Araruta, Araruta, ê ê ê…
por Ricardo Mezavila
As arquibancadas na década e 1970 eram sábias, cantavam em tom maior e menor, em versos e prosas, acompanhadas por agogôs, surdos, repiniques, tamborins e a fervorosa charanga levantava a galera: Araruta, Araruta, ê ê ê, filho da puta!
Os gritos eram uma forma de desabafar contra o obscurantismo da ditadura militar que torturava, fazia desaparecer e matava opositores ao regime assassino.
Desde a redemocratização, não vivíamos tempos tão sombrios como os de hoje. A pandemia, por si só, já seria o suficiente para marcar negativamente essa época. Contudo, Deus, na sua finita paciência, colocou no caminho do Brasil uma pedra fascista.
Por que, cacete, Deus fez isso?
Além de ser um cara gozador que adora brincadeira, Deus pode ter se aborrecido com a lava jato, com aquela dancinha da coreografia “fora Dilma, fora Petê”, com a desfaçatez de Eduardo Cunha e Aécio Neves, com as expressões faciais da Leilane Neubarth e os comentários da Miriam Leitão, com a comparação entre Michel Temer e uma samambaia, com o supremo acovardado.
Se Carlos Drummond de Andrade ficou perturbado com uma pedra, o que será de nós com uma avalanche de pedras fascistas tentando nos bloquear o caminho?
A sabedoria das arquibancadas ensina a endurecer com ternura, por isso precisamos praticá-la ao extremo e sem tréguas, retirar as pedras, ocupar todos os espaços, principalmente nas ruas, com nossos instrumentos de luta. Araruta, Araruta…
Ricardo Mezavila, cientista político
Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN
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