4 de junho de 2026

Dominó de Botequim, por Rui Daher

Muzambinho antiga

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Bem, como os milhões de leitores e leitoras ficaram sabendo, fato comprovado pelo igual número de mensagens que recebi, o “Dominó de Botequim” (prevaleceu a designação do Manoel Vieira) foi inaugurado, no domingo passado, pela alocução realista e mágica do Doutor Fernando.

Como? Não souberam? Nem mesmo leram? Foram nulas as mensagens nos Facebook, Instagram, Messenger, Andro e Feminoides? Veja, Época, Folha, Estadão, Globo, não dedicaram capa ou manchete à notícia?

Talvez estejam treinando golpes para a luta dura.

Uma coisa, no entanto, recuso-me acreditar. Mesmo William e Renata, no Jornal Nacional, ignoraram a aparição do grupo de reais gênios brasileiros descidos do céu ao chão de terra batida da Paróquia São José do Belém, para entoarem um abrasileirado “Nós somos o Mundo”, logo após o apelo do Doutor Fernando?

Ah, esse povo grudado nos digitais presente e futuro. Por isso trabalho a minha comunicação de forma diferente. Não com o desleixo do atual governo, que apanha e fica quieto.

Foram mesmo milhões de mensagens as recebidas. Pura verdade, embora reconheço haver mentiras também puras. Mas, seguramente, não através das tais novas ferramentas de comunicação.

Nenhuma moça bonita pôs as mãozinhas nas cadeiras, entortou o frágil pescoço, jogou os longos cabelos para o lado contrário, e fez um biquinho de beijo para mim.

Foi outro o jeito, ô dó. Pequenos aviões de papel em vários formatos, triângulos de prata ainda no ar desde a chuva que caiu sobre a noite de São Paulo em 1954, bilhetes de quermesse perguntando “quer dançar”, páginas arrancadas de diários escritos com letra infantil, apertos de mãos de quem nunca me viu nem eu bem-te-vi. Ô dó.

Fato é que ficamos muito felizes com a reabertura. Dominó e botequim, tantas peças para a nossa coleção e a memória dos que forem por este mundo ficando.

Serafim, Netinho, Prudêncio, Buqué, Virgínia, Nonato João, Professor Filgueiras, Osorinho, Virgílio, Dona Zilá, Magrão, o cachorro Benê, Dr. Tetê Piracicaba, Manoel Vieira, Padre Luís e, agora, o Fernando.

Mais amigos eu sei que virão para a segunda etapa do reaberto “Dominó de Botequim”. É impossível, tendo tantos assim reais, que a imaginação não crie novos tão queridos quanto. Ô dó.

Isto não é uma despedida. Outro aviãozinho de papel pousa em meu jardim e pede-me para continuar. Bilhetinhos no carteiro marcados por lábios de batom não param de chegar. Difícil identificar gênero, mas preconceito não tenho.

A exemplo do que fiz em outra publicação, peço-lhes um mês sabático. Talvez, na volta, traga boas novidades. Até lá o Doutor Fernando já deu um jeito em tudo. Ô dó.

Nota: na quinta-feira passada, estava parado na frente de uma loja agropecuária, em Muzambinho, Minas Gerais, e distraidamente ouvia dois senhores idosos conversando sobre cafezais, chuvas e sol quente. Afastei-me um pouco, até a esquina. Quando espero, prefiro atender ordens militares e circular. Minutos depois, eles encerraram os causos e seguiram caminhos opostos. Um deles passou por mim, sorriu e disse: “Tudo bem”? Respondi, também sorrindo: “Tudo”. Ele: “Ô dó”.

Rui Daher

Rui Daher – administrador, consultor em desenvolvimento agrícola e escritor

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11 Comentários
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  1. Raí

    4 de outubro de 2015 3:09 pm

    Enquanto isso…

    Ainda meio ressacado, também depois de umas 10 Originais(do samba não, da Antárctica mesmo) de ontem, no Boteco Amazonia, da Rua Pinheiros esquina com a Cônego Eugênio Leite, na companhia das “feras” Rui, Luiz Fernando Juncal Gomes, Desirée Rodrigues, Paulo Brasil, e o “mestre” Luis Nassif, começo a acordar, com saudade do encontro de ontem quando este humilde escriba,  Teve uma verdadeira imersão em cultura, e ficou de ir conhecer este Botequim(imaginário ?) do Rui.

    Enquanto isto, ficamos nos bares da Vila Madalena mesmo !

    Obrigado Rui, pela companhia na noitada de ontem. 

    1. Rui Daher

      5 de outubro de 2015 11:44 am

      Amigo Raí,

      Foi uma tarde muito feliz. Também ressacado fiquei e mais inspiração tirei. Tudo guardadinho para a segunda etapa do Dominó e dos botequins.

  2. Odonir Oliveira

    4 de outubro de 2015 5:29 pm

    Agora no estilo epistolar antigo, então

    Barbacena, 4 de outubro de 2015

    Queridíssimo Rui Daher

    Ô, dó!  Zeca e Beth ensinam alegria.

    Costumo dizer, amigo, que a alegria é a prova dos nove.

    Não me sobram muitos anos. Sei bem.

    Nem conto com coração safenado tampouco. Mas acredito que a vida é curta, o mundo é pequeno e as estrelas no céu são muitas e lindas!

