4 de junho de 2026

A Cultura da Barbárie: Violência Contra as Mulheres, por Márcia Moussallem

Lembro-me de uma frase do ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica, quando dizia que “mais difícil que mudar a realidade, é mudar a cultura”.
Imagem: Adobe stock

do Observatório do 3º Setor

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A Cultura da Barbárie: Violência Contra as Mulheres

por Márcia Moussallem

A barbárie do século 21 pode abranger diversos aspectos das expressões da questão social. Contudo cabe refletir e analisar uma dessas gritantes expressões que ainda não foi superada: a violência contra as mulheres.

Lembro-me de uma frase do ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica, quando dizia que “mais difícil que mudar a realidade, é mudar a cultura”.

É nesse sistema do grande capital, de desigualdade em todos os aspectos, que as relações e essa cultura hegemônica, patriarcal e nociva são construídas.

Nós, mulheres, convivemos com o “velho” dentro de um “novo” mundo contemporâneo. A violência contra as mulheres atinge o seu mais alto topo, de escalas que vão desde a violência física, psicológica, sexual, moral, virtual e patrimonial.

Infelizmente não são baixas as estatísticas divulgadas nas últimas pesquisas sobre o aumento da violência doméstica (em destaque o feminicídio no Brasil), principalmente nesse momento de pandemia. Segundo dados oficiais do governo federal, via canais de denúncia foram registrados 105.821 casos de violência contra a mulher em 2020.

Isso corresponde a cerca de 12 denúncias por hora. “Desse total, 72% (75.894 denúncias) se referem à violência doméstica e familiar contra a mulher, incluindo ação ou omissão que causem morte, lesão, sofrimento físico, abuso sexual ou psicológico. Ainda estão na lista danos morais ou patrimoniais”.

Esses números podem ser ainda mais traduzidos quando verificamos no nosso cotidiano, amigas e conhecidas passando por todo tipo de violência.

Em 2020 e início de 2021 presenciei diversas experiências de violência, muitas separações com dores e muito sofrimento em todos os aspectos.

Destaco um caso de uma amiga, que durante a pandemia foi expulsa da sua casa as 22h pelo seu marido. Não era mais uma das inúmeras brigas de cunho emocional e moral, mas uma acompanhada de um prato jogado na sua direção.

A experiência de sofrimento da minha amiga não acabou com a separação. Continuou após alguns meses, quando o seu algoz retorna com toda fúria, com ameaças, alegando que ela deveria pagar pelos poucos objetos que levou durante a sua mudança.

O mais interessante nesse caso é que se trata de um homem de “posse”, “bem-nascido” e “progressista”. Contudo, não podemos esquecer que na cultura patriarcal, o “homem tudo pode, tudo faz e tudo é”, a mulher sempre será um objeto de “cama e mesa”. Sem voz, sem direito.

Vi de perto os danos psicológicos dessa minha amiga e todo o sofrimento causado pelo seu ex-marido. Os cortes, as feridas sangraram a todo momento no seu corpo e na sua alma.

Refleti e senti a dor da minha amiga e vi que são as dores de muitas mulheres, porém, umas sem força, silenciam, e outras conseguem ter forças e coragem de gritar e seguir um outro caminho em busca da sua liberdade.

Até quando essa cultura nociva hegemônica vai prevalecer? Como construir em um sistema tão excludente uma cultura calcada na igualdade e no respeito? Como falar de direitos humanos se ainda estamos vivendo uma verdadeira selvageria? A educação pode ter um pepel importante nesse aspecto?

Talvez não tenhamos respostas prontas. Ou um só caminho…

Essa luta, essa construção de um outro patamar de civilidade ainda está em processo e sempre estará.

De um lado, mulheres amordaçadas, silenciadas, sequestradas e mortas (tanto de corpo como de alma). Algumas choram, gritam, fogem, recolhem seus ossos e resistem. Do outro lado, homens poderosos, orgulhosos, ambiciosos…. perdidos no deserto com muita sede e fome, sem forças de soltar o grito de socorro. Cansados e exaustos, só resta uma pequena lágrima que escorre no rosto queimado do sol. Adormecem e sonham com um rosto de mulher sorrindo dizendo: Acordem! Basta! Venham!

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

MÁRCIA MOUSSALLEM – É socióloga, assistente social, mestre e doutora em Serviço Social, Políticas Sociais e Movimentos Sociais pela PUC-SP. Tem MBA em Gestão para Organizações do Terceiro Setor. Professora da PUC-Cogeae/SP  e da FGV-Pec/SP. 

Este artigo não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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