
Por Rui Daher
Após vinte anos, em 1955, o Santos foi campeão, derrotando por 2 a 1 o Taubaté. O técnico era Luís Alonso Péres, o Lula, que assim escalara o time: Manga; Ivan e Hélvio; Urubatão, Ramiro e Álvaro; Alfredinho, Jair da Rosa Pinto, Pagão, Vasconcelos e Pepe. O artilheiro do time e do campeonato, Del Vecchio, não jogou naquele dia.
Eu tinha dez anos e já gostava de futebol e moluscos.
No ano seguinte, Waldemar de Brito levou Pelé do Bauru Atlético Clube para treinar no Santos. Daí em diante a história do Peixe se conta em glórias até chegar em Neymar Jr., aquele moleque da Vila que iria fracassar no Barcelona.
Uso o futebol por ser paixão e lembrar que já tivemos linhas médias espetaculares. Bauer, Rui e Noronha, no São Paulo. Djalma Santos, Brandãozinho e Ceci, na Portuguesa. Jadir, Dequinha e Jordan, no Flamengo.
Não fiquem enciumados palmeirenses e corintianos. Zequinha, Ênio Andrade e Chinesinho foi pouco? E Idário, Goiano e Roberto Belangero?
Centros-médios, linhas intermediárias ou, hoje, volantes, apoiadores, meio campo. Não importa, vocês entenderam.
Aposto, no entanto, que nunca se imaginou fenômeno como o que surgiu nesta semana. Esqueçam o passado. De Zito a Clodoaldo. De Zózimo a Oreco. Aí estão Conserino, Blat e Araújo, que jogam no “Mato Petista Sem Piedade” (MPSP).
A eles não importa o time ter onze jogadores. Goleiro e zagueiros? Desnecessários. A bola adversária nunca chegará lá. Logo o trio fará a cobertura, como fizeram todas folhas e telas cotidianas. Também atacam e fazem gols com hora marcada.
Conserino leva a braçadeira de capitão. É de longa data sua atuação contra times que usam uniformes vermelhos. Comentaristas de futebol – ah, eles e seus jargões – dizem que o rubro das camisas adversárias torna rutilos os olhos do capitão e o faz persegui-los por todo o campo. Essa forma de agir o fez ganhar o direito de se dirigir ao árbitro.
De Blat lembro algumas atuações pioneiras a favor do desenvolvimento do futebol chinês ou, pelo menos, de um de seus jogadores, o centroavante Law Kin Chong. Apesar das entradas violentas em canelas adversárias, parece ter bom coração, especialmente com bichos e quem deles cuida, os bicheiros.
E o Araújo, quem é? Sei não. Pode ter conseguido a vaga por efeito do primeiro nome, Fernando Henrique, o que lhe daria nobreza, sapiência e um apartamento em Paris para confundir o adversário.
Enquanto faz marcação cerrada, enuncia frases hegelianas. Algumas em francês. Um repórter de campo conta ter ouvido de certo João Balbino, que joga nos Diabos Vermelhos de Icaraí: “Porra, me distraí com as merdas que o cara falava e perdi a bola”.
Não me surpreende ver o País assim. Nunca acreditei em nada diferente que pudesse durar.
Dou um exemplo da última sexta-feira, 11 de março. Corto o cabelo – cada vez mais ralo – com a mesma pessoa há quase 30 anos. Quando começou era um garoto ainda imberbe. Hoje em dia, fico feliz em ver o seu sucesso. Abriu o seu próprio salão, frequentado por gente rica, exceção ao caixeiro-viajante que aqui vos fala. É inteligente, bem informado e, como eu, de esquerda.
Sempre nos divertimos falando da direita burra e da esquerda que disso não se aproveita.
Ontem, ao deixar o salão, enquanto esperava minha raposa vermelha chegar, um carro fúnebre estacionou. Vocês conhecem, enorme, todo preto, vidros intransponíveis a olhares curiosos, vão logo subindo nas calçadas.
Serei rude. Não os pouparei de cenas mais fortes, como as de “Cães de Aluguel”. O tema requer Tarantino. Se você não aguentar, imediatamente pare a leitura.
Cercada por cabelereiros, auxiliares, manicures, manobristas e o próprio chofer em uniforme fúnebre, desce senhora idosa, cabelos louros esticados, face esmaecida e deformada por sequência de plásticas, tênis e um conjunto esportivo branco como a pomba da paz. Ouros e pedras preciosas enfeitavam o mausoléu.
Colocam-na numa cadeira de rodas. Percebendo que o motorista não serviria de coveiro, penso providenciar um. Paro. O séquito passa perto de mim e noto a vontade do povo ali expressa.
Alvíssaras, bradou meu coração vagabundo: “Como você pretende ajudar o Brasil enterrando passado tão nobre e futuro mais promissor”?
