4 de junho de 2026

Impeachment: a política e a mitologia, por Ion de Andrade

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Por Ion de Andrade

Vivemos um divisor de águas. Ao usar essa expressão me vem a imagem do mar de lama da Samarco adentrando pelo mar azul. Do lado da lama o arbítrio, a mentira, as contas não declaradas no exterior, a manipulação… Do lado do mar azul a democracia e o futuro. Vou tratar esse divisor de águas em três dimensões, a da Política, a da Sociedade Civil e a Mitológica.

A dimensão da política

A vitória das forças golpistas por margem insuficiente para o impeachment na votação que escolheu a Comissão (embargada depois pelo STF) selou o destino do processo. Os votos deram ao governo mais do que o suficiente para garantir a permanência da presidenta Dilma no governo. Essas forças vitoriosas, embora minoritárias, governarão o Brasil e já o sabem. Razão porque não serão vencidas pela oposição. Não se trata do quanto a mídia poderá bater. O bolo do poder vai ser repartido após a derrota da oposição e das forças traidoras. Nesse sentido, o voto aberto, pela simples razão de que o governo detém as cartas decisivas, deverá mostrar placar mais largo do que o da última votação para a formação da Comissão. É que alguns deputados não vão querer estar fora da partilha que se seguirá à derrocada dos oposicionistas.

Se fosse no mercado de ações poderíamos dizer que vivemos uma mudança de posição entre acionistas. Um lado, o que fez o investimento errado, vai quebrar a cara e o outro lado já sabe disso, já fez os cálculos e espera pacientemente o encerramento do circo, pois ganhou a guerra. Entretanto, é interessante perceber o quanto essa oposição curta de análise parece eletrizada, o quanto são incapazes de antecipar duas jogadas. Diz Sun Tzu, n’A Arte da Guerra, que o general que mais calcula é o que vence a batalha. É interessante observar também o quanto esse longo esperneio da oposição pretendeu, na verdade, adiar a inevitável precificação da sua derrota eleitoral de 2014. Não se trata, pois, de uma vitória de Dilma, nem de uma vitória da esquerda, ou de uma derrota da direita enquanto tal. A prisão de Cunha e o fracasso do golpe sobre Dilma edificam um Brasil novo, onde a democracia venceu as trevas.

O fracasso do golpe será a derrota do PMDB “Cunhista” ou “Temerário” que perderá os seus cargos e a sua parte no Poder. A Roda da História os catapultou desse mundo. Picciani e Pezão devem estar a rir da perda da liderança na Câmara.

A Sociedade Civil

O elan que nos trouxe até aqui, saídos da ditadura, dificulta enormemente a aventura golpista. É difícil, por exemplo, num país como o Brasil golpear a democracia contra a posição oficial não somente da Igreja Católica, mas também do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil. É também difícil golpear sem qualquer apoio dos movimentos sociais, ao arrepio da OAB, dos melhores juristas brasileiros, dos trabalhadores, do MST e de tantos e tantos outros movimentos que perderíamos as contas. Não se trata apenas de que os movimentos sociais vão “botar gente na rua”, como temos realmente que botar. Se trata de que são forças permanentes a modelar o Brasil, ou como quer Gramsci, são a linha de trincheiras de uma sociedade que foi esculpida pela ideia do Poder pelo Consenso que se exprime na liturgia democrática. Essa imagem de trincheiras de Gramsci vem da Primeira Guerra Mundial ocorrida uma década antes dos seus escritos. A guerra de trincheiras é uma guerra assassina que pune com o massacre as tropas que se aventuram no combate aberto. Quem está nas trincheiras não precisa se expor, pois lhe basta atirar, Michel Temer ousou colocar o nariz de fora depois da Carta: foi vaiado e chamado de golpista. Ele prepara com pompa e circunstância a sua entrada na história como um traidor.

