Circula na internet um vídeo que demonstra como os cientistas teriam conseguido explicar o andar de Vladimir Putin
https://www.facebook.com/inthenowrt/videos/554115031405537/?pnref=story.
Não é a primeira vez que alguém tenta desmoralizar Putin. Há alguns anos juristas russos ameaçaram processar a Warner Bros porque o elfo Dobby, personagem de um dos filmes de Harry Potter, havia sido inspirado no líder russo http://www.theguardian.com/film/2003/jan/30/harrypotter.news. A brincadeira foi levada a sério na Ucrânia, onde Putin ganhou uma curiosa estátua http://www.huffingtonpost.com/entry/vladimir-putin-dobby-house-elf-statue_55db819ce4b04ae497041618.
O uso político da ciência e da arte não é uma novidade. O regime nazista levou esta prática à perfeição. O resultado é bem conhecido: guerra e destruição sem precedentes se espalharam por toda Europa. Os europeus, com exceção dos próprios alemães, parecem ter esquecido isto.
Em seu livro “O Poder do Simbólico”, Pierre Bourdieu nos forneceu valiosos insigths sobre política:
“Nada há que seja exigido de modo mais absoluto pelo jogo político do que esta adesão fundamental ao próprio jogo, illusio, involvement, commtiment, investimento no jogo que é produto do jogo ao mesmo tempo que é a condição de funcionamento do jogo: todos os que têm o privilégio de investir no jogo (em vez de serem reduzidos à indiferença e à apatia do apolitismo), para não correrem o risco de se verem excluídos do jogo e dos ganhos que nele se adquirem, quer se trate do simples prazer de jogar, quer se trate de todas as vantagens materiais ou simbólicas associadas à posse de um capital simbólico, aceitam o contrato tácito que está implicado no fato de participarem no jogo, de o reconhecer deste modo como valendo a pena ser jogado, e que os une a todos os outros participantes por uma espécie de conluio originário bem mais poderoso do que todos os acordos abertos ou secretos.”
Em razão da natureza do campo político (tal como é percebido e descrito por Pierre Bourdieu) é tolice acreditar que existe um conflito entre a esquerda e a direita. Ambas só existem dentro do campo e em função dele. Tanto a esquerda quanto a direita estão mais comprometidas com a preservação do jogo do que com a modificação dos seus fundamentos. O autor esclarece que “…os partidos, como as tendências no seio dos partidos só tem existência relacional e seria vão tentar definir o que eles são e o que eles professam independentemente daquilo que são e professam os seus concorrentes no seio do campo.”
Esta existência relacional obriga os participantes do campo político a modificarem suas posições sempre que seus adversários mudam seus discursos e propostas. É impossível manter claramente as distinções quando os discursos e propostas se tornam idênticos. O persistência do antagonismo leva os participantes do jogo a adorarem as plataformas e propostas dos adversários apenas para poder manter suas posições dentro do campo político. Não é a toa que Bourdieu afirma que “…a oposição entre ‘direita’ e ‘esquerda’ se pode manter numa estrutura transformada mediante uma permita parcial dos papéis entre os que ocupam estas posições em dois momentos diferentes (ou em dois lugares diferentes): o racionalismo, a fé no progresso e na ciência que, entre as duas guerras, em França como na Alemanha, constituíram o ideário de esquerda enquanto que a direita nacionalista e conservadora se dava mais ao irracionalismo e ao culto da natureza, tornaram-se hoje, nestes dois países, no coração do novo credo conservador, fundamentado na confiança no progresso, na técnica e na tecnocracia, enquanto que a esquerda se vê recambiada para temas ideológicos ou práticas que pertenciam exclusivamente ao pólo oposto, como o culto (ecológico) da natureza, o regionalismo e um certo nacionalismo, a denúncia do mito do progresso absoluto, a defesa da ‘pessoa’, tudo isto banhado de irracionalismo.”
À luz da teoria de Pierre Bourdieu, a inversão política que se opera na Europa pode ser considerada perfeitamente compreensível. Os inimigos do III Reich se tornaram mais e mais parecidos com os nazistas justamente porque os descendentes dos soldados de Hitler rejeitaram o nazismo e se aproximam da Rússia. Os russos, por sua vez, renunciaram ao seu passado soviético e nada fazem para aterrorizar a Europa com a exportação do comunismo. Muito pelo contrário, na fase atual o Kremlin combate de maneira eficaz e por razões humanitárias os terroristas islâmicos degoladores de ocidentais criados direta ou indiretamente pela Casa Branca.
Na estrutura profunda do jogo disputado entre as nações ainda pode ser visto o conflito entre civilização e barbárie. Enquanto alguns europeus afundam na barbárie ao lado dos EUA, alemães e russos se elevam à condição de defensores da civilização. Isto explica como e porque a arte e a ciência foram convocadas para ridicularizar Putin. Os nazistas fizeram o mesmo para humilhar seus inimigos.
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