da aversão. Em todo caso, estamos mais uma vez diante de uma reação exagerada, embora existam exemplos ainda menos justificáveis.
Veja o caso da lagartixa-de-parede (Hemidactylus mabouia), uma espécie exótica, oriunda da África, e que hoje está amplamente distribuída no país, principalmente em áreas perturbadas, como aquelas onde prosperam edificações humanas. Esses pequenos lagartos de hábitos noturnos alimentam-se principalmente de insetos (baratas, mariposas, moscas etc.) e aranhas. Diferentemente de outros animais citados até aqui, a lagartixa-de-parede não caberia em nenhum de nossos pacotes de classificação antropocêntrica, visto que a sua presença não representa qualquer risco ou ameaça aos seres humanos. Senão, vejamos: elas não são nossos inimigos naturais (ao contrário, lagartixas-de-parede deveriam ser reconhecidas e condecoradas como um ‘faxineiro doméstico’), também não são vetores de doença (embora haja quem pense que elas transmitem o ‘cobreiro’) nem são répteis peçonhentos. Ainda assim, no entanto, esses animais continuam sendo vítimas de nossa aversão.
Fechamos assim o ciclo da zoofobia. Começamos com uma suposta precaução, munidos da qual nos habituamos a destruir todo e qualquer animal ‘perigoso’, e terminamos diante de uma grande e genuína insensatez, quando passamos a perseguir animais sabidamente inofensivos, alguns dos quais, como a lagartixa-de-parede, nos prestam serviços ecológicos gratuitos (e.g., reduzindo a população de baratas que abrigamos em casa). A conclusão não poderia ser outra: as reações insensatas geradas pela zoofobia equivalem muitas vezes a atirar no próprio pé.
[Nota: extraído de Costa, F. A. P. L. 2014. Ecologia, evolução & o valor das pequenas coisas, 2ª ed. Viçosa, Edição do autor.]
Ivan de Union
7 de setembro de 2017 11:47 am(Incidentalmente, minha
(Incidentalmente, minha ratinha de campo esteve por geracoes (mais de 12 anos) no teto da garagem, e consegui a tirar de la nesse ano, com muita peninha. Ai ela arranjou um buraquinho no tijolo da garagem e me despreocupei. Duas ou 3 vezes por semana eu deixo um amendoim pra ela. Muito bom o item, Filipe!)
Brnca
7 de setembro de 2017 2:02 pmE?
E os seres humanos peçonhentos, tipo os golpistas atuais, que chupam o sangue de uma Nação linda, alegre, apesar de faminta e a envenenam, onde se encaixam?
Antonio Carlos Gonçalves
7 de setembro de 2017 3:01 pmInspirador
Nesta manhã, Dia da Pátria, no qual temos tão pouco a comemorar, este texto foi inspirador.
Parabéns!
Antonio Carlos Gonçalves
Edgar Rocha
7 de setembro de 2017 7:50 pmE LEITE ACHOCOLATADO VEM DE VACA MARROM!
Agradável surpresa, este texto! Cabe sim, tal discussão num site eminentemente político, ainda mais nos dias atuais, em que sofremos as consequências de nosso afastamento do mundo natural. A mais grave delas, na minha humilde opinião, está na indiferença e na falata de afeto diante do meio que nos cerca. Acho até que a zoofobia a qual o autor se refere estaria inserida nesta realidade cultural triste. Tem gente na cida que acha que leite achocolatado vem de vaca marrom! Não é exagero de minha parte, não. Mais que medo, e ódio por animais, o desprezo por eles e a hipocrisia no tratamento da questão preservacionista são já culturalizadas. Não há mais respeito nem reconhecimento dos serviços prestados pelos animais que escravizamos, o que dizer dos animais peçohentos? Por isto, vale dizer, parabéns pelo texto, Felipe Costa!!!
