24 de junho de 2026

A arte da intolerância, por Janderson Lacerda Teixeira

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A arte da intolerância

por Janderson Lacerda Teixeira

A aula estava prestes a começar. A sala não era tão ampla, mas continha o necessário para que fosse ministrado o magnífico curso de trompete para iniciantes.

O professor, Vladimir Puskas, 46 anos, fronte calva, pele clara, estatura mediana e um pouco acima do peso, herança de uma crise conjugal que o levara ao divórcio e, consequentemente, a uma alimentação desregrada e ao consumo excessivo de álcool nos últimos meses, inicia a aula ao som de Chet Baker.

O Professor cumprimenta os alunos, ainda ao som, baixinho, de Baker, e faz algumas recomendações em relação ao curso. Evita apresentações pessoais, afinal o que interessa que os une naquela sala é a paixão pelo trompete.

Vladimir pede aos alunos que fiquem em pé e orienta-os a segurarem seus trompetes com a mão esquerda. Antes de prosseguir, recomenda aos discentes quanto ao zelo que devem ter com o instrumento.

Solicita, então, que o trompete, ainda, seguro pela mão esquerda dos alunos, seja mantido em uma posição estática, enquanto orientações sobre o uso da embocadura são proferidas. O professor pede para que alguns exercícios vocais sejam realizados, mas parte dos alunos demonstra dificuldade; o que leva o professor a pedir que o trompete seja guardado no estojo.

Vladimir prossegue:

— Primeiramente, diga apenas o fonema da letra “M”, tente fazer um som parecido com “EME, EME, EME” e congele a boca nessa posição. Agora, assopre enquanto mantém os lábios dessa maneira. É estranho no começo, eu sei, mas é assim que se deve usar a boca para tocar trompete!

Os alunos desenvolvem fielmente o exercício por diversas vezes. O professor entusiasmado pede para que os candidatos a trompetistas peguem, novamente, o instrumento. Orienta-os a segurar o trompete com a mão esquerda e pede para que assumam a embocadura, encostem o instrumento nos lábios e assoprem.

Vladimir com veemência pede para que nenhum pistão, por enquanto, seja apertado.

Uma aluna eufórica ensaia um movimento brusco para apertar um pistão e o professor esbraveja:

— Não aperte os pistões ainda! (Os pistões são uma espécie de válvula que controla a distância percorrida pelo ar dentro do instrumento).

Vladimir pede para que os alunos com os lábios encostados no instrumento assoprem devagar, bem devagar! Posteriormente pede para que apertem os lábios um pouco mais e abaixem os pistões nº 1 e 2. (Os trompetes possuem três pistões).

Vladimir ouve com atenção e logo percebe a dificuldade dos alunos, principalmente, em relação à utilização do bocal. Então, propõe que o exercício seja feito novamente, mas dessa vez, ao invés de apenas soprarem, pede aos alunos para que pronunciem a sílaba imaginária “PETE”; e insiste:

— Coloquem os lábios no bocal e pronunciem devagar: “PETE, PETE, PETE”.

Neste exato momento, uma senhora de pele clara, magra, cabelos ondulados, olhos cor de jabuticaba, estatura mediana dá um salto para frente e protesta:

— Pronunciar o quê?

Vladimir indignado com a indisciplina da aluna vocifera:

— “PETE, PETE, PETE e PETE”!

— Seu petralha desgraçado! Eu sabia, eu sabia! Da minha boca não sairá esta promiscuidade!

Vladimir, sem compreender ao certo, ensaia uma aproximação da ríspida aluna, mas é contido por outros discentes.

A mulher abre rapidamente a bolsa (uma Louis Vuitton) e saca uma panela de cerâmica, de cabo curto, e parte para cima do professor.

Alguns colegas tentam contê-la, em vão! A notável senhora atira-se contra Vladimir e o golpeia repetidas vezes com a panela.

A convulsão se instala na sala (…). A mulher enfurecida parece ter sido tomada por um exército ou por uma legião de espíritos!

— Toma o golpe seu petralha safado! Toma o golpe! Pete, não! Pete não, me respeite! Bradava enquanto sovava o professor!

A polícia militar é chamada e a senhora com muita dificuldade é retirada de cima de Vladimir.

Uma policial feminina oferece água para a mulher enquanto dois soldados arrastam o professor para fora da sala.  Vladimir é levado para delegacia, assim como a enfurecida aluna.

A senhora, mais calma, prestou depoimento e logo foi liberada. Quanto ao Professor Vladimir, foi insultado pelo delegado e conduzido ao hospital 13 de Maio para tratar dos ferimentos; recebeu alta e foi conduzido novamente até a delegacia e terá que responder por perturbação do sossego alheio, além de prática de ideologização docente.  

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Lourdes Nassif

Redatora-chefe no GGN

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6 Comentários
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  1. PauloBR

    5 de junho de 2017 8:21 pm

    Errata

    Creio que por essa altura o nome do Hospital (e da via) não poderia ainda ser TREZE de maio…

  2. saulogeo

    5 de junho de 2017 9:18 pm

    Continuando assim…

    Seguindo este samba do criolo doido, a cor vermelha ainda será suprimida do espectro solar e o  Tio Sam vai ter que mudar a cor da sua bandeira….

  3. Alexandre Mendes

    6 de junho de 2017 12:35 am

    É inacreditável.

    Isso foi verdadeiro? É inacreditável…

    É muita doutrinação fascista nessa mulher.

    Chegamos nesse ponto mesmo?

     

  4. Liev Dvorak

    6 de junho de 2017 12:37 am

    Não dá para acreditar nisso!!!

    Não dá para acreditar nisso!!!

  5. Miguel F

    6 de junho de 2017 9:43 am

    Logo logo vermelho só será
    Logo logo vermelho só será permitido se estiver ao lado de um fundo azul com estrelinhas brancas…..

  6. Marcos Luiz Costa

    6 de junho de 2017 2:03 pm

    Essa é gozação…

    Essa é gozação…

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