República ou Emirado? Os perigosos caminhos do Brasil em 7 de setembro de 2021
por Jean D. Soares
Ou o congresso abre o processo de impeachment neste dia 8, ou o Brasil tornar-se-á um emirado.
Nós sabemos que o processo talvez não seja aberto amanhã. Alguém vai dizer que está tudo funcionando normalmente, mas só se fosse num emirado.
Pode parecer exagero retórico, mas não é. O devido decoro já foi quebrado há muito tempo, as instituições estão sendo desmontadas há 5 anos e há quem insista em dar o ar de normalidade. O presidente incita desobediência à Justiça! Partindo da expressão do vice, que “respeito ao povo” há quando se age em favor dos próprios interesses, pessoais ou militares? Respeita-se somente à própria vontade, distorcendo leis e costumes como é típico dos emires, ditadores e tiranos.
Mas há gente com poder que já aparece despido do mesmo quando aceita o atual chefe do executivo brasileiro desafiando a constituição que lhe garante o poder. O desafio é feito à base de chumbo e bravatas – da força física ou discursiva contra a lei e seus argumentos. E quando a força supera os argumentos estamos entre emires, ditadores e tiranos, não, entre democratas.
Quem ignora juízes, isso é, quem em pleno século XXI se arroga o direito de executar e julgar, de acumular poderes que, desde Montesquieu, se separam? Emires, ditadores e tiranos.
Quem se arroga o direito de falar em nome de minorias armadas como se estivesse falando do povo? Emires, ditadores e tiranos. E nem faltou empunhar armas, já que simbolicamente ele insiste em fazer suas coreografias com o polegar e o indicador.
E há os que insistem em colocar no mesmo patamar pessoas diferentes. Uma figura histórica, que presidiu esse país e se submeteu a mais arbitrária das prisões, impedido de concorrer na eleição de 2018 é recorrentemente colocado como semelhante a um político notoriamente suspeito, se não de enriquecimento ilícito por rachadinhas, certamente por sua agenda pública de violência e desrespeito à pluralidade. E para não misturar os assuntos, e ficar desfiando sobre a miopia alheia, faço a comparação simplesmente para lembrar que o Brasil já teve exemplos de presidentes democráticos. O que agora ocupa o cargo certamente está bem longe disso. Sua postura autoritária, preconceituosa e cínica lembra a falta de decoro que os emires, ditadores e tiranos têm quando falam para os seus. As leis de nosso país determinam o destino para quem faz a defesa desse tipo de atitude. Elas deveriam ter sido usadas a muito tempo.
De modo que ouvi-lo arregimentar pessoas em torno de sua causa autocrática é chegar ao paroxismo. Dói, fere, convulsiona quem aprendeu a escutar a linguagem da democracia. E só o defende e se emociona quem é nostálgico o suficiente para desejar que o Brasil volte a ter tiranos, ditadores ou mesmo passe a ter um emir no poder.
O país não pode mais tolerar tanto arbítrio. Há gente MORRENDO de fome, de pobreza e do vírus. Gente MORRENDO, e é pouco repetir e escrever em caixa alta. Já é tarde demais. Já foi jair, antes tarde, do que muito tarde. A última vez que esperamos, os militares resolveram brincar de suspender direitos e colocar o país numa noite profunda, mais ou menos como emires, ditadores e tiranos.
Jean D. Soares é doutor em filosofia e desenvolve projetos de convivência em espaços públicos.
Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN
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