De minha parte, minha família é mineira de Viçosa. Meus pais nutriam o belo hábito da produção de uma hortnha, da criação de galinhas, da manutenção de um pomar (ainda de pé em minha casa). Com a tradição mineira, herdei em princípio, o medo de cobra, e o caráter utilitário da natureza. Mas, não só isto. Também muito amor e apreço pelo mundo natural. Estou com 45 anos e agradeço por ter recebido e manter este contato com a natureza. Graças a eles, me considero um biólogo autodidata. Moro em frente a uma APA e isto instigou-me por toda infância a buscar conhecimento sobre o nicho ecológico que ocupamos. Paulistano acha que mata Atlântica fica só na Serra do Mar. Não assimilam que moram nela e que esta é sua casa. Ficam horrorizados quando digo o que vejo na mata e também no que visita e, às vezes mora em meu quintal. tento passar adiante este apreço e cuidado com os bichos e plantas. E as crianças do bairro amam. Visitam meu quintal à noite pra ver os morcegões comendo fruta, adoram a Fiona (um sapo cururu que resolveu morar em meu quintal há três anos já). Gostavam da Carmen Julia (a cobra cipó) e, vez por outra me entregam os bichos que encontram, como se eu fosse do IBAMA. Com exceção dos jabutis (que o poder público despreza) acabo tendo que entregar à polícia florestal. É sempre uma oportunidade legal de ver os bichos, respeitá-los e aprender.
Ulisses s
8 de setembro de 2017 2:11 amCorreções
Bothrops, Crotalus, Lachesis e Bothriops pertecem a família Viperidae, embora a Lachesis seja ovípara. O gênero Lycosa por confundir-se ao gênero Phoneutria era considerada espécie de aranha peçonhenta. Mas desde os anos 90 era foi anistiada e retirada dos manuais de animais peçonhentos do Ministério da Saúde. na Bahia existe uma espécie de escopião, Tityus stigmurus com toxina tão potente quanto o T. serrulatus.
Ze Guimarães
8 de setembro de 2017 8:32 amO único animal nocivo
A única criatura que consegue ser nociva, isto quando quer, seja bem considerado, é o ser humano.
Não existe nenhum ” animal nocivo “, ou ” daninho “. Os animais, mesmo os venenosos quando nos seus lugares certos, nenhum mal fazem aos seres humanos, desde que estes respeitem seus limites.
todas as espécies são impostantes, para manter o equilíbrio ecológico.
Sete bilhões de seres humanos, isto a ciência não considera uma praga fora de controle, mesmo que continuem a crescer indefinidamente … estranho….
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Muita coisa o povo desconhece , mesmo sobre os animais venenosos. Poucos sabem, que a cobra coral, uma das serpentes mais venenosas do mundo, presente no Brasil, é muito mansa, só ataca quando for ameaçada, e foge sempre do ser humano quando pode, evitando conflitos…Isto já aconteceu comigo.
Qualquer cobra, ao ser avistada, e a pessoa ficar imóvel diante dela, reduz ao mínimo as possiblidades de ser mordida, dificilmente um animal ataca quem não lhe representa ameaça.
Já aconteceu comigo, em caso de topar com um gigantesco enxame de abelhas africanas enfurecidas, simplesmente me imobilizei, abaixei no chão e esperei 15, 20 minutos até as abelhas acalmarem, então levantei calmamente e fui embora sem ter sido picado por nenhuma. Não se pode matar a primeira abelha, senão o ferormônio que ela emite chama as outras para picá-lo também.
Os fiscais de zoonozes sempre que chamados aqui na minha cidade para capturar aranhas armadeiras, ou cobras, as capturam vivas e soltam nas reservas mais próximas.
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” Irreconhecível se tornou a Terra… Sempre quando os seres humanos chegam a um novo continente, ou ilha descrevem o local como sendo parecido com o Paraíso, mas após alguns séclulos vê-se geralmente um cenário de destruição…
a natureza somente ainda é perfeita aonde o ser humano não chegou. Também, aos animais, pertencentes à Terra, foi negado qualquer direito de vida. Somente ao animal de cérebro, o ser humano, o tirano entre as criaturas, apoderou-se de todos os direitos de propriedade.”
” A discriminação de uma espécie, só por que tem seis patas, ou oito, ou peçonhas, ou veneno, é tão criminosa quanto a discriminação de uma raça. Se Deus em sua Sabedoria criou, um ser humano branco, e o outro negro quem somos nós para questioná-Lo?, E se Ele criou uma espécie ser humano, e outras espécies , como cobras, aranhas, ou pássaros, quem somos nós para questionar suas Criações ? tudo o que foi Criado por Deus é digno de respeito, é Sagrado. “