Questões simbólicas e mitológicas

O Brasil está profundamente enfermo. É interessante notar que os elementos que compõem o perfil de Eduardo Cunha o aproximam enormemente dos perfis dos líderes tenebrosos pintados nas obras de aventura e suspense. Cerca-o o dinheiro, o poder e o manejo da sacralidade em seu proveito e para assegurar para si total impunidade, ainda que ao custo da manipulação destruidora do maior patrimônio do Brasil: o seu duramente conquistado Estado de direito. A doença do Brasil se revela no fato de que esse personagem das trevas tem hoje um poder incomensurável, o que também vai de par com as lendas que contam a história de Reis tenebrosos e poderosos. Ocorre que, tal como nas histórias que representam esse tipo de cenário, o seu fim está próximo. Todos o sabem. Mas as forças das trevas parecem fortes e parecem construir vitória certa, isso agrega suspense às histórias. Para o seu mal Eduardo Cunha e os seus aliados representam o polo que será derrotado, permitindo o alvorecer de um país liberto dessa malignidade. Na psique humana o mito funciona como um padrão arquetípico, que faz com que o universo social conspire contra ele. É necessário que seja derrotado para que o Novo possa finalmente emergir. A lenda é uma mensagem ancestral, a comunicação de uma sabedoria milenar. Dilma, por sua vez, foi alçada por essa mesma lenda, apesar de tanta inabilidade, à condição da mocinha que deve ser salva do perigoso Dragão. O Sábio Leonardo Boff, seu aliado, com as suas longas barbas brancas, questiona ao Cosmos como seria possível a um bandido macular a Presidenta honrada. Alguém ainda fará um filme com essa trama. Aguarda-se apenas o desfecho batido dos filmes de aventura. A última cena do filme é a festa na rua.

PS: Aos que quiserem criticar o meu otimismo lembrar que um artigo não é uma fotografia, é antes um vetor que contribui para a construção da situação alvo.

Meus agradecimentos a Petrônio Spinelli que me ajudou a escrever esse artigo.

Ion de Andrade

Médico, epidemiologista e pediatra, professor universitário e militante do SUS e dos movimentos urbanos.

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17 Comentários
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  1. Pedro Rinck

    11 de dezembro de 2015 11:26 am

     
    O Poder Executivo precisa

     

    O Poder Executivo precisa voltar a governar; precisa fazer valer sua real dimensão, com urgência ! 

    1. rdmaestri

      11 de dezembro de 2015 1:03 pm

      Será que o poder executivo parou de governar ou não há …

      Será que o poder executivo parou de governar ou não há divulgação do que ele está fazendo?

  2. Bi

    11 de dezembro de 2015 11:39 am

    “A prisão de Cunha e o

    “A prisão de Cunha e o fracasso do golpe sobre Dilma edificam um Brasil novo, onde a democracia venceu as trevas”.

    Que os deuses te ouçam.

    “A última cena do filme é a festa na rua”.

    Oxalá.

     

  3. Marcos Carvalho

    11 de dezembro de 2015 11:41 am

    Evacuar agora!!! Nem pensar!!!

    Deve ser difícil para oposição continuar se mostrando eletrizante em uma batalha que se sabe estar perdida desde o início. É o velho sonho de que com a força do PiG vão mudar as condições.

  4. Álvaro Noites

    11 de dezembro de 2015 12:00 pm

    Pelas páginas pigais, a Dilma

    Pelas páginas pigais, a Dilma já foi deposta, o presidente agora é o Temer, ou seja, o PIG já constrói seu universo paralelo para acostomar a população com a ausência de Dilma no poder.

    Claramente o PIG faz o mesmo exercício do Ion, ou seja, é também um vetor que contribui ativamente para a construção da situação alvo.

    A lógogica e o bom-senso nos diz que os golpistas seriam derrotados, mas muitas vezes a força supera a lógica e o bom-senso: Como muitas entidades e organoizações da sociedade rejeitam o golpe, não duvido de que as forças armadas e polícias (com a estimável ajuda dos coxinhas-perdigotos atuando como X-9) reprimiriam violentamente os legalistas em caso de um governo golpista.

