4 de junho de 2026

Sobre a leitura, dito assim às cinco da manhã, por Maíra Vasconcelos

Como sabemos, livros nascem do encontro com a leitura de outros livros. Desvela o roubo que deveria formar algo diferente.

Sobre a leitura, dito assim às cinco da manhã

por Maíra Vasconcelos

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Isso dito às cinco horas da manhã. A leitura é um modo de encontro também consigo mesmo. Quanto mais leio, estou mais viva. Ainda preciso viver muito mais. E leio também por isso, porque prefiro manter uma relação com a vida e o nascimento das coisas.

Isso dito às cinco horas da manhã. A leitura voltada para si mesmo, unicamente. Essa leitura interesseira e utilitarista, além de arbitrária. É bom tentar adjetivar-entender a própria leitura, pareço ficar ainda mais utilitarista. Esconde o traço direto com a vida e evita lirismos cansativos e inúteis.

Isso dito às cinco horas da manhã. Como sabemos, livros nascem do encontro com a leitura de outros livros. Desvela o roubo que deveria formar algo diferente. O nascimento de um livro é uma imagem-de-nascer muito bonita. Realmente, conjugada na interna luta por cada palavra. Entre leitor e escritor, apenas muda a imagem que se tem do nascimento do livro. Quem pari leva a relação no corpo, inevitavelmente.

Isso dito às cinco horas da manhã. Todo nascer-de-livro traz consigo luz. Uma luz que retalha, pois sem a desfiguração do eu não se escreve. Não escreveria aqui se fosse eu mesma. Quando preparo o nascer de um livro, por mais doloroso que seja este nascer-em-si e para o outro, tem-se a satisfação. Como a alegria, e a alegria basta por si só. Tímida e desconjuntada alegria, válida como momentos em que a vida se justifica como sendo vida, simplesmente.

Isso dito às cinco horas da manhã. A escrita vem da leitura, mas também de algum resquício de nós mesmos quando algo pesa no interior, um hieroglífico, disse Proust citado nos diários de Emilio Renzi, “escrever é interpretar o que já está escrito e é ilegível”.

Isso dito às cinco horas da manhã. Saiu dos meus diários. Usei a voz dos diários para essa crônica, porque não tinha o que escrever ou não podia escrever. Além de outros ajustes de texto para caber em crônica-de-jornal, está aqui essa voz dos diários onde há anos reflito sobre a escrita e construo a voz dessa personagem que, provavelmente, estará em muitos dos meus escritos. A voz na ficção tem essa capacidade de poder ser usada mais de uma vez, em mais de um livro, e recomeçar em outro relato como se fosse desconhecida.

Maira Vasconcelos

Maíra Mateus de Vasconcelos – jornalista, de Belo Horizonte, mora há anos em Buenos Aires. Publica matérias e artigos sobre política argentina no Jornal GGN, cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. Também escreve crônicas para o GGN. Tem uma plaqueta e dois livros de poesia publicados, sendo o último “Algumas ideias para filmes de terror” (editora 7Letras, 2022).

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