Na blusa daquela senhora, qual violento Chicão, antigo volante do São Paulo, enorme inscrição iluminou a verdade:
“IN MORO WE TRUST”.
Sugiro como lápide em seu domingo de morte.
Mario :Siqueira
12 de março de 2016 1:54 pmE para preparar o corpo para
E para preparar o corpo para o solene enterro de tão ilustre senhora, sugiro as mãos suaves do Maguila.
Rui Daher
12 de março de 2016 9:17 pmTaí Mário,
No lugar do coveiro, uma boa massagem com o Maguila, bem … acho que o final seria numa cova. Nada mais Tarantino.
Cris K.
12 de março de 2016 2:42 pmCostumo me surpreender…
ao ler as crônicas de Rui Daher. A construção da narrativa é imprevisível, uma aventura, pode-se dizer, à medida que nos leva ao o reconhecimento por caminhos fora do comum. Oxalá continue a nos brindar por longos anos com sua criatividade.
Saúde, Rui!
Rui Daher
12 de março de 2016 9:14 pmObrigado Cris,
leitoras como você são o antídoto para o que comentam dos meus textos no FB, daí minha saúde estar garantida. Abraços
mauro silva1
12 de março de 2016 2:46 pmherege
caro rui
foi herético da sua parte misturar as fotos desses boçais do judiciário com uma foto que é a certidão de nascimento da melhor equipe de futebol da história.
o futebol praticado pelas melhores equipes européias hoje é fruto da excelência do futebol jogado pelo santos nos anos 50/60.
em contrapartida, a elite brasileira, sempre estúpida, investe tais energúmenos, do naipe dos três patetas do mp paulista, nos mais altos cargos de estado da república, imitando os fascistas das ditaduras franco, salazar, mussolini e hitler.
dizia uma antigo professor de economia em meados dos anos 70: o estado brasileiro não é a cara do seu povo, mas do seu empresariado: patetas e enrgúmenos.
Rui Daher
12 de março de 2016 9:10 pmMauro, meu caro,
herético, sim, mas também dialético. A visão da virtude daqueles onze gênios reforçando a estupidez que se espalha entre patetas e energúmenos. Seu professor de economia é sábio.
Francisco de Assis
12 de março de 2016 3:19 pmSó não entendi a cadeira de rodas. A Marta levou algum tombo?
Só não entendi a cadeira de rodas. A Marta levou algum tombo?
Rui Daher
12 de março de 2016 9:05 pmFrancisco,
fiquei confuso. Pensando bem, faz tempo que não a vejo, pessoalmente. Sei não, cara.
Fernando J.
12 de março de 2016 4:02 pmHá controvérsias. A melhor formação de todos os tempos
Houve um tempo em que jogadores usavam o número certo nas costas, o ponta direita só poderia ser o 7 e o 11 o ponta esquerda. No tempo da TV P&B, aquela única câmera a captar as imagens de longe, reconhecia-se o jogador pelo número da camisa. Depois bagunçaram tudo e eu nunca mais entendi futebol. E aqui a melhor formação de todos os tempos do Glorioso Timão:
1- Ado 2- Zé Maria 3- Baldochi 4-Luiz Carlos e 6- Pedrinho; 5- Tião, 8- Adãozinho, e 10- Rivelino, 7- Vaguinho, 9- Mirandinha e 11 – Aladim. E passa a régua e fecha a conta.
Rui Daher
12 de março de 2016 9:02 pmPasso a régua, Fernando
uma leve impressão de que bagunçaram a numeração por influência do basquete nos EUA, com a NBA. Vão dizer que não, alguma regra besta, coisa assim, mas coincidiu.
era republicana
13 de março de 2016 3:51 amsó com bom humor para
só com bom humor para enfrentar essas feras….
só de sacanagem eu colocaria o moro no gol de todos os times adversários
que enfrentaram aquele ataque santista – o melhor da história -,
dorval, mengálvio, coutinho, pelé e pepe…
ele ia levar de dez a zero toda semana….
gol de bicicleta, de calcanhar, de cabeça, de barriga, de
joelho,de canela, de bicanca, o escambau
epitáfio cruel: aqui jaz o maior frangueiro e entreguista da história
como este epitáfio ficou horrivel, melhior então não humilhá-lo tanto
e colocá-lo como juiz desses jogos entre esse times…
imagine o rolo que ele faria…prenderia todo mundo preventivmente
e nós nem teríamos pelé e nem ganho seis copas do mundo, por falta de tradição no esporte bretão…….
nem epitáfio mereceria, por falta de adjetivos eufemísticos para xingá-lo…
de atucanado pra baixo, deus me perdoe….
já o concerigeno a gente poderia mandá-lo praquele lugar…
sem lápide e sem epitáfio……