3 de junho de 2026

BARRAGENS DE QUALQUER TIPO NÃO SÃO FEITAS PARA CAIR.

Está se tratando este caso do crime cometido pelas mineradoras como uma falha de legislação ou de fiscalização de órgãos públicos, e está se deixando de lado o principal: BARRAGENS DE QUALQUER TIPO NÃO SÃO FEITAS PARA COLAPSAR.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Não devemos esperar leis para que no futuro as pessoas estejam protegidas e os responsáveis punidos, pois simplesmente já existem estas leis e os responsáveis JÁ DEVEM SER PUNIDOS.

Engenharia é uma ciência exata até um determinado ponto, possuindo um determinado grau de incerteza nos seus métodos de cálculo ou nas avaliações da interação da estrutura com a natureza, logo para cobrir este  grau de incerteza são utilizados os chamados coeficientes de segurança. Um coeficiente de segurança é um valor maior do que a unidade que se multiplica no que se acha que está correto no cálculo de qualquer obra de engenharia que se cubra as suas incertezas.

Para explicar o que é um coeficiente de segurança vou dar um exemplo corrente com valores um pouco arbitrários que mostram como a engenharia funciona ou deveria funcionar.

Quando se projeta um edifício se faz o cálculo estrutural logo após o projeto arquitetônico, a primeira coisa que o projetista faz é uma estimativa de cargas, por exemplo, numa laje de um edifício normal supõe-se além do peso próprio da laje, o peso do contrapiso uma carga acidental distribuída entre 150 kgf/m² a 200 kgf/m² (o certo era colocar em N/m², mas o quilograma força é mais evidente para as pessoas leigas), ou seja para que se atinja um valor maior do que este numa sala com 20 m² deveria se colocar uma carga acidental (pessoas numa festa, por exemplo) de 3000 kgf, supondo um peso normal em torno de 70 kgf por pessoa deveria ter nesta sala mais ou menos 42 pessoas. Ou seja, uma carga bem acima do que ocorrerá numa utilização da sala numa residência em uma festa normal, se fossemos utilizar este valor normal poderíamos, por exemplo, baixar a carga acidental para 75kgf/m² ou 100kgf/m².

Após isto o calculista determina para toda a laje qual deve ser a ferragem que deve ser posta, geralmente como a seção de ferro não é exatamente a determinada se coloca um valor acima do exigido. Como também a ferragem é determinada para o ponto pior, não se coloca só neste ponto a ferragem máxima, se coloca em quase toda extensão da laje a quantidade a quantidade maior de ferro. O calculista também impõe uma resistência do concreto com um valor X, esta resistência os fabricantes de concreto dispõe deste valor em aproximadamente 28 dias depois, como o concreto aumenta a sua resistência a medida que envelhece quando o prédio for ocupado a resistência poderá estar o dobro que o valor necessário.

Esta carga é levada para os pilares, e se o edifício tem 10 andares se supõe que as cargas dos pilares deve ser tal que resista a todo edifício cheio de pessoas com a mesma intensidade que só num andar, em resumo, um edifício que tiver quatro apartamentos por andar de 50 m² e dez andares os andares do térreo ele estará dimensionado para uma festa com 4.200 pessoas (uma verdadeira farra).

Além destes valores bem acima da ocupação possível e imaginável, são colocados coeficientes de segurança no ferro, no concreto, nas dimensões das vigas, lajes e pilares, resultando no final num coeficientes de segurança que se avizinha de 2,5 a 3. Ou seja, a estrutura como um todo resistiria a cargas de 2,5 a 3 vezes maior do que a carga acidental proposta (na realidade é mais ainda, pois a estrutura é superdimensionada para as outras cargas), ou seja, deveríamos ter mais de 10.500 pessoas no prédio para que houvesse um risco do mesmo cair (260 pessoa por apartamento de 50 m²).

Em resumo, os MILHÕES DE PRÉDIOS RESIDENCIAIS QUE FORAM OU QUE ESTÃO SENDO CONSTRUÍDAS POR MILHARES DE ENGENHEIROS NÃO SÃO DIMENSIONADOS PARA ELAS CAIREM, E O MAIS EVIDENTE DE TUDO, ELES NÃO CAEM. Acidentes em obras de construção civil corrente são devido a problemas e erros acumulativos, como prédios que foram mal dimensionados, mais mal construídos e com materiais deficientes.

As obras de terra são mais imprevisíveis do que obras de concreto, logo os coeficientes de segurança devem ser também da mesma ordem, multiplicando dá algo da ordem de 2,5 a 3,0 (ou mais).

Já corre a boca pequena, sem que ninguém ainda assine em baixo que as barragens de retenção das mineradoras estão com coeficientes em torno de 1,2 a 1,37, e estes valores poderão ser confirmados por inspeções ou mesmo por verificação dos cálculos das barragens existentes ou as que caíram. É só se chamar engenheiros especialistas em geotecnia (não trabalho nesta área) que eles podem conferir sem nenhuma sombra de dúvida se estes cálculos levam a estes valores. Se isto for real, os responsáveis podem SER PUNIDOS PELAS MORTES POR HOMICÍDO DOLOSO E NÃO CULPOSO, pois adotar coeficientes desta ordem é simplesmente flertar com o risco de matar pessoas e ESTÁ FORA DE QUALQUER PROCEDIMENTO USUAL EM ENGENHARIA CORRENTE.

