O surto de coronavírus na China vai afetar de maneira negativa a economia mundial. Todavia, os analistas europeus https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2020/02/17/interna_internacional,1122415/coronavirus-tera-impacto-temporario-na-economia-diz-presidente-do-e.shtml e brasileiros https://economia.uol.com.br/noticias/bbc/2020/02/12/da-industria-de-celulares-a-soja-impactos-do-coronavirus-na-economia-brasileira.htm acreditam que o estrago será pequeno. Os norte-americanos não são tão otimistas em relação à própria China, muito embora acreditem que o estrago produzido nos EUA será pequeno https://www.nytimes.com/2020/02/15/opinion/china-economy-coronavirus.html.
É difícil dizer o que vai acontecer. Nesse momento os especialistas acreditam que a China está fazendo o possível para conter o vírus. Alguns, entretanto, acreditam que aquele país pode estar perdendo o controle sobre a epidemia https://www.youtube.com/watch?v=G_04KMhOavg&feature=youtu.be. Segundo os cientistas o coronavírus é mais contagioso e menos letal do que o SARS https://www.youtube.com/watch?v=ZBOwFBu05c8&feature=youtu.be. Entretanto, ninguém em sã consciência pode descartar o surgimento de mutações mais agressivas e mortais do coronavírus.
A economia moderna depende, em grande medida, de previsões autorrealizáveis. Portanto, é compreensível o otimismo dos analistas econômicos. Eles não querem provocar uma recessão mundial levando os investidores a ficar pessimistas (o pessimismo econômico é mais contagioso do que o próprio coronavírus). Todavia, é evidente que o otimismo é incapaz de modelar a realidade. Isso ficou bem claro no Brasil.
Há bem pouco tempo os arautos do mercado diziam que era só tirar Dilma Rousseff que veríamos um crescimento espetacular. Michel Temer chegou ao poder, mas a economia não deu sinais de recuperação. Durante as eleições os analistas econômicos garantiram que uma vitória de Jair Bolsonaro acalmaria o mercado e faria os investidores retornarem. Ledo engano. O fracasso do mito é tão evidente que o dinheiro seguiu o caminho inverso (ele saiu do Brasil. Em 2019 nosso país cresceu 0,89% e nem isso foi capaz de convencer os economistas mitômanos a abandonar os mitos do neoliberalismo.
Duas coisas me parecem evidentes em relação ao coronavírus. Quando chegar com força na Europa, nos EUA e no Brasil ele provocará estragos diferentes. Norte-americanos e europeus sofrerão menos porque tem mais recursos para combater o vírus. No Brasil a epidemia causará uma catástrofe humanitária e econômica. E à medida que a China for alocando mais e mais recursos para conter o coronavírus menos dólares chineses chegarão em nosso país. Isso certamente piorará muito o desempenho de uma economia que foi destroçada para garantir lucros exorbitantes aos banqueiros.
A pandemia está sendo acompanhada por um verdadeiro surto de informação séria e duvidosa. O “respeitável público” pode escolher ver documentários feitos com cientistas e especialistas. Mas também pode consumir e repassar Fake News. Eu mesmo recebi uma pelo WhatsApp. A mensagem contendo uma foto dizia o seguinte: “Antes de estourar plástico bolha lembre-se que o ar vem da China”. Causa e efeito: tudo que vem da China está contaminado. Essa é a mensagem não escrita. O problema: é pouco provável que alguém receba coronavírus dentro de um plástico bolha que pode ter sido fabricado em outra província chinessa meses antes do início da epidemia em Wuhan.
