Qualquer análise sobre o Brasil atual necessita, para fazer sentido, de considerar-se que não vivemos mais em um regime democrático.

por Sérgio Saraiva
A partir do afastamento de Dilma Rousseff passamos a viver a nova República Velha.
Com o golpe consumado, a cassação de presidente pelo Senado é apenas uma formalização destinada a dar algum verniz institucional ao golpe, passa a ser necessário ao campo democrático estudar o poder não democrático que assume o país e buscar em suas contradições o caminho, o longo caminho que se anuncia para a próxima luta pela restauração democrática – mais uma.
Dois períodos autoritários com pontos em comum – uma comparação com a ditadura de 64
Um poder que veio para ficar
Não tenha esperanças quem sonha com 2018. A oligarquia não se arriscou em um golpe que lhe custou esforço e muito dinheiro para apenas tirar Dilma do poder e entregar a presidência para Temer.
Assim como Castelo Branco assumiu dando esperanças de que manteria as eleições de 1965 e a ditadura durou mais vinte anos após isso sem eleição presidencial alguma, assim também a oligarquia buscará se preservar no poder.
As eleições municipais ocorrerão como as eleições de 1965 para governadores ocorreu. Mas a oligarquia colocara em 2018 quem ela escolher fazendo o que for preciso para tanto.
Lula é inaceitável. Será preso e condenado, nessa ordem, se insistir em candidatar-se
A democracia sem povo
Eleições com baixo impacto democrático ocorrerão durante todo o período ditatorial. Não será diferente agora. Será necessário manter-se um simulacro de democracia. Mas será uma democracia desidratada. Talvez ao tal semipresidencialismo, mas alguma medida para garantir-se no poder com a redução da participação popular na escolha do governo será tentada.
A volta da repressão
As Jornadas de Junho de 2013 e sua explosão democrática são coisas do passado literalmente.
Fora Temer?
Alexandre de Moraes não está no cargo de Ministro da Justiça apenas por dívida de gratidão pela proteção da pudicícia de Marcela Temer.
As Olimpíadas foram uma amostra da repressão que virá. Com os olhos do mundo voltados para outras partes do mundo, os brasileiros saberão o que os professores e estudantes paulistas já sabem muito bem.
A novidade deverá ser não só a repressão violenta, com a qual os manifestantes são apreenderam a lidar de uma forma ou de outra, mas a criminalização das manifestações, indiciamentos e prisões.
E, principalmente, a intimidação e a retaliação.
Dois períodos autoritários, mas diferentes – uma comparação com a ditadura de 64
O modelo do governo que assume o poder é oligárquico, rentista, dependente em relação aos EEUU e demófobo.
Pode ser até comparado com a Ditadura de 64 em vários pontos comuns, mas seu espelho é a República Velha – a oligarquia que vai de Prudente de Moraes em 1894 a Washington Luiz em 1930.
Em relação a Ditadura de 64, a dependência e o rentismo são característica de diferenciação. Embora fosse tão antidemocrático e golpista quanto o regime atual, a Ditadura de 64 mostrou-se desenvolvimentista e nacionalista.
Existem outras diferenças. O regime da Ditadura de 64 tinha um projeto de país – o “Brasil Grande”, o regime atual defende apenas os interesses dos oligarcas.
Embora houvessem sérias diferenças entre os grupos que comandaram o país a partir de 64, havia um ponto de aglutinação das forças golpistas – o presidente seria sempre um militar, um general do exército de quatro estrelas saído das fileiras do Exército.
A oligarquia atual, ao contrário, deverá governar por prepostos.
As contradições de um modelo inviável
Todos os homens do presidente
A primeira contradição desse modelo oligárquico que esta sendo-nos imposto está justamente na sua necessidade de prepostos. A oligarquia necessita de um novo FHC. Essa figura seria Alckmin. O poder oligárquico exercido se enxergando no seu representante. Mas seu partido, o PSDB, está dividido. Dois grupos irreconciliáveis Alckmin e Serra sem a possibilidade de acomodação que ocorreu com FHC e Covas.
Temer e seu PMDB não são representantes dessa oligarquia e muito menos lhe são confiáveis. Temer foi a solução menos traumática para a deposição da presidente. Mas o seu PMDB é formado por políticos escolados e rasteiros. Gananciosos e que cobram caro e exigem pagamento à vista. Tampouco eles que se arriscaram saltando do barco do governo Dilma estão a fim de entregar o poder que conquistaram. E ainda há Eduardo Cunha – um homem bomba a ser preservado.
