4 de junho de 2026

O presidente Jango e o filho, em livro de memórias, por Roberto Bitencourt da Silva

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Roberto Bitencourt da Silva

João Vicente Goulart, diretor do Instituto João Goulart e filho do ex-presidente destituído e perseguido pela ditadura civil-militar de 1964, há pouco publicou importante livro: Jango e eu – memórias de um exílio sem volta.

Abordando aspectos da trajetória familiar no exílio, sobretudo referindo-se a Jango, a obra é uma grande contribuição para o resgate de traços da personalidade do antigo líder trabalhista. Também tece um rico panorama das vicissitudes vivenciadas pelos exilados e, em especial, pelos povos do Cone Sul, entre as décadas de 1960 e de 1970.

Lançado pela editora Civilização Brasileira, Jango e eu apresenta o comportamento simples de João Goulart, mais afeito e confortável no trato e nas conversas com os colaboradores e empregados de suas fazendas, do que em eventos da “grã-finagem”.

Informações sobre o livro:

João Vicente Goulart. “Jango e eu – memórias de um exílio sem volta”. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016, 349 páginas.

 

Uma miríade de passagens no livro explora exemplos a esse respeito. Em boa medida, as memórias de João Vicente convergem com trabalhos historiográficos contemporâneos – como os produzidos pelo professor Jorge Ferreira –, que também assinalam aquele traço de personalidade, mais suscetível a um bom diálogo com os trabalhadores, os “humildes”.

Evidentemente, o elitismo e o cinismo político imperante em nossos tempos tenderia a aí observar apenas “maquiavelismo demagógico e manipulador”. Por meios eruditos, há muito a academia tenderia a desqualificar o que se chamava de “mito” da “democracia de galpão”, o velho e pretenso “igualitarismo gaúcho”. O ex-sociólogo Fernando Henrique Cardoso foi um prócer na difusão dessa percepção.

Sem me estender a respeito, cumpre apenas observar que, se a formação cultural e econômica do Rio Grande do Sul também se apoiou remotamente no trabalho escravo (mesmo que de modo marginal), e na grande propriedade rural, ela possui – ou melhor, possuiu – especificidades salientes.

E é precisamente nessas especificidades, entre outros, de uma relação menos verticalizada entre patrão e trabalhador, bem como em uma economia que se ergueu voltada para o mercado interno, que o perfil de Jango se encaixa. Representam uma chave importante para a compreensão comportamental e política do ex-presidente.

Como, de resto, consistem em uma variável decisiva para entendermos a força que guardou o velho trabalhismo brasileiro no Rio Grande do Sul. Onde o homem simples e “campeiro” João Goulart projetou-se como grande líder para a vida política nacional.

Isso posto, a obra destaca ainda os círculos de amizade, as traições e os distanciamentos de antigos colaboradores do presidente golpeado e exilado no Uruguai e, depois, na Argentina. Elementos de trajetória muito bem explorados pelo autor. E que não deixaram de gerar marcas profundas no personagem central: desgostos e sabores da vida, de um ator político que defendeu a democracia e a justiça social, a emancipação econômica e tecnológica e a soberania brasileira. Jango pagou alto preço por isso.

Manifestações de apoio, recebidas de políticos, artistas, intelectuais, personagens do povo e mesmo de círculos militares, bem como inúmeras dificuldades e constrangimentos sofridos por Jango e a família no exílio, com o recrudescimento do estado de exceção e a instalação de ditaduras no Cone Sul, são fragmentos de memória pertinentemente recuperados por João Vicente.

São importantes, de um lado, porque demonstram a vigilância e a covarde perseguição sofrida pelo ex-presidente da República, devido à coordenação das iniciativas das ditaduras instaladas no Cone Sul, com suporte estadunidense, no que posteriormente foi reconhecido como “Operação Condor”.

Por outro lado, a obra propicia um resgate de memória sobre as arbitrariedades cometidas na região sul da Américas, que retiraram as liberdades civis mais elementares, violando qualquer princípio democrático de participação popular no poder político.

Isso tudo para alienar as riquezas e os frutos dos trabalhadores em benefício do imperialismo norte-americano. Títeres locais para fazer o serviço sujo não faltavam. Entreguistas, ganhavam seu quinhão de dinheiro e poder pela associação subordinada.

