
Por Sebastião Nunes
– Se você quer ser músico de verdade, Joãozinho, precisa conhecer uns caras da pesada. Vou te apresentar alguns deles.
Caminhavam no Passeio Público, no Rio, que estava bonito naquela manhã ensolarada e luminosa de dezembro. Os canteiros de lanterninha-chinesa, alamandra-rosa, helicônica, brinco-de-princesa e begônia resplandeciam. Grilos trilavam nas moitas de capim-cidreira.
Corria o ano de 1899. A vida era boa para eles.
Chiquinha vestia uma saia drapeada, estreita e longa, que lhe realçava as formas ainda esbeltas, e uma blusa de gola rendada com mangas gigot. Joãozinho trajava um terno de casimira inglesa azul e – apesar do calor – colete de lã pespontado verde. Chapéu preto posto de lado, calças de zuarte mesclado e um lenço salmão no bolso do paletó completavam a vestimenta do rapaz. Ele tinha 16 anos incompletos; ela, 52 completos.
– Veja naquele banco, Joãozinho – disse Chiquinha com um sorriso. – Ninguém menos do que Ernesto Nazareth, Carlos Gomes, Pixinguinha e Villa-Lobos. Vamos lá!
A PAUSA QUE ESCLARECE
Ernesto Nazareth, nascido em 1863, contava então 36 anos e era bastante conhecido e admirado na capital. Carlos Gomes morrera em 1896, três anos antes destes acontecimentos, mas de boa vontade se prontificou a participar do encontro. Pixinguinha, com pouco mais de dois anos e meio, era apenas um bebê, mas já tocava flauta em saraus e cabarés da Lapa. Villa-Lobos, da mesma idade de Pixinguinha, experimentava ao violão os primeiros acordes dos Choros e das Bachianas.
FELICIDADE CLANDESTINA
Chiquinha tinha quatro filhos, todos mais velhos do que João Batista Fernandes Laje, o Joãozinho, mas ela não tinha frescura. Paixão é paixão e uma mulher apaixonada não enxerga um palmo adiante do nariz. Chiquinha não enxergava um centímetro sequer.
Joãozinho olhava aquela mistura de velhice e fama, de cabelos brancos e grana e, pouco afeito a sutilezas psicológicas, deixava o barco correr. O que viesse era lucro. De noite, era só fechar os olhos e imaginar uma garota de sua idade – qual a diferença?
Felizes, de mãos dadas, se aproximaram do banco dos bambas.
PASSADO, PRESENTE, FUTURO
Então lá estavam eles.
Ernesto Nazareth, de botinas altas, fumava grosso charuto e compunha, talvez, uma valsa para a sessão noturna do Odeon. Compunha e guardava na memória. Raras vezes produzia direto no papel. Para quê, se a memória armazenava tão bem quanto papel?
Carlos Gomes gemia. Como não gemer, mesmo sendo um defunto, se o câncer da língua e da garganta continuava a atormentar o, segundo ele, “mais caipora dos caipiras”? Glória, glória, destino, destino, que dá com uma mão e tira com a outra. Toda a sua obra ele a trocaria por uma boca sem ferida e uma garganta capaz de engolir sem sofrimento.
Pixinguinha, gorduchinho como seria toda a vida, sorvia deliciado, balançando as perninhas rechonchudas, uma mamadeira de leite achocolatado, de fabricação caseira.
Villa-Lobos, mais elitizado, comia de colherzinha uma sopa infantil de legumes e galinha, feita também em casa. Muitos e muitos anos depois, na era pseudo-industrial deste país tropical, as sopinhas infantis seriam enlatadas, esterilizadas, compradas em supermercados, e teriam gosto de nada ou, pior ainda, de serragem cremosa.
Que diálogo seria possível, entre os namorados, em tórrida paixão mergulhados, e os compositores, tão díspares em sua configuração etérea, florescente e pós-recém-natal?
DIÁLOGO IMPOSSÍVEL
– Meu querido Ernesto – disse Chiquinha toda melosa. – Permita que eu lhe apresente o jovem e promissor violonista João Batista. Tem talento, o garoto. Não seria possível colocá-lo num dos tantos cinemas que você controla?
– Talvez, minha querida – respondeu Ernesto. – Geralmente recebo $10:000,00 por mês de cada cinema. Fico com $9:000,00 e meus auxiliares embolsam $1:000,00. Que tal?
TRIO ELÉTRICO
O defunto Carlos Gomes gemeu baixinho, passando a língua ferida pelo céu da boca, livre – ainda! – da pavorosa e turbulenta convulsão de células loucas e perigosamente ativas. “Oh, atividade tremenda e mortífera”, soluçou ele, com pena de si próprio. “Oh, que trágica, patética e horrível é a vida!” E soluçou, pois, morto três anos antes, ali estava ele mergulhado no Inferno, pois o Inferno era apenas aquilo: a eterna recordação integral (corpo, memória, tempo, espaço) do vivido e do sofrido. Principalmente do sofrido.