  5. Fábio de Oliveira Ribeiro

    11 de dezembro de 2015 12:06 pm

    (Sem título)

  6. Fábio de Oliveira Ribeiro

    11 de dezembro de 2015 12:14 pm

    Em caso de guerra (que

    Em caso de guerra (que consumirá e destruirá a capacidade do Estado de arrecadar impostos) os servidores ficam sem receber viu @MPF_PGR .

    Em caso de guerra (que consumirá e destruirá a capacidade do Estado de arrecadar impostos) os servidores ficam sem receber viu @STF_oficial.

    Em caso de guerra (que consumirá e destruirá a capacidade do Estado de arrecadar impostos) os servidores ficam sem receber viu @TSEjusbr.

  7. João de Paiva

    11 de dezembro de 2015 12:17 pm

    Ion,
    Não vou criticá-lo pelo

    Ion,

    Não vou criticá-lo pelo otimismo, embora eu não o compartilhe na mesma medida. Você e o colaborador escreveram um belo texto, que torço para se concretizar.

    A ressalva que faço é que você não citou os principais atores que podem viabilizar o golpe: a PF, o MP e o Judiciário (na figura de sérgio moro) e de alguns ministros do STF. Não tivéssemos essa burocracia do Estado trabalhando pelo golpe, apenas a mídia golpista e a oposição política (também golpista) não teriam condições de levá-lo a termo.

     

  8. antonio rodrigues

    11 de dezembro de 2015 12:25 pm

    Não acredito que a situação

    Não acredito que a situação do governo, ou melhor, a nossa situação, seja tão confortavel, como afirma o post.

    A razão esta no proprio texto que diz:

    “O fracasso do golpe sobre Dilma edificam um Brasil novo, onde a democracia venceu as trevas.”

    Os anos de governos petistas nos mostraram como as forças reacionarias detem todas as demais fontes de poder, alem da politica. Possuem o controle do judiciario, da informação, do caixa.

    Com todo esse poder não deixarão o “Brasil vencer as trevas”.

    Alias, “as trevas” são essas proprias forças, sempre ligadas ao atraso, contra mudanças, contra “o novo”.

    Elas podem ate fracassar na tentativa de derrubar o governo, mas não deixarão o pais alcançar o “novo”. Isso seria uma verdadeira revolução e uma outra parte consideravel e poderosa do mundo tambem não estaria disposta a permiti-la.

    O post coloca algumas questões a serem observadas, como, por exemplo, quando diz que “é difícil, por exemplo, num país como o Brasil golpear a democracia contra a posição oficial não somente da Igreja Católica, mas também do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil.”

    Talvez.

    No final da batalha saberemos se os catolicos do papa Francisco ainda são mais fortes que os evangelicos do eduardo cunha.

    O Brasil esta mesmo doente, basta olhar o poder nas mãos de alguem com o perfil do presidente da camara.

    Porem algo positivo aconteceu, ficou claro que os politicos se dividem em dois grupos distintos, identificaveis, os corruptos, adeptos do atraso, traidores da patria, contra os mais bem intencionados.

    Ficou um pouco mais facil para o povo menos esclarecido entender o que realmente acontece no jogo politico. Podemos dizer, uma certa vantagem para o governo.

  9. Franco

    11 de dezembro de 2015 12:58 pm

    Eu não entendo o otimismo

    Eu não entendo o otimismo talvez por dialogar muito com o público comum, com o povo da rua. Fora os 10% de voto ideológico que o PT sempre teve, ninguém mais está preocupado com a queda da Dilma.

    Outros 10% torcem fervorosamente, e o restante apenas acompanha o show.

    Não acredito em grande comoção, até porque quando o Collor foi deposto devido a uma Elba comprada com caixa dois, não tivemos comoção. “Ah, mas as duas situações são completamente diferentes, ele era ladrão”. Isso pouco importa para o cidadão médio comum.

    O que importa é a economia, e nisso ambos os governos são semelhantes. A economia é 90% do governo. Collor jamais teria caído não fosse o confisco da poupança. Detalhes técnicos como uma Elba, reforma na dinda ou pedalas e decretos não autorizados sempre existirão.

