O que responder quando alguém lhe acusar de estar do lado certo da história?
por Gustavo Conde
Quando alguém entra em um debate dizendo que seu interlocutor se coloca como dono da verdade, diz algumas coisas que vão além da superfície do texto. Primeiro, desqualifica de antemão qualquer resposta no plano do argumento. Segundo, reduz o debate público à dicotomia verdade/mentira. Terceiro, rebaixa o debate ao nível pessoal (psicologiza o interlocutor). Quarto, manifesta fobia à ideia de ‘verdade’ (como se ela não existisse). Quinto, deixa exposto o desejo em assumir essa verdade como sua propriedade.
Em outras palavras, se digo: “você se acha sempre do lado certo da história”, eu estabeleço o mesmo tom prepotente que acredito criticar. Um fragmento literário ao estilo de Alphonse Allais ou Lewis Carrol poderia definir assim o dilema:
“‘Ninguém pode se colocar do lado certo da história’ – disse a ministra, colocando-se imediatamente do lado certo da história”.
A linguagem é ingrata e nos pega sempre pelo pé.
Há um sintoma estranho no mercado da interpretação pública de texto que diz respeito ao desejo e às projeções leitoras. Quando alguém diz alguma coisa com confiança e paixão, acusa-se essa pessoa de prepotência.
É a patrulha, a lei da mordaça em que só tem direito ao dizer aquele que ‘eu’, do alto da minha própria onipotência mascarada, consigno como justo e próprio.
De repente, construiu-se o mito de que sujeitos enunciadores devem pedir licença para falar. E se ousarem falar, que seja com muito cuidado, para não ferir sensibilidades.
É a pressão histórica e opaca pelo silêncio social: só tem direito ao dizer as autoridades, os magistrados, os especialistas, os proprietários de terras e imóveis e os jornalistas da Rede Globo de Televisão, sempre limpos e bem educados.
O ditado “a voz do povo é a voz de deus” viceja na polissemia do gesto porque, ademais, jamais escutamos concretamente nem a voz do povo nem a voz de deus. A voz de deus tem dono: não é a missa, é o míssil.
Eu gostaria de dizer aos leitores que me veem como texto indigesto: eu avanço e continuarei avançando contra esse dizer institucionalizado e estabilizado com muita vontade e sem pedir licença.
O vício pela mediocridade conservadora que domestica e organiza o que pode ou o que não pode ser dito é precisamente o que levou o meu país a se transformar em uma máquina de moer gente.
Dizer pedindo licença é degradante.
Talvez, esteja na hora de todos nós recuperarmos o tesão pela palavra, celebrar o maior milagre da humanidade que é a linguagem humana, lutar pelo sentido como se luta pelo salário.
E se você acredita que está do lado certo da história, diga isso a plenos pulmões, sem vergonha, sem medo, sem remorso. Erre, rompa, viva, experimente, projete-se ao desconhecido das formulações edificadas com garra, mostre seu poder de persuasão, saia da zona de conforto que habita o seu silêncio.
E se você não acredita em si nem no que é e nem no que diz, sirva-se à contemplação da catástrofe social em que mergulhou o seu país, o seu futuro e a sua subjetividade. Há espaço para todas as percepções de mundo, ainda que a história, essa ingrata, venha cobrar cedo ou tarde aqueles que a subestimam e a ignoram.
Estar do lado certo da história não é ser dono da história, é respeitá-la. A lógica da propriedade, tão cara a quem resiste em explorar com delicadeza os sentidos de democracia, não se aplica ao discurso público que fundamenta a história.
Os sentidos têm donos, mas sua organização espontânea e massificada é complexa demais para os pretensos proprietários do dizer. Isso permite furos no sistema. Isso explica um operário ser eleito presidente da República em um país de herança autoritária. Isso explica a vingança do sistema contra esse operário, que, por sua vez, insiste em não aceitar seu destino sistêmico de morrer em silêncio.
Não se faz um debate público e abstrato, personalizando a origem do discurso. Discute-se ideias, não pessoas. E se se discute pessoas, discute-se o que elas dizem, não o que elas são.
O que define o regime das significações de um texto sob autoria não é a percepção efêmera e reativa do leitor debruçada sobre pressupostos da personalização.
O que define o sentido de um texto é o conjunto da obra e o contexto histórico que a reveste, na sua multiplicidade de interpretações possíveis (mas que, para serem possíveis, precisam ser enunciadas).
O avesso da história é negar a realidade se equilibrar malandramente no discurso do outro, seja para desqualificá-lo, seja para endossá-lo.
A história detesta essa terceirização do sentido. A história exige protagonismo, ação, subjetividade, corpo, posição, autoestima. Para esses, a história é companheira. Para quem apenas a assiste, ela é mito.
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