4 de junho de 2026

Dois veteranos observadores da paisagem político-econômica

 

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Por Almeida

“Essa Agenda Brasil é uma fraude” e “A democracia brasileira é chata”

Duas entrevistas polêmicas, com dois veteranos observadores da paisagem política-econômica brasileira, concedidas ao IHU On-Line O principal que se extrai delas é que não há projeto, o país está sem rumo, essa é a tragédia. Então, sem projeto, a economia fica na mesmice de um burocrata neoliberal e a política sem projeto se reduz à fisiologia verificada e cai no domínio, do mais baixo, obscuro e sujo clero, simbolizado nas lideranças das casas legislativas e na pasta que deveria conduzir a política governamental. Reproduzo as chamadas com os resumos das entrevistas e deixo as ligações para o texto completo de ambas. Confiram.

do IHU Unisinos

“Essa Agenda Brasil é uma fraude. A prioridade absoluta deve ser tomar conta da rede urbana”. Entrevista especial com Carlos Lessa

“Falta ao Brasil protagonismo. Qual é o protagonismo urbano possível? Acredito que tem de haver uma discussão grande dentro do Brasil, mas acho — pode ser que eu esteja errado — que o sonho que unifica qualquer brasileiro da cidade é o de ter a casa própria, e temos de discutir isso em profundidade”, afirma o economista.

crise econômica que anuncia a estagnação da indústria e até recessão, “não surpreende” e é consequência da opção de manter a economia ativa através do endividamento das famílias, afirma o economista Carlos Lessa em entrevista à IHU On-Line, concedida por telefone. “Há muito tempo eu achava que seria impossível segurar a economia brasileira da maneira que vinham tentando fazê-lo, ou seja, segurar a economia sem reconstruir um modelo de longo prazo para o país como um todo, sem ter uma visão de futuro, sem ter um projeto nacional”, diz.

Ao longo de sua trajetória como economista, Lessasempre defendeu o desenvolvimento regional como uma alternativa para garantir o desenvolvimento brasileiro, mas agora, frisa, dado que 80% da população é urbana e 50% vive nas grandes metrópoles, “a ideia de região não se aplica mais ao Brasil” e é preciso um novo pacto federativo, que tenha em vista uma política “para eliminar as desigualdades intra e interurbanas”. Ele explica: “Acredito que o Brasil precisa pensar a grande rede de cidades brasileiras e então perguntar aos brasileiros qual o tipo de política que iremos fazer”.

Segundo ele, o endividamento dos estados brasileiros demonstra que “a Federação tem que ser redefinida a partir de um país que é urbano e plurimetropolitano, porque o Brasil dispõe, e é uma vantagem estratégica colossal, de 80% da população em uma vasta rede de cidades, que unifica o Brasil como um todo”. Ao repensar as linhas que devem conduzir a política e a economia, defende, “a dívida brasileira como um todo precisa ser reduzida. Nós temos que reduzir para repor instrumentos para poder fazer o futuro do Brasil”, sugere.

A discussão sobre as mudanças a serem feitas no país deve, defende, ser feita a partir da pergunta: “Qual é o Brasil que você sonha? A primeira grande pergunta é essa. Essa pergunta não foi feita, porque o debate brasileiro não chega a isso”. Ao analisar o Brasil desde a reabertura democrática, Lessa é categórico ao afirmar que as opções feitas até agora, de um lado, seguiram o Consenso de Washington, como o fez FHC e, de outro, foram em cima de uma visão “demagógica e pouco refletida do governo do PT”.

A esperança, frisa, deve vir da “garotada” da nova geração, de um “novo protagonismo” que ainda não surgiu, e a “ideologia que vai prosperar é a de reconhecer que o mercado está aí, que é preciso respeitá-lo. Mas é preciso também domesticá-lo, porque ele, entregue às suas próprias forças, leva à situação que está hoje”.

Carlos Lessa é formado em Ciências Econômicas pela antiga Universidade do Brasil e doutor em Ciências Humanas pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Campinas – Unicamp. Em 2002, foi reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e presidente do BNDES.

Confira a entrevista com Carlos Lessa: http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/545991-qessa-agenda-brasil-e-uma-fraude-a-prioridade-absoluta-de-uma-verdadeira-agenda-brasil-e-tomar-conta-da-rede-urbana-entrevista-especial-com-carlos-lessa

 

“A democracia brasileira é chata. Não entusiasma ninguém”. Entrevista especial com Francisco de Oliveira

“No Brasil, ao invés de nos aproximarmos do modelo social-democrata europeu, nossa aproximação é com os EUA, onde a diferença entre republicanos e democratas é banal”, diz o sociólogo.

Dizer que há uma crise econômica no Brasil é “um exagero”, e as crises políticas, como a que o país vive atualmente, “são como montanha russa, não se fixam se não tiver uma crise econômica junto”.

As afirmações são do sociólogo Francisco de Oliveira em entrevista concedida à IHU On-Line. Na avaliação dele, o que explica as conturbações conjunturais deste momento é o fato de que a “convergência entre o crescimento da economia e as forças políticas está muito esgarçada”, ou seja, “há uma divergência hoje entre as forças econômicas e as forças políticas” e “essa é a razão maior da crise”.