Evidentemente, o próprio autor não deixou de sofrer as consequências. Bastante moço, na escola envolvido em demonstrações políticas de descontentamento com o arbítrio crescente, chegou a ser preso e submetido à tortura no Uruguai. Segundo as suas palavras, tratavam-se de ações que tinham em vista especialmente “constranger o pai”.

Trata-se, pois, de um livro emocionante e que descortina questões sobre o passado brasileiro, de demais países do Cone Sul e, claro, sobre as vicissitudes sofridas pela família Goulart, pelo nosso grande Jango. Um presidente a que não foi reservado sequer o direito de morrer em sua própria e querida Pátria.

Roberto Bitencourt da Silva – historiador e cientista político.

 

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

6 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. marcosomag

    17 de dezembro de 2016 8:07 pm

    Hoje, tal qual como ontem.

    Destaco o trecho do texto sobre o livro:”as arbitrariedades cometidas na região sul da Américas, que retiraram as liberdades civis mais elementares, violando qualquer princípio democrático de participação popular no poder político.

    Isso tudo para alienar as riquezas e os frutos dos trabalhadores em benefício do imperialismo norte-americano. Títeres locais para fazer o serviço sujo não faltavam. Entreguistas, ganhavam seu quinhão de dinheiro e poder pela associação subordinada.”

    Hoje, lutamos contra os mesmos tipos de arbitrariedades que sofriam os brasileiros de ontem, e das quais, de modo cínico, as elites entreguistas tentam se esquivar das suas responsabilidades em relação a elas.

    1. ze sergio

      17 de dezembro de 2016 10:49 pm

      hoje….

      “violando qualquer principio democratico de participação popular no poder politico”…Onde Jango foi procurar este “principio democratico? Em Cuba ou na China? Acordamos deste pesadelo. Abra as janelas e olhe para a rua. Ninguém mais acredita nesta fantasia da esquerda. 2016. As forças pseudo-socialistas que reescreveram a Constituição Cidadã de 1988 só admitiram falar em eleições diretas para Presidente para salvar seus pescoços e derrubar Temer. Urna eletrônica com voto obrigatório, ninguém absolutamente ninguém, ainda levantou o discurso para abolir.  Jango foi apenas mais um pária da esquerda na manutenção do atraso nacional. Igual a ele, nos dias de hoje ainda temos aos montes. De FHC a Lula, uma hecatombe de parasitas.  

  2. Eugênio Viola

    17 de dezembro de 2016 10:51 pm

    CONHECER O PASSADO PARA ENTENDER O PRESENTE E CONSTRUIR O FUTURO

    O trabalho de resgate da História aprofundado porJoão Vicente Goulart é louvável e de extrema importância nesse momento em que nossa jovem democracia está novamente em risco. Além dos laços afetivos com o pai, João Vicente nos leva a encontrar em fatos do passado  respostas para as crises cíclicas dos golpes no Brasil e na América Latina. Jango é um patrimônio do povo brasileiro e mais que nunca as idéias trabalhistas do antigo PTB precisam ser lembradas a cada dia em defesa dos direitos que, mais uma vez, tentam usurpar daqueles que lutam por um lugar ao sol nesse país abençoado por tantas riquezas naturais e oprimido pelos saqueadores internacionais, entreguistas e pelas oligarquias mesquinhas e desumanas.  Para os que ainda não conhecem o Instituto João Goulart, clique no link.

    http://www.institutojoaogoulart.org.br/

    Abraços 

  3. Fernando J.

    17 de dezembro de 2016 11:22 pm

    Segunda, 19 horas, Livraria da Vila, da Fradique

    A imagem pode conter: texto

  4. Fernando J.

    17 de dezembro de 2016 11:26 pm

    (Sem título)

    A imagem pode conter: uma ou mais pessoas e texto

  5. Fernando J.

    17 de dezembro de 2016 11:31 pm

    Após o lançamento, vá ao ECLA dar um abraço no autor

    João Vicente Goulart, após o lançamento do livro, estará no ECLA – Espaço Cultural Latino Americano, na Rua Abolição, 244, no Bixiga, para uma roda de conversa com muita música e serviço de bar. Compareçam. 

Recomendados para você

Recomendados