4 de junho de 2026

Filme sobre povo Guarani em SP denuncia opressão fundiária

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Por Alceu Luís Castilho

Logo na abertura do filme “Atrás da Pedra – Resistência Tekoa Guarani” (2016), o líder indígena David Karai Popygua pergunta: “Como a gente vai comprovar documento se foi tirado o direito da gente ter a nossa terra?”. O documentário de Thiago Carvalho parte da luta do povo Guarani M’Bya em São Paulo, na região do Jaraguá. Mas diz muito sobre o paradoxo – imposto por nossa civilização – relativo ao direito dos povos originários ao próprio espaço. 

 

 

“A gente foi expulso muitas vezes do nosso território, e hoje a gente não vai aceitar. Vai resistir e vai permanecer”. Carvalho retrata em 31 minutos a sequência de absurdos relativa à Aldeia Tekoa Pyau, que quase foi despejada, no ano passado, e garantida temporariamente por uma portaria declaratória relativa à demarcação das terras indígenas. Sucessivas decisões judiciais davam ganho de causa ao advogado Antonio Tito Costa (PMDB), ex-deputado constituinte, que aparece no filme garantindo: “Nunca houve índios nessa região. Nunca!” (Uma antropóloga e a Funai confirmam a existência histórica de povos indígenas no local.) Ele diz que os indígenas foram colocados, “eles não têm vida lá”.

Vidas invisíveis

O filme acaba de sair do forno. Não será divulgado na Globo. E vale bem mais do que qualquer edição do Profissão Repórter. Repórteres de todo o país se esquecem dos conflitos relativos a povos indígenas, confinando essa temática – salvo espasmos ocasionais da grande imprensa televisiva – a produtores independentes. O cinema substitui o jornalismo em seu papel de retratar a realidade brasileira. E não se trata apenas do escanteamento de uma narrativa sobre um conflito específico. É como se o nosso universo audiovisual perdesse vozes e cores essenciais à identidade nacional.

Ainda no início do filme, Tupã Mirim explica a importância da terra para os indígenas. “Sem a terra a gente não tem como sobreviver em nosso modo de vida. Não tem como ter os nossos alimentos, as nossas casas, a nossa saúde e o que a gente sempre busca, que é a preservação da natureza”. O diretor alterna as falas das lideranças indígenas com imagens da terra, da natureza e dos alimentos. Em outras palavras: apresenta as conexões que os brancos perderam – e que certas letras jurídicas e gélidas fazem questão de ignorar.

Ideais em disputa

Corta para a fala de um branco: Tito Costa. Com livros ao fundo, ele reivindica as terras como propriedade de sua família e diz que, até recentemente, não havia “essa amolação”. Essa amolação seria a entrada dos indígenas. “A terra nos pertence”, afirma, antes de invocar o sistema decimal. “São 72 hectares”. Corta para o Cacique Karai, que associa o conceito de território indígena às palavras “cultura” e “respeito”. A oposição entre as falas é extremamente representativa do ponto de vista geográfico. São duas visões de mundo em disputa.

E essa é também uma questão midiática. Sintomático que, enquanto David Popygua explica o processo de pilhagem das terras indígenas ao longo da história do Brasil, apareça reprodução de um site alternativo, o Amazônia Real, informando sobre os milhares de indígenas mortos durante o regime autoritário de 1964. E não uma notícia da Folha, ou do G1. Estes, de vez em quando, se lembram de retratar uma ou outra história pelo país. Mas logo tudo volta à configuração dominante – aquela que perpetua os interesses de figuras como Tito Costa.

 

https://www.youtube.com/watch?v=-AcpNB1vFP4 align:center

 

http://www.vermelho.org.br/noticia/276435-11

 

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