O bom de ser professora é que a nossa profissão permite circular por muitos mundos e entender o que significa naturalização das posições no ambiente acadêmico. Há anos atrás, uma supervisora pedagógica de uma faculdade estava horrorizada com as escolas montadas nos acampamentos do MST porque faziam “lavagem cerebral” ao ensinar com o método Paulo Freire e estimular a consciência de classe, que para ela era uma espécie de “jogar uns contra os outros”… Anos depois, em outro lugar, uma diretora preocupada proibiu a capa de um material didático que mostrava um músico sentado num piano diante de um batalhão de choque da policia militar porque poderia revoltar os pais conservadores. Em outra instituição, o delegado que representava os professores, pessoa extremamente diplomática e educada, foi demitido no mesmo mês em que deixou este cargo representativo e que é legal, previsto em lei. Em outras duas, dois professores foram repreendidos porque os pais reclamaram da indicação da leitura da revista Carta Capital. Numa delas, a repressão foi criada pela boca difamatória de um jornal conhecido que denunciou este “absurdo” da adoção da revista. Na outra, porque um pai reclamou na direção. Um colega do ensino superior me contou que ouviu um comentário de outro colega, na sala dos professores, que iria conversar com os diretores da escola do filho sobre o livro de geografia que teria uma abordagem “muito marxista, influência destes governos de esquerda”. Uma amiga que é professora de geografia me contou que o coordenador dela disse, com todas as letras, que ela não podia ensinar com base em Milton Santos, um dos poucos intelectuais brasileiros reconhecidos internacionalmente. Em outra instituição a professora de filosofia sugeriu trabalhar construção de gênero junto com a biologia no conteúdo de sexualidade, mas o professor de biologia e a coordenadora pedagógica “acharam”que os pais poderiam não gostar e os alunos continuam aprendendo órgão reprodutivo e doenças venéreas. Soube de uma professora de história que deveria tratar das mitologias e demorou um tempão na grega, que é chique, e passou batido pela africana porque os pais poderiam pensar que ela estava ensinando coisa do capeta. E não tratou da judaico-cristã porque não é mitologia, é a verdade, claro. E alunos de um curso do ensino superior foram reclamar na coordenação porque o professor de cultura brasileira “falou mal” do cristianismo quando tratou do etnocentrismo na ação dos jesuitas na colonização e na expansão do cristianismo midiático. Um colega do ensino superior foi escandalosamente assediado por uma aluna porque estava com uma camiseta do capeta: uma camiseta estampada com uma banda de heavy metal, no meio do entrevero a aluna chamou o coordenador para impedir o uso da camiseta pelo professor. Neste ano, alguns politicos conservadores lançaram o risível projeto contra o “assédio ideológico” tendo em vista não o pensamento conservador mas, especialmente, os professores de humanas que estimulam opensamento crítico como, por exemplo, com a pedagogia de Paulo Freire. A mercantilização da educação levou a isso: a escola, especialmente a particular, seja do ensino fundamental ou superior, vem se transformando num lojinha que vende seus produtos de acordo com o desejo do consumidor. Ou seja, a escola está cada vem mais submetida ao senso comum das familias e este é um dos conflitos (ou acordos) que envolvem a difícil relação família-escola… Todos os séculos de construção do pensamento filosófico e científico estão correndo o rico de descer ladeira abaixo, rapidamente. E, se a escola nasceu para ser o lugar deste conhecimento, então é a própria escola que está ameaçada… Agora, voltando ao assunto inicial, me respondam: onde está a naturalização das posições? Fica uma dica de resposta: no acampamento do MST o que a pedagogia pretende é, justamente, desnaturalizar a posição de miséria inserindo-a na história e nas relações de poder. E uma pista para pensar: o poder está afim de desnaturalizar a sua posição?
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