22 de junho de 2026

A Operação Lava Jato e a teatralização do fato consumado, por Sérgio Saraiva

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Por Sergio Saraiva

Ainda que possa vir a se apoiar em fatos comprováveis, ainda que venha a punir delitos reais, como retirar da Operação Lava Jato o ar farsesco que acabou por adquirir?

Entendendo-se aqui farsa não como falsidade, mas como uma encenação. Como uma conta de chegar para um resultado já decidido.

Esse questionamento surgiu-me ao ler o artigo “Procuradoria acusa Dirceu de corrupção e lavagem”, na Folha de São Paulo de 05set2015. Um texto com qualidade jornalística, curto e esclarecedor. Esclarecedor como só um ato falho pode ser.

Um extrato do texto:

“… o ex-ministro José Dirceu foi denunciado nesta sexta (4) pela força-tarefa da Operação Lava Jato sob acusação de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

 

Caberá agora à Justiça decidir se há ou não elementos para abrir um processo contra Dirceu e torná-lo réu. Se isso vier a ocorrer, o ex-ministro será submetido a julgamento.

No caso de Dirceu, a expectativa do Ministério Público é que a pena seja de no mínimo 30 anos”.

Todo o descrito acima está alinhado ao que se espera que ocorra em um Estado democrático de direito que preserva as garantias individuais.

Ou seja:

Se a Justiça decidir que há elementos para abrir um processo contra Dirceu, o ex-ministro seria submetido a julgamento. Então, se condenado, viria a sentença.

Falso.

Dirceu já cumpre pena de acusado em um presídio comum de Curitiba.

 “Consummatun est”.

Talvez fosse mais apropriado dizer, já que a Lava Jato também tem lá seus ares de auto de fé. Não deixam de ser encenações.

Vejamos também as declarações do Procurador da República Deltan Dallagnol.

“A Lava Jato revela um governo para fins particulares, com um capitalismo de compadrio, em que o empresário e o agente público buscam benefícios para o próprio bolso.”

Trata-se de uma frase sem o seu contexto – uma citação. Uma armadilha jornalística muito comum, hoje em dia, para quem dá a declaração e para o leitor que tenta entendê-la.  

Porém, tomemo-la pelo seu valor de face.

A que governo se refere o Procurador?

Tal conclusão pode ser aplicada, lato senso, a qualquer governo do Brasil, dos municipais ao federal, passando pela governança dos Estados. Pelo menos, desde Tomé de Sousa – o primeiro Governador Geral do Brasil, isso em 1549.

A Lava Jato, portanto, expiaria no couro de seus condenados cinco séculos de corrupção governamental?

“Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, miserere nobis”.

E, como em uma novela de sucesso, onde a cena final sempre deixa algo que aguce a curiosidade do público e garanta espectadores para o próximo capítulo, outra citação a Dallagnol – uma frase sibilina:

“É a pessoa número dois do nosso país envolvida num esquema de corrupção”.

Dirceu, o “número dois”?

Quem seria a pessoa “número um” – o chefão a ser preso no último capítulo?

Um espaço aberto para especulações.

Seria a “pessoa número 1” FHC, o chefe de governo em 1998, quando Pedro Barusco afirma ter começado a receber propinas na Petrobras? Ou seria o próprio Tomé de Sousa, fonte inicial de todos os nossos males?

Será necessário aguardar os próximos episódios da série.

 

PS1: o mesmo convite à teatralização pode ser encontrado na fala com a qual o ministro Gilmar Mendes passa uma reprimenda pública no Procurador Geral da República por este se recusar a abrir investigações que liguem a Lava Jato à campanha de Dilma:

 “O que se espera do PGR… é que proceda as devidas investigações dos possíveis ilícitos penais que saltam aos olhos da Nação”

Ora, se “ilícitos penais saltam aos olhos da Nação”, é ocioso proceder-se uma investigação. O que o ministro requer é uma acusação que lhe permita passar para o próximo ato.

PS2.: outras críticas teatrais podem ser encontradas na oficina de concertos gerais e poesia.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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9 Comentários
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  1. Severino Januário

    5 de setembro de 2015 6:47 pm

    E assim navega o golpe. Eles

    E assim navega o golpe. Eles tentam vencer pela perseverança da estupidez. Toda e qualquer ação e ponderação construtiva hoje no país é combatida ferozmente como um impecilho à suprema vitória dos golpistas, que parece que está inscrita no divino destino mais que manifesto da magnífica elite brasileira.

  2. Ugo

    5 de setembro de 2015 7:04 pm

    canudo curitibana

    Dallagnol acima de tudo tem as tabuas das leis do Moises e ligação direta com o poderoso dele.

    As leis dos homens não podem ser seguida por este iluminado Antonio Conselheiro.

  3. JB Costa

    5 de setembro de 2015 7:41 pm

    Essa espetacularização com

    Essa espetacularização com excessos de adjetivações e conclamações pedantes nas denúncias do Ministério Público são dispensáveis porque só  acarretam desconfianças acerca da neutralidade do mesmo. Nesse sentido, concordo com ioarticulista quando este as concebem como “a teatralização do fato consumado”.

    Parece-me que a esses imberbes integrantes do parquet falta a maturidade exigida para a condução equilibrada de um processo tão complexo como esse egresso da dita Operação Lava a Jato. Sim, porque quanto mais procuram, seja por ânimo do dever, seja em  decorrência das picadas da “mosca azul, dar tons dramáticos aos resultados dos seus trabalhos, de resto nada mais que a obrigação, dão margem para desconfianças. 

