4 de junho de 2026

O ringue brasileiro e o boxe chapliniano, por Jota A. Botelho

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Os inimigos da democracia brasileira nos parecem incansáveis na sua luta incessante contra o detentor do título de campeão vencido na última batalha. O atual adversário, apresentado como representante da oposição, que perdera da atual bicampeã, representando a situação – e atual detentora do título ganho por quatro vezes seguidos nos últimos doze anos -, que embora tenha apanhado de uma mulher e, ainda por cima, de toalha molhada, insiste em contar com a ajuda dos juízes e dos jurados para vencer esta que poderá ser a sua última batalha numa revanche inexistente. 

A luta insana pelo nocaute

No vale tudo da luta o juiz fazia olhar de mercador, enquanto a torcida do oponente se inflamava no Coliseu do Colégio Eleitoral. A batalha se tornara algo dantesca e patética: empurrões e pescoções, socos abaixo da linha da cintura, caneladas e… nada. O nocaute não vinha. O lado de cá ora parecia desnorteada ora abatida, várias vezes foi às cordas e voltava capengando. Esteve na lona em duas ou três ocasiões com os jabs de direita imprimidos pelo seu adversário.

O juiz bem que tentava contar rapidamente de um até dez para dar como terminada e vencida a luta. Mas para o azar de seu preferido, que queria a faixa de campeão a qualquer custo, soou o gongo abruptamente e a campeã se levantou para voltar ao canto do ringue, já bastante combalida, para ser reanimada por sua assessoria. Ainda assim ela jogava alguns acenos para a sua torcida que se encontrava quase emudecida, estarrecida entre a perplexidade e a surpresa.

Acostumada a vencer pelo centro, e no vai e vem entre a direita e a esquerda do ringue, agora se sentia numa espécie de conflito hamletiano: abandonar ou avançar pela esquerda. Ora, isso seria voltar aos 15% ou 20% da lotação histórica do Colégio Eleitoral. Não daria para vencer nem o porteiro do Coliseu. Ainda mais agora que havia um dos Cunhas no centro do ringue tentando nocauteá-la de vez. Seria melhor ficar quieta e esperar a luta acabar, quem sabe daria empate, afinal a campeã já havia enfrentado situações mais difíceis no passado, inclusive em lutas armadas.

Dois de seus torcedores, que não acreditavam mais, se retiraram. Lá fora se entreolharam num silêncio sepulcral: “Ela nunca lutou, esta que é a verdade”, disse um deles. “Ela ou nós?” – perguntou o outro. “Bem… a gente se vê por aí”.  “Certamente” – respondeu o outro. E se dispersaram no entardecer. No Coliseu a luta prosseguia.

Notadamente os jornalistas e repórteres torciam pelo adversário da campeã. Eram uníssonos! Um locutor, que transmitia a batalha ao vivo, estimulado pelos palpites os mais sombrios de seus comentaristas, começou a incentivar seus telespectadores: “Agora ela cai! Ela vai ter que cair uma hora…” “É uma questão de tempo, Wácuo, ela mal se aguenta em pé”, emendou um pitaqueiro. Soou o gongo mais uma vez. Ninguém sabia ao certo em que round estava. Logo iniciaria um novo assalto. Mais um golpe abaixo da linha da cintura. A campeã sequer protestou contra o juiz. Sua torcida não acreditava na sua passividade, na sua falta de reação. Em razão disso, os insultos do lado adversário aumentaram de intensidade.

Passou um vendedor de coxinhas que se esgotaram rapidamente. Outros vendedores também faturavam muito com as camisetas verde-amarelas da CBF. A torcida do oponente parecia ter alto poder aquisitivo. A maioria se encontrava sentados nas poltronas próximas do ringue. Os torcedores da campeã, na geral, em pé, ansiosos para que tudo acabasse bem. Nas últimas lutas, todos compareceram maciçamente no Coliseu do Colégio Eleitoral e venceram sem margem às dúvidas. Não se renderiam facilmente desta vez – era como se dissessem uns para os outros. Mas o estranho é que ninguém, a exemplo do futebol, gritasse a pleno pulmões:
– Juiz Ladrão! Filho da Puta!

Ao assistir este espetáculo deprimente, fiquei pensando no romance de Julio Cortázar, ‘O Exame Final’, em que ele narra a derrocada do peronismo na Argentina com a morte de Evita Perón. Os Kirchners o renasceram das cinzas muitos anos depois. Foi aí que me dei conta que a história da América Latina é como a da sua economia: cíclica. Pura ciclotimia. Enquanto perdurar este estágio seremos sempre instáveis e prematuros. Sem vencedores ou vencidos. Uns eternos amadores, despreparados, ou até mesmo irresponsáveis.

Seria melhor assistirmos uma comédia de Chaplin, como ‘O lutador de boxe’.
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Jota Botelho

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

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Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

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