Há bem pouco que posso dizer de Vito Giannotti. Na minha estante tenho o livro dele História das Lutas dos Trabalhadores no Brasil, NPC-Mauad, Rio de Janeiro 2007. Li duas outras obras dele – não me perguntem os títulos, pois não lembro – e que foram forçosamente doadas a “companheiros” que não as devolveram.
Encontrei Vito Giannotti uma única vez no princípio da década de 1990. Na oportunidade eu trabalhava no Sindicato dos Têxteis de Osasco. Havia tomado o trem na Comandante Sampaio para ir ao TRT/SP e, na estação seguinte, ele entrou no mesmo vagão que eu acompanhado de um líder petista local já falecido. Fui apresentado ao autor pelo petista osasquence e voltei a ler meu livro.
Fui interrompido pelo escritor recentemente falecido. Ele estava curioso. Queria saber o que estava lendo. Mostrei-lhe a capa do livro: “Raízes do Movimento Operário de Osasco” de autoria da historiadora Helena Werner Pignatari, obra que também foi desgraçadamente doada a um companheiro que não o devolveu. Vito Giannotti me mostrou então a capa de um livrinho dele, uma edição de bolso (se não me engano tratava-se de “O que é estrutura sindical”). Disse que estava trabalhando num projeto mais vigoroso e que o tema seria o mesmo do livro que eu estava lendo: história do movimento operário brasileiro. E então ele voltou a conversar com o petista e eu me aferrei à minha leitura.
O encontro casual aqui narrado ocorreu há 20 anos, portanto, me é difícil lembrar outros detalhes. Creio ter ouvido surgir durante a conversa entre Vito Giannotti e o petista um assunto desagradável. Ambos trocaram impressões sobre a morte de um adolescente, vítima de botulismo num acampamento litorâneo. O assassinato foi atribuído a uma lata de sardinhas estufada aberta e inadvertidamente consumida. Uma tragédia familiar sem sentido, como tantas outras, pensei. Na estação seguinte o trem lotou e virei sardinha sendo obrigado enfiar meu livro embaixo do braço.
Separei-me dos dois companheiros de jornada na estação da Barra Funda. Ambos estão agora falecidos. Eles foram novamente reunidos ao jovem que morreu de botulismo e que não cheguei a conhecer. Porque estou contando a história dele? Creio que todas as histórias merecem ser contadas. Algumas delas, porém, não faziam parte da História do Brasil. Como Helena Werner Pignatari, Vito Giannotti salvou algumas histórias brasileiras da morte por envenenamento ideológico. Se a história que contei salvar um único filho de operário da morte por consumo de sardinhas botulínicas me darei por satisfeito.
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