Além disso, cada deputado e senador golpista que a sua parte no butim.
O fim da Lava Jato
A Lava Jato e o Judiciário a Polícia Federal antipetista são o DOI-CODI do governo oligárquico. Na Ditadura de 64, com o aniquilamento das forças resistente ao golpe, a “comunidade de informações” tornou-se um poder dentro do poder.
O mesmo deverá ocorrer com a Lava Jato ao fim do expurgo petista. Com um agravante, não há disciplina militar aplicável ao Ministério Público. Com as carnes de quem a “tigrada” será mantida saciada?
O não milagre brasileiro
A Ditadura de 64 foi durante algum tempo um momento de desenvolvimento industrial e de progresso material trazido pela rápida urbanização de um país então ainda essencialmente agrícola.
Enquanto a população percebeu melhorias em seu padrão de vida, a ditadura foi tolerada sem maiores problemas. O “milagre brasileiro” ensurdeceu ouvidos em relação aos gritos vindos dos porões.
Ocorre que pelo próprio modelo oligárquico atual haverá concentração de renda e perda de direitos sociais. Não haverá milagre.
E a comparação com o governo Lula será inevitável. Primeiramente por parte dos trabalhadores e logo após pela classe média. Não sei em que configuração veremos os novos “operários do ABC”, mas os veremos.
E nesse momento o PT não será mais o espantalho atual e sim a doce lembrança de um tempo que já foi melhor.
Não é por menos que a Rede Globo já recomeça com seu slogan “nunca fomos tão felizes”.
A reunificação do discurso da esquerda na oposição e as mídias sociais
Todo o período da Ditadura foi de grande efervescência cultural. A “inteligência” era de esquerda. Mesmo sob a repressão mais violenta o discurso oposicionista unificado encontrou meios de manter se ativo e em um crescendo até culminar nas “Diretas Já”, e isso movido a mimeógrafo.
Quando daqui a pouco a oligarquia mostrar a sua verdadeira cara haverá um enorme número de celulares para fotografá-la com suas câmeras digitais e postá-la. E um batalhão de meninos e meninas compartilhando “como nunca antes na história deste país”.
Nenhum deles assiste à televisão, nenhum deles lê jornais e revistas. Rádio, só o elemento químico.
E este é o primeiro tópico neste texto que não é uma janela para o passado.
Talvez seja este o último golpe.
Haverá futuro.
Já que me é muito dolorido, depois de tantos anos, dizer “amanhã vai ser outro dia”.
PS: Oficina de Concertos Gerais e Poesia – um local onde “vale a pena ver de novo” é considerado maldição.
Nina Fonseca
21 de agosto de 2016 12:20 pmPrezado Nassif, suas palavras
Prezado Nassif, suas palavras profeticas me enchem de pesar. Desde as suas primeiras analises do tabuleiro de xadrez das complexas relacoes entre os autores deste grande jogo de interesses mesquinhos, ao custo da dignidade, sobrevivencia e futuro de milhoes de brasileiros, esse desfecho tragico vem se materializando.
Assis Ribeiro
21 de agosto de 2016 1:19 pmGenial, Sérgio.Mas, e o seu
Mas, e o seu próprio texto aponta, o processo é mais para implosão do sistema do que para a solidificação do golpe.
Com vc diz, o PMDB não é confiável e a divisão do PSDB fragilizou o partido.
Por outro lado, a arrogância da “República do Paraná” tem criado conflito com o STF e provocado críticas de vários juristas.
E a internet, que como rastilho espalhará com efeito imediato as insatisfações.
No Fora de Pauta de hoje, escrevi uma matéria neste sentido da implosão das instituições e do golpe, link:
https://jornalggn.com.br/comment/974379#comment-974379
Sergio Saraiva
21 de agosto de 2016 5:55 pmEspero que você esteja certo
O PT é culpabilizado por ter vencido jogando com as regras do jogo.
Regras sujas que ele não criou.
A busca de destruir o PT acabou por revelá-las e revelar igualmente a sua universalização por todos os partidos.
johnnygo
21 de agosto de 2016 2:01 pmInquisidores do século XXI
De pleno acordo, Saraiva. Os escritórios da Lava-Jato, com seus policiais, procuradores e juízes engomados, são equivalentes modernos aos porões escuros do DOI-CODI.
