6 de junho de 2026

Os 95 anos de Elvira Pagã, por Mara L. Baraúna

Luz del Fuego, Elvira Pagã e o jornalista Chico Neto, 1952

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Elvira Olivieri Cozzolino (Itararé, SP, 6 de setembro de 1920 — Rio de Janeiro, 8 de maio de 2003)

Elvira foi a terceira filha do casal José Cozzolino, um descendente de italianos nascido nos Estados Unidos, e de Regina Maria Olivieri, natural de Castro, Paraná. Em 1923, a família mudou-se para o Rio de Janeiro e as irmãs foram estudar na escola do Convento da Imaculada Conceição, dirigida pelas Irmãs de la Charité. Elvira fez parte do coral, mas abandonou os estudos sem ter completado o curso primário.

Elvira e a irmã Rosina organizavam festas e se relacionavam muito bem com o pessoal da classe artística carioca. Foi por esse época que conheceram os integrantes do Bando da Lua, através dos quais  fizeram contato com importantes nomes do rádio da época. Com os Anjos do Inferno, Elvira e Rosina se apresentaram no dia da inauguração do extinto Cine Ipanema que ficava em frente à Praça General Osório, em 1935. O jornalista Heitor Beltrão, que foi o locutor do evento, viu naquele conjunto uma boa oportunidade de atrair as atenções do público e anunciou a atração musical como Os Anjos do Inferno e As Irmãs Pagãs. O nome agradou e ali nascia a dupla musical As Irmãs Pagãs, possivelmente a mais precoce dupla da história do rádio brasileiro. Talvez por intuição de Heitor, ou tendo sido ele fonte inspiradora, As Irmãs Pagãs fizeram juz ao seu nome artístico, mantendo uma postura provocativa em suas interpretações, cantando músicas com letras insinuantes e contrastando com o Brasil ultraconservador da metade da década de 30. Naqueles tempos, só pelo fato de uma mulher ser cantora de rádio já era motivo suficiente para não ser muito bem vista pela sociedade.

As Irmãs Pagãs eram, além de jovens encantadoras, muito afinadas e foram levadas para a Rádio Mayrink Veiga por Cesar Ladeira, onde fizeram grande sucesso. Cantando e dançando marchinhas de carnaval em boites e cassinos, elas ficaram famosas, gravaram discos e participaram de importantes filmes da época, como: Alô, alô, carnaval, interpretando a marcha Não beba tanto assim, de Geraldo Décourt, além de O Bobo do Rei, Cidade-Mulher, Favela e Laranja da china.

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Em 1937, foram contratadas pela Rádio Nacional e, neste período, excursionaram por quatro meses pela Argentina, Peru e Chile. As irmãs receberam do compositor Assis Valente um samba do qual gostaram muito e gravaram uma prova na Victor. A gravadora rejeitou a música e a prova foi inutilizada. Meses depois, Assis apresentou novamente a mesma canção, desta vez para Carmen Miranda que gravou a música que veio a se tornar o maior sucesso do carnaval de 1938, Camisa Listrada. Nessa mesma ocasião, as Irmãs Pagãs fizeram duas gravações de O samba começou, também de Assis, mas só uma prova foi comercializada.

Em 1939, as irmãs estavam no auge da carreira, chegando a lançar 6 discos em 78 rpm em um único ano. Um deles, que trazia a música Água mole em pedra dura, se tornou o grande sucesso do carnaval de 1940.

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Em 1940, casou-se com o milionário Theodoro Eduardo Duvivier, que na época tinha quase 30 anos mais que ela. O casamento foi anulado alguns meses depois por exigência da família. Orgulhosa de ter namorado o astro Errol Flynn, com igual orgulho contava que foi a primeira mulher na vida do adolescente Daniel Filho, quando estrelou diversas revistas produzidas por seus pais Juan e Mary Daniel no Teatro Follies de Copacabana.

Com o casamento de Elvira a dupla chegou ao fim, deixando um total de 14 discos gravados. Rosina, além de continuar cantando, seguiu a carreira de atriz, enquanto que Elvira virou um mito sexual pela beleza e sensualidade. Uma das mais belas e famosas vedetes do Teatro de Revista escandalizava a sociedade posando nua para revistas, despia-se em cena e levava uma vida agitada, enlouquecendo os homens de sua época. Ousada, disputou com Luz Del Fuego as notícias sobre o nudismo.

Em dezembro de 1944, estreou na Rádio Nacional, o programa Paganíssimo. Comandava, também, shows noturnos Como isso faz um bem; O Negócio tá de pé; O Pecado em sete véus; Muita máscara e pouca roupa.

Foi a primeira Rainha do Carnaval Carioca e levou o erotismo para os bailes de carnaval da época. Consta, que um dia, na praia de Copacabana, ela rasgou o maiô criando o famoso biquíni, que na época só era usado no teatro rebolado, promovendo o bairro internacionalmente. Foi também a primeira a fazer plástica nos seios, posando nua depois e distribuindo a fotografia como cartão de Natal. Foi um escândalo! Um atentado ao pudor!

Em 1952, Elvira, que gravou mais de dez discos entre 1944 e 1953, havia sido convidada para as festividades de comemoração do Centenário de Teresina, PI, mas a Igreja Católica,  usando de sua força e prestigio na cidade, conseguiu fazer com que o contrato assinado para a apresentação da artista na Feira de Amostras do Centenário fosse cancelado. A Igreja não admitia o nu artístico, de acordo com o discurso católico esta arte iria contra a moral das famílias. Como aquela instituição, além de fazer parte das comemorações do Centenário, possuía uma enorme influência na cidade, vetou a ida de Elvira.