Resumindo, caso forem executados laudos corretos, que não podem ser falseados, pois eles são baseados em cálculos que podem ser verificados por qualquer outro especialista, não se deve esperar outro desastre para punir os responsáveis, eles podem e devem ser punidos por este evento.

Agora, algumas reflexões:

Por que os milhares de engenheiros que existem no Brasil não tendo os seus cálculos verificados por ninguém respeitam a vida das pessoas e não diminuem os coeficientes de segurança para aumentar os seus lucros?  Da mesma forma por que meias dúzias de mineradoras desrespeitam estes coeficientes e MATAM DEZENAS DE PESSOAS e todos esperam que tenha uma lei que diga, façam estruturas corretas que não matem as pessoas?

 

Por que o construtor proprietário da ZÉ RUELA ENGENHARIA DE CONSTRUTUÇÕES LTDA, que luta construindo um edifício a cada três anos para poder sustentar a sua família, não economiza na segurança, pondo em risco os futuros moradores destas residências e ninguém questiona isto, enquanto e as mineradoras economizando migalhas em relações aos seus lucros todos esperam que elas se não forem fiscalizadas façam isto?

 

A responsabilidade deve ser cobrada hoje em dia, não precisa mais licenças de órgãos públicos ou mais leis ou sirenes de aviso, pois isto é uma obrigação que milhares de engenheiros no Brasil fazem sem mostrar seus projetos a nenhum órgão fiscalizador.

PUNIÇÃO JÁ, POIS BARRAGENS NÃO DEVEM SER FEITAS PARA TER A MÍNIMA PROBABILIDADE EM CAIR.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

1 Comentário
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. antonio francisco

    22 de novembro de 2015 8:45 am

    É isto mesmo. Punição, já.

    Infelizmente,  é uma pena estarmos nesta Minas Gerais onde acontecem coisas que jamais deveriam acontecer; aqui ocorrem malfeitos até no âmbito da Engenharia de obras.  

    É forçoso relembrar que  em BH um viaduto caiu, há um ano e 4 meses. O fato foi bastante documentado, e há imagens do desabamento, por exemplo, neste vídeo no youtube: 

    https://www.youtube.com/watch?v=Cp2qdYNs3JQ

    Viadutos JAMAIS são feitos para cair,  pelas mesmas razões técnicas que o Sr. mencionou em seu ótimo e didático texto. Não ocorreu tremor de terra, abalo sísmico, queda de meteoro em cima dele; caiu por estupidez da ganância humana.

    Considerado pronto para uso, ele  estava sendo desescorado  quando  desabou.  

    A estrutura que caiu passa por cima da Avenida Pedro 1º, uma das mais movimentadas da cidade e que liga o Aeroporto de Confins à região do Estádio do Mineirão |

    Era tão óbvio que não cairia, que naquele momento  o trânsito de veículos e de pessoas por baixo dele estava livre e foi por milagre que somente  morreram 2 pessoas, ficando feridas várias  outras.

    Houve repercussão mundial, pois viadutos não caem assim, e aquilo caiu. E ele era uma das obras da Copa. Vale notar que as midionas brasileiras se punham   contra a realização dos eventos no país, por motivos  políticos.

    Pois desabou, não foi? O prefeito Márcio Lacerda declarou naquele dia, segundo os jornais, que:

    O desabamento de um viaduto na capital mineira foi causado “certamente” por um erro “de projeto ou construção”, disse o prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda (PSB). Em entrevista à imprensa na noite desta quinta-feira (3), Lacerda afirmou ainda que “acidentes como esse infelizmente acontecem” e que o o momento é de “lamentar” o ocorrido, mas que as responsabilidades serão apuradas.

    http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/viaduto-desaba-e-deixa-pelo-menos-dois-mortos-em-belo-horizonte-eafd4w2sb0dzbissxahv0lt8u

    Dali em diante ocorreu o mesmo que agora está acontecendo com o desastre  da Samarco: órgãos municipais, estaduais e federais de todos os  níveis hierárquicos  vão às mídias com declarações bombásticas, mas não há uma prisão sequer, uma demissão, nada. 

    Portanto, nada aconteceu  contra quem participou da obra: a construtora Cowan que fez o viaduto continua construindo  para a prefeitura de BH, os  R$ 6 milhões que teriam sido gastos naquela  construção  não foram devolvidos e, com exceção dos mortos, a vida segue adiante. 

    Quando alguém relembra daquela desfaçatez, outro alguém diz que órgãos públicos estão “tomando as providências”  para punir os culpados, e por aí vai. (Do mesmo jeito que falam quando se pergunta como está o processo do mensalão mineiro, por exemplo).

    Ah, em fevereiro de 1971 ruiram as obras de um  pavilhão no denominado Parque da Gameleira, em BH: morreram 69 pessoas, e pelo menos 100 ficaram feridos: Até hoje há parentes aguardando indenizações, devidas pelo Estado de Minas.

    Nas fotos acima e à direita, os trabalhos de resgate e vista aérea do local da tragédia, ocorrida em fevereiro de 1971 em BH: qualidade do concreto, falta de fiscalização e técnicas inadequadas para a retirada do escoramento da laje foram as causas do desmoronamento

    https://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/setembro2007/ju372pag6-7.html

     

     

Recomendados para você

Recomendados