Essa divergência, explica, ocorre porque o Estado deixou de ser protagonista no sentido de “desenhar os rumos da economia”, tal como foi durante ogoverno Vargas. “Seja com a Dilma ou qualquer outro presidente, FHC ou mesmo o Lula de novo, o Estado não tem mais a importância que tinha na eraVargas. Isso acontece porque a economia mudou, e a economia brasileira é mais poderosa hoje e importante internacionalmente, e a ação do Estado é menos decisiva. Ou seja, não se mudam as relações de força no interior da economia como se mudava antes”, constata.

Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por telefone, Chico de Oliveira faz uma retrospectiva do desenvolvimento brasileiro e da atuação dos principais partidos políticos no Brasil. Ele lembra que durante o governoVargas, o “país teve um projeto de desenvolvimento regional (…) que foi seguido por Juscelino Kubitschek, e foi em frente. Mas hoje esse projeto não existe mais, porque houve uma certa integração das diversas regiões brasileiras sob o comando da industrialização de São Paulo”.

As raízes desse comando a partir de São Paulo, explicita, estão também na base da formação do PT, sendo Lula, “a maior expressão disso”, à medida que ele “é produto de um ciclo de desenvolvimento econômico em que as montadoras do ABC estiveram no centro do crescimento brasileiro”. Depois de quase 35 anos da formação do partido, que conseguiu catalisar diferentes forças políticas à época da sua fundação, Chico faz sua autocrítica: “O PT conseguiu empalmar uma oposição à ditadura e transformou isso em força partidária, e o ABC era o símbolo disso. Na verdade foi uma leitura muito equivocada da nossa parte. O ABC era o produto do desenvolvimento capitalista e não o contrário. (…) A gente atribuiu um papel revolucionário ao PT e isso foi um equívoco total”.

Para ele, hoje na política brasileira não faz muita diferença fazer distinções entre PTPSDB e PMDB, porque todos têm a mesma agenda e “nenhum deles pode  virar a mesa, porque virar a mesa é uma heresia. Eles querem que tudo se mantenha bem no sistema capitalista”, afirma. E nos próximos capítulos dessa crise, lamenta, “não haverá nenhum novo Ulysses Guimarães no sentido de ser um político moderado, que consiga conduzir a oposição brasileira”.

Depois de ter vivido e sentido as consequências da ditadura militar e ter apoiado a reabertura, de ter participado dasDiretas JáChico de Oliveira diz que não tem motivos para ir às ruas protestar pelo impeachment da presidente. “Eu não vou sair de casa para dizer ‘fora Dilma’. Isso é muito pouco. Quando estávamos contra a ditadura, tínhamos perfis mais claros, mas hoje não. O que constatamos é que a democracia não entusiasma ninguém. Ela é um largo consenso das maiorias. (…) A democracia não mobiliza. A tristeza que constatamos é essa”, conclui. 

Francisco de Oliveira (foto abaixo) formou-se em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia da Universidade do Recife, atual Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. É professor aposentado do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo – USP.

Confira a entrevista com Francisco de Oliveira: http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/545944-entrevista-especial-com-francisco-de-oliveira

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2 Comentários
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  1. marco aurélio barroso

    27 de agosto de 2015 12:56 pm

    Lessa & Oliveira

    Nassif,

    Não temos, nunca tivemos, governo para o novo. Para grandes desafios. Não temos, nunca tivemos, um governo que colocasse a população ao seu lado para a descoberta da modernidade. Copiamos. Copiamos. E, na falta do que fazer, copiamos. Pergunta eterna: se somos tão criativos, porque somos tão medrosos? Porque somos tão mesquinhos?

     Primeiro, porque temos medo do novo. Adoramos crises, adoramos reclamar. O esporte do Brasil não é o futenol. É a verborragia. O país está perdido e sem rumo. Aliás, duas coisas eternas: estar sem rumo e estar perdido. Os anos passam, Envelhecemos. Sempre celeiro dos outros.

    O blog, aqui, do Nassif, entra ano sai ano, não se cansa de mostrar e espalhar grandes reportagens e vídeos. Pessoas que extravasam conhecimento, prudência e ética. Ontem, em todos os lares brasileiros,Color de Melo cobrava ética. É duro. Que a terra nos seja leve!

          

  2. rdmaestri

    27 de agosto de 2015 2:40 pm

    E qual é a agenda positiva da IHU?

    Segundo a proposta do IHU:

    “O principal objetivo do IHU é apontar novas questões e buscar respostas para os grandes desafios de nossa época, a partir da visão do humanismo social cristão, participando, ativa e ousadamente, do debate cultural em que se configura a sociedade do futuro”

    Porém o que se vê é que o IHU é prodigo em apresentas questões e ávaro em buscar respostas, ou seja, apresentar problemas é simples, porém apresentar soluções que não importem numa mudança de toda a sociedade para resolver um problema pontual, isto que é difícil. Não nego a validade dos problemas levantados pelo IHU, nem nego muitas das soluções propostas, porém a viabilidade das mesmas são sempre impossíveis, e também, o mais surpreendente possível é que os problemas são sempre problemas nacionais e internacionais, deixando o microcosmos da região de influência deste instituto totalmente ao desabrigo de qualquer discussão.

    É simples levantar soluções genéricas para a sociedade, pois elas não serão testadas nem implementadas, porém é difícil sugerir discussões a apartir da realidade local, pois o tempo e a implementação das mesmas podem demonstrar que elas estão erradas não permitindo que se siga impunimente somente apontando soluções globais.

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