4 de junho de 2026

Começou a campanha eleitoral de Trump, por Gustavo Conde

É um movimento muito bem pensado, mas que aposta no caos do discurso para ganhar espaço político.

Começou a campanha eleitoral de Trump

por Gustavo Conde

O cerco vai se fechando e os agentes políticos do horror partem para movimentos agônicos de tudo ou nada, calculando variáveis que vão desde a hegemonia política à economia, passando, sobretudo, pela batalha de comunicação nas redes sociais, a nova arena da disputa por influência global.

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Acossado por um processo de impeachment que ninguém sabe muito bem se pode ou não prosperar no Senado, Donald Trump resolveu arregaçar as mangas e se precaver promovendo aquilo que a imprensa internacional mais ama: uma crise bélica em que as opiniões políticas se estilhaçam como fragmentos de granada.

É um movimento muito bem pensado, mas que aposta no caos do discurso para ganhar espaço político. Explico: enquanto a opinião pública internacional ficar especulando sobre as razões de Trump assassinar o general iraniano Qasem Soleimani e mais dois milicianos iraquianos no aeroporto de Bagdá – eles também têm milícias -, o rolo compressor da espionagem, do aparelhamento judicial, das sanções, do protecionismo e do fanatismo ocidental revestido de ódio vai prosseguir impávido e turbinado pela couraça do novo assunto galvanizante.

Depois de muito citarmos James Carville e seu “é a economia, estúpido”, é hora de começarmos a citar Chacrinha: “eu não vim para explicar, eu vim para confundir”, ou, pelo menos, adaptar para: “é a comunicação, estúpido”.

O general iraniano assassinado por Trump era uma estrela no Instagram. Isso certamente assustou mais os engenheiros da guerra que o fato de ele ser o general mais admirado do Irã. Em tempo de redes sociais e fake news, o exercício da influência política migrou da disputa rudimentar por petróleo ou dólares para o campo de guerra da comunicação digital. E eles irão matar por isso, como ficou claro com mais este atentado terrorista de Trump e com o atentado terrorista de Eduardo Fauzi, ídolo conceitual das jornadas de 2013 no Brasil.

O terrorismo de Estado está em alta, nos EUA, no Brasil e em boa parte do mundo. E ele se reaclimatou no Brasil, entre outras coisas, com o forro eficiente da premonição reversa, dispositivo retórico do universo Steve Bannon: lança-se o medo, através de especulações sobre o possível terrorismo de movimentos sociais populares, sindicatos e partidos (MST, MTST, CUT, PT), instala-se um discurso institucional para combatê-lo (Moro e seu projeto anticrime) e a palavra “terrorismo” passa a ser furiosamente usada por todos os veículos de comunicação, inclusive com a colaboração dos comentadores progressistas (que são obrigados a falar sobre o tema).

O sentido de terrorismo está em cena e passa a ser disputado por duas linhas políticas: a sem caráter (a extrema direita que é terrorista) e a ingênua (a esquerda que ainda sonha em convencer a opinião pública com argumentos racionais).

No Brasil, com o jornalismo que temos, fica fácil de prever quem leva a melhor.

Pior do que isso é a realidade incontornável dos fatos: a extrema-direita produz terrorismo, o Estado não se manifesta (e também produz terrorismo) e ambos acusam a esquerda de ser terrorista (basta pensar em Luciano Hang e em sua Estátua da Liberdade inflamável).

É o caos do sentido que acaba por favorecer os franco-atiradores de projéteis, extremistas de profissão, terroristas de discurso. Trump, Bolsonaro, Nethanyahu e racistas em geral, eles vieram para matar e o mundo inteiro sabe disso, inclusive e sobretudo o mundo jornalístico, que se abstém de emitir cifras de opiniões no corpo das matérias supostamente factuais em nome da neutralidade asséptica da informação.

Como na experiência do nazismo e do holocausto, depois é tarde para se arrepender.