    Daqui desse ponto em que me encontro, conto estrelas no céu, que aqui é limpíssimo. Fico no quintal entre 2 pés de mexericas, de pé, com a cachorra Luna junto, olhando pro céu.

    Acredita numa tolice dessa? Pois é. Ganhei tempo pra poder fazer isso. Nessas horas desligo o computador, que é um vício desditoso muitas vezes.

    Outras há em que no passeio com Luna fico sentada num tronco cortado e atirado aleatoriamente em meu caminho .Já o moveram de lá algumas vezes, mas eu o persigo, caminho um pouco mais, o encontro e sento ali de novo. É que ali, fico a olhar umas “montanhas’ verdinhas, verdinhas que me mostram “que ainda é tempo pra se ser feliz”. Seja lá o que isso queira dizer.

    Congratulações,

    Odonir

    (A gente se fala por outras telas)

    Em tempo:

    1.O pessoal do botequim volta, né.

    2. Fiquei com vontade de postar as fotos desse encontro aí de vocês, citado pelo Raí. (Mas sem autorização não).

    1. Rui Daher

      5 de outubro de 2015 11:58 am

      São Paulo, 5 de outubro de 2015

      Querida Odonir,

      sim, o pessoal do botequim volta. Será eterno enquanto estivermos por aqui fazendo a prova dos nove.

      Saio daqui a pouco para Elias Fausto, lembra? “Pertim da capitá, 150 km”. Vou ver chão de terra e procurar um tronco pra sentar e olhar o verde.

      Daí de Barbacena você e a Luna, viram o eclipse? Ela merecia um pouco daquele sombreado.

      Quanto às fotos, acho que todos ali flagrados adorariam seu “espalho”.

      Vamos falando. Preciso saber da escolinha. 

      1. Odonir Oliveira

        5 de outubro de 2015 6:54 pm

        Fotos do encontro dos amigos do Rui Daher

         

         

         

         

         

         

         

  3. AnnaDutra

    4 de outubro de 2015 9:17 pm

    Zeca e Beth: craques neste “Ainda é tempo…”
    Rui,
    De onde você tira essas canções?
    E Baden: sem comentários…
    Estou contando os dias para me aposentar – o meu sabático, rs – e poder me atualizar. Me falta o tempo para a garimpagem musical. Mas você, Hortêncio, JNS, Jair e tantos outros craques do Blog, sempre me fazem uma surpresa boa com o que eu mais aprecio: a linguagem direta e universal. Música.
    Bonito demais. Um mês passa rápido. Areje, descanse e volte para a nova fase do Dominó em ainda melhor forma.
    Abraço da Anna.

    1. Rui Daher

      5 de outubro de 2015 11:40 am

      Viu, Anna

      aquela vozinha fininha do Baden e depois o violão acelerado, espaçonave para o Universo?

      Acho que nasci ouvindo música. Dos 45 e 78 rpm, aos vinis, Cds, e agora meus filhos tentando me introduzir uns trecos novos, que não os entendo, mas luto.

      Muitas ideias me lembro pelo rádio do carro: “Ah, é mesmo. Há tanto tempo que não ouvia essa música. Não posso esquecer de procurá-la e postar”.

      Outras, me pego assobiando. Estão sempre comigo.

      Volto logo. Abraço.

  4. Fernando J.

    4 de outubro de 2015 10:57 pm

    O banheiro do bar do Mané Português

    Seu Rui, na próxima edição do dominó prometo trazer aqui a incrível história do banheiro do bar do Mané Português, em Campinas. Demanda elaboração. Fica para a próxima.

    1. Rui Daher

      5 de outubro de 2015 11:33 am

      Dr. Fernando,

      irei cobrar.

  5. Cafezá

    5 de outubro de 2015 3:48 am

    Rui, em todo botequim não

    Rui, em todo botequim não faltam as figuras dos pudins de pinga. Sempre há, no mínimo, três cachaceiros, que fazem a alegria pulsar em ondas de frequências aceleradas. Quando não estão presentes, os frequentadores sentem a falta deles. Mas, quando estão girando feito piões no quintal, querendo falar ao pé do ouvido dos mais próximos, ninguém mais os suporta. Contudo, o tempo vai passando e, estranhamente, se tornam quase invisíveis aos olhos de todos. Diluem-se em nuvens brancas, subindo como se fossem balões. Não sei se é o efeito do alcool que vai evaporando de seus corpos na medida em que enchem os seus copos, ou se abrem suas asas sobre todos, espíritos desprendidos da carne bêbada, a rodarem como dançarinos ao vento de uma bela ópera inaudível aos que não os compreendem. E dançam ao sabor da moleza que o teor etílico vai lhes proporcionando. E vão girando pelo boteco numa coreografia natural, ensaiada em torno das garrafas, dos copos e do balcão.

    É pura dança!

     

     

    1. Rui Daher

      5 de outubro de 2015 11:31 am

      Cafezá, como você

      tenho o dom de assistir aos espetáculos de dança dos pudins de pinga. Aguento o início meio incômodo, pois sei que depois seus corpos nos farão estar no Bolshoi ou em frente a uma tela vendo rodopiarem Fred e Ginger. Pode ser que, a certo ponto da vida, eu também vire pudim de pinga, e evapore como um autêntico sambista da Mangueira. 

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