Pixinguinha largou por um tempo a mamadeira para soltar uma risadinha. Ah, como é gostosa a primeira infância, ainda sem – quase – memória de tudo o que virá em tumulto, com seu turbilhão de sangue, suor e lágrimas, ainda que pontilhado aqui e ali de alguns – e como são pobres, efêmeros voláteis! – prazeres.
Villa-Lobos? Nem aí: continuou papando a papinha. Bastava-lhe, como lhe bastaria a vida inteira, o pequeno prazer da comida, da bebida, do sexo, da fama. E ali sentado, os dedos dos pés se esfregando uns nos outros, ouvia no futuro distante a voz poderosa de Victoria de los Ángeles entoando sua ária famosa. E ria, ria, ria, sem nem ao menos saber por quê.
DE VOLTA AO FEIJÃO
– Mas isso é extorsão, Ernesto! – arrepiou-se a senhora compositora, famosa por não ter meias medidas ou papas na língua. Com ela, era preto no branco ou vice-versa.
– Como extorsão, minha querida Chiquinha? – arregalou os olhos Ernesto. – Você ainda não viu nada. Tempos virão em que ninharias assim serão motivo de riso e, digo mais, serão motivo de gargalhadas homéricas.
– Só acredito vendo, está ouvindo? – gritou furiosa Chiquinha. – Só acredito vendo. Vamos embora, Joãozinho, você é muito novo pra ouvir essas maldades!
CLARO, MINHA SENHORA
E assim foram eles embora, de volta para casa, debaixo dos olhares preconceituosos da sociedade careta do Rio de Janeiro, que os policiava olhando de banda.
Convenhamos, senhoras e senhores. Se uma dama madura de 52 anos decide se despir diante de um jovenzinho imberbe de 16 anos, e se o jovenzinho imberbe gosta de ver nua – e de transar com – a dama madura, o que temos nós com isso?
Nada.
Mesmo assim, Chiquinha e Joãozinho se mandaram para Portugal e lá, amancebados e felizes, fingindo ser mamãe carinhosa e filhinho enternecido, fizeram gato e sapato das tais convenções que nos atormentam ou, melhor, que atormentavam seus contemporâneos.
Mas que ali havia coragem e astúcia, ah, isto havia, e muita!
No entanto, nem eles nem os demais músicos presentes compreenderam a profunda sabedoria embutida nas proféticas palavras de Ernesto Nazareth: “Tempos virão em que ninharias assim serão motivo de riso e, digo mais, serão motivo de gargalhadas homéricas”.
Serão, os nossos, esses tempos profetizados pelo augusto compositor?
https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d2/Atraente_chiquinha_pixinguinha.ogg?uselang=pt
De Paula
10 de janeiro de 2016 2:49 pmUma crônica sobre Chiquinha
Uma crônica sobre Chiquinha Gonzaga e seu tempo, por elaborada que seja, sem aquele sonzinho de “Lua Branca” ao fundo, genialmente interpretada por Betania, é mesmo que que estar numa seresta em noite de lua cheia sem luar.
Adir Tavares
10 de janeiro de 2016 3:07 pmNovos tempos
Serão, os nossos, esses tempos profetizados pelo augusto compositor?
Com toda certeza!!!
Gilson AS
10 de janeiro de 2016 4:54 pmNa época, esse amor da
Na época, esse amor da Chiquinha por um menor, que lhe acompanhou até o fim da sua vida, foi apenas um escândalo.
Hoje, baseado no ECA, a Chiqunha seria presa.
Avançamos, ou regredimos no tempo, em se tratando de relações amorosas.
A Chiquinha Gonzaga, de fato, abriu alas.
Luciana Mota
10 de janeiro de 2016 5:58 pmClaro para estar com uma
Claro para estar com uma mulher mais velha o rapaz tinha que fechar os olhos e imaginar uma mais nova.
Afinal que outro atrativo além da grana uma mulher madura pode oferecer? Mesmo que essa mulher seja uma música excepciobal e revolucionária…
E que outro encanto tem uma mulher que não sua carne jovem, rígida e lisa?
Quanta sutileza…
Luciana Mota
Gilson AS
10 de janeiro de 2016 9:37 pmLuciana, acredite, uma mulher
Luciana, acredite, uma mulher mais velha pode levar um menino de 16 anos, que está se descobrindo como homem, à loucura.
Nem sempre a pele lisinha e mais nova, corresponde às nossas expectativas
Imagino o que a Chiquinha, pela sua experiência, não deve ter provocado nesse jovem. Sensação de sentimento, amor, carinho, prazer carnal, sexo amoroso, sexo visceral, sexo animal. A Chiquinha era uma mulher avançada para sua época.
Esse jovem conviveu com a Chiquinha até a sua morte, acredito que existisse algo muito além da grana.