O timing de Trump é perfeito. O terrorismo do Estado americano gosta de surpreender nos primeiros dias do ano cristão. É um recado daqueles que acreditam que uma nova era virá, a era de sempre, a era da guerra e da morte.

Trump garante, assim, sua reeleição. A Europa assiste inerte como sempre e a América do Sul respira, pois com as atenções realinhadas à clássica engrenagem EUA-Oriente Médio-Petróleo-Europa-Vassala, a energia necessária para prosseguir com a devastação institucional latino-americana será realocada.

Aliás, diga-se de passagem: a América Latina já foi destruída, com destaque para o Brasil. Não é mais preciso investir preocupações com este subcontinente sob escombros.

Curioso é constatar que tem muito brasileiro que se diz de esquerda que pondera sobre o dedo americano nas jornadas de 2013, no golpe contra a democracia e na eleição fraudulenta de Bolsonaro.

Eles veem um governo assassinar um general de outro país em um aeroporto internacional e oferecer as imagens como bônus midiático para uma imprensa internacional acuada pelo poderio semiótico das redes sociais e optam pela cegueira doméstica e pela ingenuidade generosa dos adesistas de turno.

O ataque dos americanos à soberania dos povos do Oriente Médio é um soco nesses brasileiros que negam o papel dos americanos nas jornadas de 2013 e nos golpes que se sucederam em toda a América Latina nos últimos 70 anos.

Jornais brasileiros costumam chamar cachorramente o discurso realista que destaca a ingerência americana sobre o Brasil de “antiamericanismo”. Para eles, o PT é antiamericanista – o que na tradução correta, torna-se um tremendo elogio (pois trata-se de um sinônimo de defesa da soberania).

A guerra da comunicação associada à carnificina das guerras tradicionais está de volta, com a pompa das velharias editoriais caquéticas das agências internacionais. Não é a toa que o sintagma “Terceira Guerra Mundial” tenha sido o assunto mais comentado do mundo, instantes após o atentado terrorista do governo americano em Bagdá.

Uma guerra sem Twitter, sem Instagram, sem Facebook, sem Google, simplesmente não existe no atual estado apodrecido de coisas. Ela começa nas redes e depois de alastra com os assassinatos (que a imprensa convencional chamará de “baixas” de guerra”).

Estamos, sem dúvida, diante de uma novidade. Essa guerra anunciada atende a todos os mesmos velhos interesses do império, mas tem-se agora o componente adicional das redes sociais, cujo significado prático ainda é uma incógnita.

Como vão se comportar as redes diante de uma guerra que também será cultural e narrativa? Como se comportarão os ideólogos do terrorismo digital como Steve Bannon e Carlos Bolsonaro diante de um novo estilhaçamento moral propiciado por imagens de crianças fuziladas e mulheres com a carne retorcida nos escombros de suas casas?

Um gesto terrorista de guerra como este de Trump é um acelerador de história. Teremos desafios importantes pela frente, não mais só recobrar a democracia perdida no Brasil, como recobrar a capacidade de repensar formas de governo e de civilização.

Trump deve conquistar a fatia do eleitorado americano com pendores racistas e provincianos com este ataque. Mas o mundo estará sendo lançado ao seu limite de tolerância contra a extrema violência dos fanáticos conservadores.

O Brasil, finalmente, pode ter encontrado o caminho para liberar as amarras de sua inércia social e confirmar o que 9 entre 10 analistas de América Latina têm defendido em suas leituras: o próximo país a entrar na engrenagem dos imensos protestos no continente será o Brasil.

Quando associada aos estudos da linguagem, a história costuma ser até um pouco previsível. Não é, não foi e nem será gratuito o retorno do tema “Jornadas de 2013” neste presente ingrato e complexo que nos rodeia. Trata-se de uma ferida ainda aberta na compreensão do Brasil recente.

A mera menção a 2013 está latejando na medula da história brasileira: “preparem-se, porque agora os protestos serão para valer”.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

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