Conhecida no exterior como The Original Bikini Girl e The Brazilian Buzz Bomb, arrebatava paixões enchendo os cabarés e teatros. O perigoso bandido Carne Seca forrou a sua cela com fotos dela, recortadas de jornais e revistas. Em uma foto usando uma pele de onça, fez a dedicatória: “Para Carne Seca, um consolo de Elvira Pagã”.

Elvira pintava desde o tempo do colégio e, em 1956, fez uma exposição de suas 20 telas à óleo, na Galeria Negasawa, em Copacabana.

Na metade da década de 1950, Elvira era destaque na mídia por suas prisões, participações em passeatas, tentativas de suicídio e processos por atentado à moral. Liderava o espaço nos noticiários da época com chamadas incendiárias: “Atacada Elvira Pagã por um tarado no interior do camarim”. Elvira foi a responsável por mais uma tentativa de suicídio do compositor Assis Valente. Ele  tentou cortar os pulsos quando Elvira, uma cantora que lhe gravara vários sucessos, cobrava uma dívida de forma escandalosa e ele não tinha como pagar.

Em 1959, quando a carreira entrou em declínio, saiu da vida artística e da vida social. Escreveu diversos livros, Eu, Elvira Pagã; Adão e Eva e Eu e os mundos, chegando a ocupar a cadeira de número 12 da Academia Paulista de Letras. Um deles escreveu com o pulso enfaixado e o braço esquerdo paralisado após tentativa de suicídio, datilografando com a mão direita: O mundo é éter! O éter é vida! E a  vida é o gozo final!”. Em outro narrou as 6 vezes em que houve atrito entre ela e a polícia. Depois de uma de suas prisões, gravou um samba-canção de grande  sucesso, Cassetete, não, no qual denunciava e ironizava os maus-tratos infringidos pelos policiais, e popularizando-se de tal forma que até os cômicos travestidos o cantavam imitando-a.

A partir dos anos 70, começa uma pintura com temas esotéricos. Pintou o quadro Rita Lee no Baixo Leblon, em retribuição a homenagem que recebeu de Rita, um pop-rock em parceria com Roberto de Carvalho, em 1982:  Elvira Pagã.

Nos anos 80 e 90 viveu uma fase ligada à ufologia dizendo ver discos voadores e fazer contato com extraterrestres. Demonstrando grande instabilidade de comportamento, ao alterar momentos de euforia com rasgos de ira, recusou-se terminantemente a fazer depoimento para o Museu da Inglaterra. Se intitulava sacerdotisa da seita Doutrina da Verdade, originária da Atlântida. Passou os últimos anos de vida solitária e arredia em seu apartamento em Copacabana, alugado pela irmã Rosina. Apenas as duas irmãs costumavam visitá-la, Leonora que morava em Minas e Rosina que morava nos Estados Unidos e poucos amigos.

Faleceu no dia 8 de maio de 2004, aos 82 anos, no Rio de Janeiro numa clínica em Santa Teresa, onde se achava internada e foi sepultada sigilosamente por seus parentes, em uma estância hidromineral do Sul de Minas Gerais. Sua morte somente foi divulgada pela irmã Rosina três meses depois de ocorrida.

Em 1972, o cineasta Ivan Cardoso realizou o filme Programa chuva de brotos: Elvira Pagã.

Elvira ganha biografia escrita por Thiago de Menezes, Uma mulher chamada Elvira Pagã 

Fontes

Elvira Pagã  no Dicionário Cravo Albin 

Elvira Pagã, minha garota favorita, por Antonio Júnior 

As Irmãs Pagãs, por Gabriel Oliveira  

Irmãs Pagãs interpretam Assis Valente, por Marcelo Bonavides

O mito erótico Elvira Pagã, por Luiz Sérgio Lima e Silva 

 

 

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  1. lucianohortencio

    7 de setembro de 2015 10:11 am

    À Mara Baraúna!

    Com felicitações pelo excelente post!

    luciano

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=CLGerkEcuXg%5D

  2. Nilva de Souza

    7 de setembro de 2015 11:52 am

    Excelente post!

    Excelente post!

  3. Jair Fonseca

    7 de setembro de 2015 2:47 pm

    Poucas pin-ups no mundo foram

    Poucas pin-ups no mundo foram tão ousadas quanto Elvira Pagã. Porque era bem mais do que uma imagem nas revistas, telas e paredes.

  4. GalileoGalilei

    8 de setembro de 2015 1:43 am

    Marca registrada

    As extensas (e excelentes) biografias já estão se tornando uma marca registrada da Mara.

    Só dois detalhes precisariam ser corrigidos: 

    1. Logo no início, ao se referir ao pai de Elvira, suponho que a autora quis escrever “descendente” e não “descente”.

    2. Em 1939 seria impossível gravar LPs que ainda não existiam na época. Provavelmente eram 78 RPMs.

    No mais, como sempre, muito bom.

     

     

    1. Mara L. Baraúna

      9 de setembro de 2015 4:32 am

      Correções feitas!!

      GalileoGalilei

      Correções feitas!! E fique à vontade para chamar minha atenção sempre que perceber algum erro, de grafia ou de informação. Só tenho a agradecer porque sou chatíssima com essas coisas, mas às vezes a gente lê tantas e tantas vezes que olha mas não vê!

      Abraços

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