Do ponto de vista econômico o estrago provocado pelo coronavírus ainda é incerto. Mesmo assim, peço licença ao leitor para fazer uma longa digressão histórica:
“Em meados do século II d.C. a prosperidade comercial e financeira do Império Romano era formidável e quando Antonino Pio morreu, em 161, o superávit financeiro deixado para o seu sucessor, Marco Aurélio, era de 2,7 bilhões de sestércios. Províncias revoltosas e incursões estrangeiras podiam promover distúrbios nos territórios remotos, mas Roma não dependia das finanças deles para suas operações globais. O governo central romano possuía recursos, tanto financeiros quanto militares, para repelir com força devastadora as possíveis insurreições domésticas ou invasões externas. A guerra civil era uma ameaça à estabilidade do sistema, mas os conflitos acabavam sendo breves porque a facção militar que defendia o Egito controlava as finanças do Estado romano, portanto nenhum inimigo era forte o bastante para derrotar o Império Romano e sua posição dentro do Mundo Antigo parecia inabalável. No Oriente distante, os grandes exércitos do Império Han se equiparavam ao do Estado romano em tamanho e organização, mas a distância era muito grande para construir uma séria ameaça militar.
A crise que incapacitou o Império Romano no século II d.C. e feriu fatalmente sua supremacia não foi causada por um inimigo humano, mas por um vírus microscópico e legal. A ameaça invisível teve origem na Ásia Central, onde foi liberada na população em expansão no Mundo Antigo. A doença era uma agressora que os Impérios Romano e Chinês não podiam superar com a força de seus exércitos ou os recursos maciços comandados por seus governos imperiais. Quando a pandemia chegou ao Oriente distante no ano de 161 d.C., começou a infligir mortes pavorosas na população do Império Han. Nas fronteiras militares, as forças chinesas perderam entre 30% e 40% de seus efetivos, com os soldados ou mortos ou debilitados pelos primeiros surtos mortais da infecção. A crise não tinha precedentes e a confiança no governo começou a diminuir, à medida que enfraquecia a população chinesa percebia que seus governantes eram incapazes de conter essa nova ameaça. Após uma geração de declínio o Império Han entrou em uma fase de tumulto político que terminou com o Estrado fracionado em reinos rivais.
O vírus levou a mesma devastação às fortificadas fronteiras romanas e impôs maiores fatalidades entre as legiões do que qualquer horda bárbara pudesse desejar alcançar. A pandemia também espalhou a infecção através do núcleo mediterrâneo do império, transmitida nos bazares romanos lotados de pessoas conduzindo seus negócios.
A sorte de Roma mudou dramaticamente com o resultado final da Peste Antonina. Augusto havia entendido que o império como um todo não poderia se sustentar com o sistema tributário que Roma impunha tradicionalmente às suas populações vassalas. Ainda assim, impulsionados pelas receitas do comércio oriental, os imperadores que o sucederam anexaram outros territórios deficitários e aumentaram os gastos militares do Estado. Portanto, no século II d.C., Roma era dependente dos altos lucros advindos do comércio oriental e quando a peste eliminou-o do sistema financeiro o governo percebeu que não poderia mais arcar com todos os custos militares com as receitas provindas das províncias. Pela primeira vez, desde a época de Augusto, houve um grave declínio nas finanças do Estado e o império estava enfrentando uma série contínua de desastres que ameaçavam esmagar o regime.” (Roma e Oriente Distante, Raoul MacLaughlin, editora Rosari, São Paulo, 2012, p. 228-229)
Apesar do estrago que um surto de coronavírus pode causar nos EUA, especialmente quando a pandemia chegar nas periferias empobrecidas das cidades norte-americanas, o presidente Donald Trump decidiu aumentar as despesas militares e diminuir as verbas destinadas à saúde https://oglobo.globo.com/mundo/trump-propoe-orcamento-recorde-para-2020-com-cortes-em-programas-sociais-23513784. Altamente financeirizada, a economia norte-americana também depende bastante dos dólares que transitam entre os EUA e a China.
O futuro da Chimérica https://en.wikipedia.org/wiki/Chimerica será decidido pelas armas ou pelo coronavírus? O destino da China e do Império Americano está tão conectado hoje quanto o de Roma esteve ligado ao do Império Han? Não vou me dar ao trabalho de responder essas perguntas. Minha intenção é apenas despertar a curiosidade do leitor.
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