13 de junho de 2026

Estados Unidos, nação de imigrantes? Por Nadejda Marques

O mito dos EUA como nação de imigrantes é perigoso porque, se por um lado enfatiza as contribuições dos imigrantes com palavras bonitas como multiculturalismo ou diversidade por outro lado explora a mão-de-obra imigrante e disfarça a natureza e a responsabilidade por atitudes colonialistas/imperialistas
© AFP 2021 / Johannes Eisele

Por Nadejda Marques*

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Nos últimos dias, a situação de milhares de afegãos que temem ser alvo do Talibã porque direta ou indiretamente se beneficiaram ou trabalharam com as forças estrangeiras nas últimas décadas foi noticiada com um apelo por solidariedade internacional e assistência a refugiados e imigrantes. Para alguns, esse apoio seria natural vindo dos Estados Unidos pois, sendo uma nação construída por imigrantes, seria acolhedora e benevolente para com imigrantes. Ha! Duas grandes falácias! Primeiro, os Estados Unidos não são uma nação construída por imigrantes. É um país construído por colonizadores que se tornou um Estado colonizador. Por detrás do discurso de nação de imigrantes se esconde uma faceta do nacionalismo americano que desconsidera o genocídio das populações indígenas, quase três séculos de de um sistema escravocrata, um século de racismo institucionalizado e o papel que os Estados Unidos tiveram, ao longo dos anos, nas estrutras globais de migração. O mito dos EUA como nação de imigrantes é perigoso porque, se por um lado enfatiza as contribuições dos imigrantes com palavras bonitas como multiculturalismo ou diversidade por outro lado explora a mão-de-obra imigrante e disfarça a natureza e a responsabilidade por atitudes colonialistas/imperialistas. O autor Suketu Mehta acertou em cheio quando em seu livro ,“This Land is Our Land: An Immigrant’s Manifesto” (Esta Terra é Nossa Terra: Manifesto de um Imigrante), de 2019, explicou: “Eles [os imigrantes] estão aqui porque você esteve lá.” Para ele, as pessoas se tornam imigrantes principalmente porque o efeito cumulativo da exploração de suas terras as deixam cada vez menos habitáveis. Essa ideia serve como uma luva na questão do Afeganistão, sobretudo se levarmos em consideração que (1) terras também são exploradas em operações de guerra e (2) a duração das guerras americanas no Afeganistão. O autor, Mehta, falando em termos gerais, defende que os países ricos deveriam pagar reparações aos países pobres. Reparações pelos custos do colonialismo, das guerras que impuseram a eles, da desigualdade que criaram e, por que não, pelas emissões de gás carbônico que fizeram. Caso contrário, terão que lidar com seus imigrantes e refugiados. Os EUA deveriam apoiar os imigrantes e refugiados afegãos por obrigação ética e moral. Não de bonzinhos. Mesmo porque, na história do Afeganistão, os EUA têm muito pouco de bonzinhos.

A segunda falácia está ligada ao fato de que as comunidades de imigrantes que se instalaram nos Estados Unidos seriam mais abertas a novos imigrantes. Não é bem assim. A experiência de imigração para os Estados Unidos é determinada pelas forças que moldam o conceito de raça na sociedade americana. Quero dizer, a experiência de imigrantes brancos europeus nos EUA é diferente da experiência de imigrantes latinoamericanos, asiáticos, árabes ou africanos. Pensar que a política de imigração americana é generosa é pura ilusão! Haja visto a ascenção da retórica anti-imigrante do ex-presidente Trump que ainda ressoa entre um grupo amplo da população composto inclusive por imigrantes e seus descendentes. Lembrando que essa retórica tem raízes em políticas abertamente discriminatórias contra imigrantes e refugiados que vigoraram por anos. Mesmo após críticas à política de imigração do governo Trump, a administração do presidente Biden, como seu predecessor, ainda se vale de subterfúgios como políticas de saúde pública para restringir o movimento de imigrantes e negar pedidos de asilo. Recentemente, em resposta à tomada de poder pelo Talebã no Afeganistão, Biden prometeu evacuar cerca de 80.000 civis afegãos que se qualificam para vistos de imigrantes. Serão evacuados e aguardarão o processamento dos vistos. Para onde vão? Ficarão em fortes como o Fort Bliss, no Texas, o Fort Lee, na Virginia e o Fort McCoy, no Wisconsin. Em média, os pedidos de visto são processados em 800 dias. Ou seja, pode demorar anos!!! Além disso, segundo a organização RAICES, mais de 17.000 processos de visto para afegãos já estão com atraso.

Independente da questão dos afegãos, em janeiro, Biden encaminhou ao Congresso americano um projeto de lei para modernizar o sistema de imigração. A lei não foi aprovada ainda e frente a resistência esperada por parte de Republicanos e alguns Democratas que representam regiões mais conservadoras do país, a nova opção de reforma do sistema de imigração seria através da lei orçamentária em debate no congresso. Democratas mais progressistas querem vincular as votações sobre a nova lei de infraestrutura e a lei orçamentária com previsão de U$3.5 trilhões de dólares para a reforma imigratória. Tudo indica que na nação de imigrantes mais uma vez haverá impasse. Não sobre infraestrutura, mas sim sobre imigração!   

*Nadejda Marques é PhD em Direitos Humanos e Desenvolvimento pela Universidade Pablo de Olavide (Sevilha, Espanha) e trabalha com direitos humanos há mais de duas décadas. Ela é autora de Nevertheless, They Persist: how women survive, resist and engage to succeed in Silicon Valley (2018) sobre a história do sexismo e a dinâmica de gênero atual no Vale do Silício. Escreveu ainda o livro auto-bibliográfico chamado “Nasci Subversiva” sobre a ditadura no Brasil da perspectiva de uma criança.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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