O melhor filme em cartaz no momento é, sem dúvida alguma, “O Pequeno Príncipe”. Ao contrário de outras versões cinematográficas da obra de Saint-Exupéry no filme de Mark Osborne o livro serve apenas de pano de fundo para uma outra história. A descoberta ou redescoberta do valor da temática do autor francês num mundo cada vez mais oprimido pela racionalidade.
A racionalidade da vida da menina equivale à racionalidade da cidade em que ela vive. Vista de cima a a mesma parece apenas uma grande placa de computador. As casas e prédios são processadores, as ruas são as trilhas de cobre, os carros e transeuntes parecem bits viajando freneticamente de um lado para outro.
O que desorganiza a cidade é a casa do aviador que desorganiza a vida da menina. Somente através destas desorganizações a irracionalidade do mundo é possível e a redescoberta da aventura de viver e da esperança se tornam uma realidade. A releitura de Saint-Exupéry foi absolutamente fiel aos propósitos do livro.
Os diversos mundos visitados pelo Pequeno Príncipe foram repaginados e contados à medida que a história da própria menina vai sendo recontada e a racionalidade opressiva da vida dela vai sendo destruída. A infância reentra na vida dela através das páginas do livro lhe entregues pelo aviador maluco da casa ao lado.
Em certo momento as duas histórias (do livro de Saint-Exupéry e da menina que a descobre) convergem. E então somos colocados frente a frente com um novo planeta saint-exupéryano que se parece muito com o mundo em que nós mesmos vivemos. O filme faz uma crítica mordaz do neoliberalismo, que submeteu tudo e todos à racionalidade do mercado. As estrelas compradas e estocadas longe dos olhares dos habitantes daquele mundinho dominado pelo banqueiro pode ser uma referência tanto à poluição que nos impede de ver o céu estrelado quanto à tentativa do mercado de impedir que novos modelos econômicos surjam e possam servir de paradigmas.
Após a derrota do banqueiro e da libertação das estrelas, o Pequeno Príncipe recobra sua memória ao procurar a rosa. Mas a rosa já não é apenas uma flor. Ela é o próprio sol que pode ser visto nascer num lugar distante. A rosa é um símbolo do socialismo. Onde quer que ele nasça há esperança para a menina, para a literatura e para as crianças. Um filme a ser aplaudido pela esquerda e que provavelmente será odiado ou não entendido pelos pais “coxinhas” que levam seus filhos ao cinema.
Anna Dutra
23 de agosto de 2015 11:22 pmIngresso comprado
Fábio,
que post bonito! De tudo que li sobre o filme até aqui, este teu texto foi o que mais me agradou; tem o meu jeito. Nada de tecnicalidades; que técnica foi utilizada interessa mais a quem é do ramo. Eu gosto de outro tipo de análise, como essa tua. E que analogia e atualidade o filme traz, facilitando o entendimento para as gerações mais novas.
Há quem considere que a obra é bobinha, “coisa de miss”. Mas são camadas e camadas a desfolhar, mastigar e depois decantar. Coisa para uma vida.
É o mesmo caso de “Fernão Capelo Gaivota”; o Principezinho vejo amiúde por aqui (ainda outro dia o Cruvinel trouxe um post excelente sobre a tradução da obra e o Jair Fonseca também já postou a respeito). Já a gaivota, não me lembro de ter lido qualquer post no GGN. E olha que ela fez a cabeça de um bocado de gente… rs.
Ótimo post. Me estimulou a ir ao cinema! Ok, não é tarefa tão difícil assim e me parece que vai valer a pena…
Obrigada.
P.S.: Acho que no 4o. Parágrafo a palavra menina foi grafada com erro. Ao invés de “medida” não seria “menina”, em : ” contados à medida que a história da própria “medida” vai sendo recontada e a racionalidade opressiva da vida…”?
Fábio de Oliveira Ribeiro
24 de agosto de 2015 3:34 pmAgradeço o comentário
Agradeço o comentário generoso. Agradeço também sua observação sobre o erro que havia no 4º parágrafo. Já fiz a correção (troquei medida por menina).
Anna Dutra
27 de agosto de 2015 11:01 pmMaravilhoso
Fábio,
ontem fui com minha afilhada – 11 anos – assistir a esta beleza! Quando o primeiro filme foi lançado, lembro de tê-lo assistido várias vezes. Era um tanto sombrio – não sei precisar se um problema técnico com a luminosidade ou se intencional – mas muito bonito e muito tocante.
Esta versão é mais solar e, de certa forma, mais alegre do que a primeira, ao menos aonde vai minha memória. O filme é uma delícia, principalmente quando trata da relação da menina com o aviador. Ela, sem sentir, é levada por ele a um mundo que ela não conhecia, é um desabrochar tão bonito, uma atitude tão generosa dele. Ele leva a menina pela mão e não quer nada dela, só que ela esteja ali e cresça, e aproveite tudo.
Não sei precisar quem chorou mais; se eu ou minha querídissima afilhada. Mas ela chorava emocionada com a separação dos amigos e eu chorava, grata, por ter encontrado e reconhecido na minha própria trajetória o meu aviador. Fiquei torcendo para que ela encontre, um dia no futuro, também o seu.
Amigos são pedras lapidadas com carinho; o filme mostra bem isso. Quando vou com meus “meninos” – sobrinhos e afilhados – ao cinema, gosto de conversar com eles depois e abordar umas coisinhas, dar um toquezinho aqui, outro ali – é só o que eles vão poder levar de mim, e amizade é isso. Dessa vez, a conversa foi tão bonita! Fluiu leve e fácil, porque o filme é ótimo.
Obrigada por teu empenho em nos trazer informações sempre instigantes e longe do raso e superficial. Torna-se um estímulo para buscarmos – e sermos – mais.
Até qualquer hora.
Fábio de Oliveira Ribeiro
28 de agosto de 2015 9:48 pmQue bom que você e sua
Que bom que você e sua companheirinha gostaram. Felicidades.