Maria Silva
21 de agosto de 2016 2:10 pmDizeroque??
Seus textos são tão bons, que não há nada a acrescentar. A comparação com o período pré-30 é irretócavel, inclusive nos aspectos sociais e economicos. Dizeroque??
ze sergio
21 de agosto de 2016 5:48 pmdizeroque??
É muita desculpa para quem ficou por mais de 14 anos no poder, assumindo o governo de antigos aliados de centro esquerda, os mesmos com os quais foi redigida a Constituição sobre a qual está fundada a repúblca. Maior humildade, inclusive da imprensa que mais parece cabo eleitoral. Incompetentes em tudo, não tinham a menor capacidade de chgar ao poder e onstruir uma democracia. Devolverão o poder de graça a antigos mandatários do poder público, que regem praticamente toda a história nacional. A mesma elite, que já foi representada pela Casa Grande. Vendedores das riquezas naturais do país, apoiados pelo capital e interesses internacionais, enquanto o povo que mora logo abaixo, nos porões, que já foi representado pelas senzalas, fazem o trabalho em troca de migalhas. É mesmo Brasil de quase sempre. Muito pouco fizeram os incompetentes da centro esquerda pra alterar tal realidade. Fora as suas. (pt, mas também psdb, pps, psb, pcb, pcdob e outros iludidos)
Pedro ABBM
21 de agosto de 2016 5:41 pmO trauma paralisa o tempo
Ensinam os psicólogos, o trauma paralisa o tempo e faz o traumatizado viver no passado. Foi o que aconteceu com as esquerdas: para onde quer que olhem, só conseguem ver o golpe de 1964 e a História se repetindo. Traçar paralelos entre o passado e o presente não é tão difícil assim, é aquilo que é chamado a quase-lógica, matéria prima também das teorias conspiratórias em geral.
É pura sandice julgar que o momento político atual abriga uma nova ditadura. A Lava Jato não é o novo SNI, ela é o judiciário que finalmente começou a funcionar. Lula pode até ser impedido de se candidatar em 2018, mas não existem mais eleições indiretas, não existem mais cassações, não existem mais fraudes eleitorais como ocorriam na República Velha; se um petista, seja ele Lula ou não, vencer em 2018, não haverá outro jeito senão lhe dar posse.
Acredito que a origem desa obsessão em ver a História se repetir origina-se de uma crença messiânica que os petistas tinham em si mesmos: eles acreditavam que a chegada do PT ao poder seria a entrada do país em uma nova era, na qual a política antiga seria esquecida e o PT seria hegemônico. A queda do PT, por conseguinte, foi interpretada como um sinal de que a História andava para trás, em direção aos tempos do regime de 1964 ou até da República Velha.
A História, entretanto, só anda para frente, embora não necessariamente na direção que vocês desejam. O PT no poder não foi uma nova era na política nacional, foi apenas um partido que chegou ao poder no bojo de uma coalizão. O PT caiu do poder porque essa coalizão se desfez, e porque já tinha perdido o apoio popular que poderia permiti-lo se manter no poder mesmo sem uma base política. O PT pode perfeitamente voltar ao poder, mas será apenas um partido entre outros – se esperarem coisa maior, continuarão sonhando, só para depois se frustrar e se consolar inventando teorias conspiratórias.
R. Vizin
22 de agosto de 2016 1:26 amA ditadura vai aparecer em breve
Bobinho, a ditadura ainda nem começou, na verdade nem o golpe terminou ainda. A tentativa de ditadura virá, e brevemente. E vc também vai sofrer, bobinho, a não ser que faça parte do 1% …..
bobo
21 de agosto de 2016 6:02 pmA ditadura de 64 que foi
A ditadura de 64 que foi nacionalista e desenvolvimentista é a mesma que disse “o que é bom para o estados unidos é bom para o brasil”. Depois de entregar o ouro adotando a posição de guerra do norte por vassalagem os interesses nacionais ficariam sempre subordinados a estratégia estrangeira. Fora que essa ditadura não foi distributivista, a dependencia e o rentismo na forma da concentração de renda estiveram no regime de 64, como agora no governo interino.
Anna Dutra
21 de agosto de 2016 11:13 pmPerfeito.
Sem mais. Brilhante.