    Todos os presidentes desde o Sarney tinham motivos de sobra para serem depostos. FHC só não foi por forte apoio do congresso e or uma cortina de fumaça da mídia. O judiciario era pequeno demais na época de Sarney para o depor. Lula só não caiu no mensalão porque a economia estava relativamente bem, os brasileiros melhorando de vida.

    Impeachment nunca teve a ver com corrupção, sempre foi baseado em uma tecnicalidade para retirar do poder um péssimo governo.

    Para o prazer do Pig, 2016 será muito ruim para a economia, e por isso cada mês que se passar, maiores as chances do impeachment. Dilma poderia pedalar mais que Lance Armstrong se a economia estivesse bem e não cairia.

  10. aliancaliberal

    11 de dezembro de 2015 1:22 pm

    Nem tocou no assunto

    Nem tocou no assunto petrolão.

    Quando do mensalão o petista teve que achar desculpas esfarapadas.

     a cada falcatrua as descupas se multiplicavam.

    Chega a recessão mais desculpas

    Chega o petrolão mais desculpas.

    Privatizam mas é concessão.

    Chega o petrolão mais desculpas.

    Delcidio Amaral é preso ele não é um verdadeiro petista.

    Chega o impedimento desculpas, perde na comisssão desculpas.

    Vai chegar um ponto que as desculpas vão acabar.

     

    1. Frederico69

      11 de dezembro de 2015 2:03 pm

      certamente nesse momento tu calarás!!

      certamente nesse momento tu calarás!!

    2. Álvaro Noites

      11 de dezembro de 2015 2:03 pm

      O mais engraçado é o “testa

      O mais engraçado é o “testa de cavalo” se dar 5 estrelas.

  11. Baltazar

    11 de dezembro de 2015 1:29 pm

    A política e a Mitologia:

    A gemte sabe que na eterna luta entre o bem e o mal, sempre vencerá o bem, o que não sabemos é quanto tempo durará  essa luta…

  12. altamiro souza

    11 de dezembro de 2015 1:43 pm

    como dizia o outro, deus te

    como dizia o outro, deus te ouça….

  13. Juliano Santos

    11 de dezembro de 2015 2:05 pm

    Para mim é certo que com

    Para mim é certo que com Cunha no comando não tem golpe. Nisso sou otimista, o impeachment tomou a cara do bandidão. Por isso a sociedade como um todo se manifesta a favor da democracia. Os que querem o golpe estão em compasso de espera. A questão é o pós-Cunha. Como vai se recompor a correlação de forças depois da inevitável saída do elemento? Como será a nova presidência?

    Na minha opinião o tucanato, a partir de São Paulo, resolveu apoiar agora o impeachment oficialmente porque tem que manter a chama acessa, apesar do Cunha. Aí tome ginástica para separar uma coisa da outra. E claro para não deixar o Temer na mão, principalmente depois que a tal carta foi ridicularizada, invés de ser uma bomba na cabeça da Dilma.

    O tucanato de SP e Temer fizeram um acordo pelo golpe. Parece até que alguns encontros foram no Estadão, com a presença do tal Gandour. Então o FHC e caterva vieram dar um apoio à trairagem do Mimimi. Ainda mais porque se o Picciani com a ajuda do Renan recuperar a liderança, o Mimimi dança.

    A aposta deles é não dar respiro algum para a Dilma. Com isso agravar a crise econômica. Depois, no pós-Cunha, junto com Temer, esperar que a recessão e desemprego, ou atissem a pressão popular pela queda, ou sangre a presidenta até 2018. Sem contar que tem o Gilmar no TSE e o Moro na Lava a Jato providenciando umas delações premiadas, para macular a presidenta.

    O que eles não admitem é que o governo consiga virar a página do impeachment. o que pode dar tempo para a recuperação econômica. Porque aí, Lula é imbatível em 2018

  14. Baltazar

    11 de dezembro de 2015 2:26 pm

    Quanto tempo vai durar esta

    Quanto tempo vai durar esta peleja, não sabemos;  ela trabalha com a linguagem dos sinais… Continuemos na luta.

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