4 de junho de 2026

O Pequeno Príncipe, repaginado e socialista

O melhor filme em cartaz no momento é, sem dúvida alguma, “O Pequeno Príncipe”. Ao contrário de outras versões cinematográficas da obra de Saint-Exupéry no filme de Mark Osborne o livro serve apenas de pano de fundo para uma outra história. A descoberta ou redescoberta do valor da temática do autor francês num mundo cada vez mais oprimido pela racionalidade.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

A racionalidade da vida da menina equivale à racionalidade da cidade em que ela vive. Vista de cima a a mesma parece apenas uma grande placa de computador. As casas e prédios são processadores, as ruas são as trilhas de cobre, os carros e transeuntes parecem bits viajando freneticamente de um lado para outro.

O que desorganiza a cidade é a casa do aviador que desorganiza a vida da menina. Somente através destas desorganizações a irracionalidade do mundo é possível e a redescoberta da aventura de viver e da esperança se tornam uma realidade. A releitura de Saint-Exupéry foi absolutamente fiel aos propósitos do livro.

Os diversos mundos visitados pelo Pequeno Príncipe foram repaginados e contados à medida que a história da própria menina vai sendo recontada e a racionalidade opressiva da vida dela vai sendo destruída. A infância reentra na vida dela através das páginas do livro lhe entregues pelo aviador maluco da casa ao lado.

Em certo momento as duas histórias (do livro de Saint-Exupéry e da menina que a descobre) convergem. E então somos colocados frente a frente com um novo planeta saint-exupéryano que se parece muito com o mundo em que nós mesmos vivemos. O filme faz uma crítica mordaz do neoliberalismo, que submeteu tudo e todos à racionalidade do mercado. As estrelas compradas e estocadas longe dos olhares dos habitantes daquele mundinho dominado pelo banqueiro pode ser uma referência tanto à poluição que nos impede de ver o céu estrelado quanto à tentativa do mercado de impedir que novos modelos econômicos surjam e possam servir de paradigmas.

Após a derrota do banqueiro e da libertação das estrelas, o Pequeno Príncipe recobra sua memória ao procurar a rosa. Mas a rosa já não é apenas uma flor. Ela é o próprio sol que pode ser visto nascer num lugar distante. A rosa é um símbolo do socialismo. Onde quer que ele nasça há esperança para a menina, para a literatura e para as crianças. Um filme a ser aplaudido pela esquerda e que provavelmente será odiado ou não entendido pelos pais “coxinhas” que levam seus filhos ao cinema.

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

4 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Anna Dutra

    23 de agosto de 2015 11:22 pm

    Ingresso comprado

    Fábio,

    que post bonito!  De tudo que li sobre o filme até aqui, este teu texto foi o que mais me agradou; tem o meu jeito.  Nada de tecnicalidades; que técnica foi utilizada interessa mais a quem é do ramo. Eu gosto de outro tipo de análise, como essa tua. E que analogia e atualidade o filme traz, facilitando o entendimento para as gerações mais novas.

    Há quem considere que a obra é bobinha, “coisa de miss”.  Mas são camadas e camadas a desfolhar, mastigar e depois decantar.  Coisa para uma vida.

    É o mesmo caso de “Fernão Capelo Gaivota”; o Principezinho vejo amiúde por aqui (ainda outro dia o Cruvinel trouxe um post excelente sobre a tradução da obra e o Jair Fonseca também já postou a respeito). Já a gaivota, não me lembro de ter lido qualquer post no GGN. E olha que ela fez a cabeça de um bocado de gente… rs.

    Ótimo post. Me estimulou a ir ao cinema!  Ok, não é tarefa tão difícil assim e me parece que vai valer a pena…

    Obrigada.

    P.S.:  Acho que no 4o. Parágrafo a palavra menina foi grafada com erro.  Ao invés de “medida” não seria “menina”,  em :  ”  contados à medida que a história da própria “medida” vai sendo recontada e a racionalidade opressiva da vida…”?

    1. Fábio de Oliveira Ribeiro

      24 de agosto de 2015 3:34 pm

      Agradeço o comentário

      Agradeço o comentário generoso. Agradeço também sua observação sobre o erro que havia no 4º parágrafo. Já fiz a correção (troquei medida por menina). 

  2. Anna Dutra

    27 de agosto de 2015 11:01 pm

    Maravilhoso

    Fábio,

    ontem fui com minha afilhada – 11 anos – assistir a esta beleza!  Quando o primeiro filme foi lançado, lembro de tê-lo assistido várias vezes.  Era um tanto sombrio – não sei precisar se um problema técnico com a luminosidade ou se intencional – mas muito bonito e muito tocante.

    Esta versão é mais solar e, de certa forma, mais alegre do que a primeira, ao menos aonde vai minha memória. O filme é uma delícia, principalmente quando trata da relação da menina com o aviador.  Ela, sem sentir, é levada por ele a um mundo que ela não conhecia, é um desabrochar tão bonito, uma atitude tão generosa dele. Ele leva a menina pela mão e não quer nada dela, só que ela esteja ali e cresça, e aproveite tudo.

    Não sei precisar quem chorou mais; se eu ou minha querídissima afilhada. Mas ela chorava emocionada com a separação dos amigos e eu chorava, grata, por ter encontrado e reconhecido na minha própria trajetória o meu aviador.  Fiquei torcendo para que ela encontre, um dia no futuro, também o seu.

    Amigos são pedras lapidadas com carinho; o filme mostra bem isso. Quando vou com meus “meninos” – sobrinhos e afilhados – ao cinema, gosto de conversar com eles depois e abordar umas coisinhas, dar um toquezinho aqui, outro ali – é só o que eles vão poder levar de mim, e amizade é isso. Dessa vez, a conversa foi tão bonita! Fluiu leve e fácil, porque o filme é ótimo.

    Obrigada por teu empenho em nos trazer informações sempre instigantes e longe do raso e superficial. Torna-se um estímulo para buscarmos – e sermos – mais.

    Até qualquer hora.

    1. Fábio de Oliveira Ribeiro

      28 de agosto de 2015 9:48 pm

      Que bom que você e sua

      Que bom que você e sua companheirinha gostaram. Felicidades. 

Recomendados para você

Recomendados