    Lembro que no julgamento da AP 470, apelidada de mensalão, fiz observação similar com relação a alguns votos dados pelo ministro Celso de Melo nos quais extrapolava da dimensão do processo e passava a dar lições de democracia ou coisa que o valha, 

    Atentem, por exemplo, para a extrema petulância e total impertinência dessa exortação:

    “A Lava Jato revela um governo para fins particulares, com um capitalismo de compadrio, em que o empresário e o agente público buscam benefícios para o próprio bolso.”

    Quem deu a esses impetuosos integrantes do parquet o direito, a prerrogativa de avaliar um governo a partir de uma limitada denúncia criminal? Esse excesso de ênfase ou teatralização arguida pelo articulista serve a que mesmo? A causa da Justiça e da Verdade, não. 

     

     

     

  4. janes salete

    5 de setembro de 2015 7:51 pm

    Isso é que me faz perder as

    Isso é que me faz perder as esperanças de uma país civilizado, finalmente. A direita, dona de tudo nesse país, que corrompe com extrema facilidade, que mata com extrema impunidae, que arruina uma economia para livrar-se de desafetos, é desalentador. Eles são cegados pelo ódio ao país para todos, eles não desejam país, eles, apenas, desejam a farsa que sempre instituiram nesse país. Vejam que TODOS que perderam as eleições(mídia, psdb, e demais máfias que corrompem tudo), estão querendo golpes, matar opositores(Lula, Dirceu e o PT em geral).. Esse lado po´litico NUNCA QUIS ser brasileiro, eles tem recalque absoluto por ser btasileiros e ficam sem pátria. NINGUEM NO MUNDO quer traidores de seu próprio país, são apenas usados e descartados  quando não mais necessários pelos países que querem nossas riquezas. Quando viajo, vejo esses coxinhas, geralmente barulhentos inconvenientes, querendo chamar a atençaõ. São tolos, incultos, filhinhos de papai e mamãe, cópia dos mesmos, intolerantes. Não respeitam esperar, como se fossem os únicos seres no mundo. Tolos, fúteis, bobões. Diplomados, mas bobões, muito bobões. Fico na minha, porque sinto vergonha de minha cidadania só nesses momentos. Coxinha me envergonha quando estou fora do meu país. Aqui, envergonham-me as atitudes doentias(bombas, mortes desejadas à presidente do meu país, pedindo volta da ditadura, a farsa ao combate à corrupção, etc). Sera que há país com “cidadãos” semelhantes? Não vi, até hoje. Todo cidadão qie conheço fora do meu país, defende seus país, trabalha por seu país(não para os outros países como cá). Protesta, sim, porque todos os países têm problemas, mas com total vontade de ver seu país melhorar(não piorar, como cá, parece ser esse o único objetivo de todo coxinha0). Temos nossa justiciaria com 99% proveniente da “classe” coxinha, que não está preocupada com o país, mas com o próprio status. Aliás, no Brasil, o status é a única coisa que move essa gente. Não há vínculo NENHUM com o país, não hà vínculo NENHUM com lealdade, não há vínculo nenhum com a verdade. A imprensa oligárquica os transforma em “modelitos”, e acabam vivendo para isso: virar “modelitos” na imprensa. Moro, é um dos exemplos dos modelitos midiáticos, aliás, virou mania de coxinha querer ser modelito midiático, ainda bem que são passageiros, como tudo que é descartável.

  5. Messias Franca de Macedo

    5 de setembro de 2015 8:27 pm

     
    [DA SÉRIE ‘AVISA AO TEMER

     

    [DA SÉRIE ‘AVISA AO TEMER &$ AOS DEMAIS (sic) DEMoTUCANOS’!] A propina atômica do PMDB em Angra 3A Procuradoria-Geral da República obtém evidências de que os senadores Renan Calheiros, Edison Lobão e Romero Jucá receberam propina de empreiteiras pelo contrato da usina nuclear 05/09/2015 – 00p0  (…) FONTE: http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2015/09/propina-atomica-do-pmdb-em-angra-3.html

  6. luiz valentim

    5 de setembro de 2015 9:20 pm

    Quando o Judiciário deixa Delegado na prática proferir sentença

    em Show Midiáticoo é sinal de Poder Judiciário fraco ou , pior, Poder Judiciáriopraticando justiça seletiva.

  7. Jose de Almeida Bispo

    5 de setembro de 2015 11:01 pm

    As condenações prévias a Zé

    As condenações prévias a Zé Dirceu são do nível das feitas em janeiro de 1657 em meu estado. Cujo desfecho, anos depois, é o que aqui se segue:

    “Carta para Sua Magestade acerca do Desembargador Bento Rebello. Salvador, 27/09/1658.” 

    (Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro – Documentos Históricos. 1648-1661. Correspondência dos governadores gerais: Conde de Castello Melhor, Conde de Athouguia e Francisco Barreto. Vol III da série E e I dos Documentos da Biblioteca Nacional. Tomo 4. p.352/353)

  8. OBS

    6 de setembro de 2015 1:12 am

    Eu assisti na íntegra a

    Eu assisti na íntegra a “entrevista” dada ontem.

    Cheguei a conclusão de que os “jornalistas” ali sentados, e, através de suas “perguntas”….que na sua maioria estavam batendo uma bola.

    Que nhaca. Não leram nada além das “matérias que são produzidas” e não buscaram saber nada a fundo para fazer perguntas. 

    Nem perguntas básicas fizeram. PUTZ.

     

     

  9. Maria Carvalho

    6 de setembro de 2015 3:25 am

    Em face do roteiro das novelas apresentadas nas tv’s…

    grande parte do nosso povo “adora” um teatro político “bem dramático”!

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