4 de junho de 2026

Efeito Heisenberg da mídia destrói futebol brasileiro, por Wilson Ferreira

 

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Depois de um ano do histórico vexame de 7 X 1 contra a Alemanha na Copa do Mundo o cenário do futebol brasileiro é de decadência técnica e financeira com um ex-presidente da CBF preso pelo FBI, estádios vazios em um campeonato longo e desinteressante sob o rígido controle do monopólio midiático das Organizações Globo. A imposição de datas, horários dos jogos, fórmulas de campeonatos de acordo com os interesses comerciais da emissora é apenas a superfície da questão. Mais do que isso, a própria transformação do futebol brasileiro à imagem e semelhança da linguagem do telejornalismo da TV Globo está destruindo a qualidade do próprio produto que ela pretende vender. É o chamado “Efeito Heisenberg”, efeito midiático das coberturas extensivas onde as mídias não retratam mais realidades, mas a si mesmas e o impacto delas sobre os fatos.

Nesses últimos dias a grande mídia nos lembrou por matérias especiais que há um ano o futebol brasileiro sofreu uma das suas maiores humilhações: a derrota de 7 X 1 contra a Alemanha em uma edição da Copa do Mundo realizada no próprio País. Um ano depois, temos um ex-presidente da CBF preso pelo FBI na Suíça à espera de extradição, um campeonato brasileiro acontecendo em estádios vazios com jogos de qualidade técnica em rápido declínio e a progressiva queda de audiência dos jogos televisionados pela TV Globo.

Esse blog que lida, entre outros temas, com as conexões entre semiótica e sincromisticismo, sabe que quando eventos se tornam bizarros ou anômalos como a acachapante goleada de 7 X 1 deixam de ser meros eventos para tornarem-se sintomas. Naquela oportunidade, o Cinegnose encontrou dois fatores extra-campo que explicariam a anomalia: o chamado “Efeito Heisenberg” midiático e a condição esquizofrênica da grande mídia – clique aqui.

A condição esquizofrênica da grande mídia pode ser resumida da seguinte maneira: tentava faturar publicitariamente com a Copa do Mundo e ao mesmo tempo, na condição de principal instrumento de oposição ao Governo Federal, esperava uma “bala de prata” que inviabilizasse ou desmoralizasse o evento.

 

Mas o fator de longo prazo é o Efeito Heisenberg, conceito criado por Neal Glaber para designar o efeito secundário das coberturas midiáticas: se o principal efeito da onipresença das mídias é transformar quase tudo que é noticiado em entretenimento, o efeito secundário é forçar quase tudo a se transformar em entretenimento para atrair a atenção da mídia – sobre isso clique aqui.

O termo “Efeito Heisenberg” é uma referência ao princípio da incerteza da mecânica quântica de Werner Heisenberg (1901-1976): quando se tenta estudar uma partícula atômica, a medição da posição necessariamente perturba o momentum de uma partícula. Em outras palavras, Heisenberg queria dizer que você não pode observar uma coisa sem influenciá-la. De forma análoga, a mídia não consegue cobrir um evento sem também influenciá-lo.

As mídias não estão mais relatando o que as pessoas fazem. Estão relatando o que elas fazem para chamar a atenção das mídias. Na medida em que os fatos acontecem para as mídias, elas estão cada vez mais cobrindo a si mesmas e o impacto sobre os fatos.

Efeito Heisenberg no esporte

O semiólogo italiano Umberto Eco já havia observado o início desse fenômeno no futebol – o fato de saber que será transmitido influencia na sua preparação: a passagem da velha bola de couro cru para a bola televisiva xadrez ou a troca dos uniformes por motivos cromáticos perceptivos seriam alguns exemplos – leia ECO, Umberto, “Tevê: A Transparência Perdida” In: Viagens na Irrealidade Cotidiana, R. Janeiro: Nova Fronteira, 1984 .

Mas com o passar do tempo, as transmissões esportivas extensivas das TVs cobraram um alto preço para o esporte: de jornadas esportivas ou realidades extra-televisivas passaram a ser conteúdos gerados pelas próprias emissoras de TV. Em outras palavras, as mídias não se contentaram mais em apenas transmitir. Passaram a ser produtoras ou donas dos eventos para que estes se ajustassem ao timing dos negócios.

 

Veja por exemplo o caso do tênis. Esporte cujas origens são pastorais e contemplativas, teve suas regras alteradas para se adequar à sintaxe televisiva com a adoção do tie braker para a diminuição do tempo dos games e a punição para o jogador que excede o tempo limite entre os pontos. Ou seja, encaixar as partidas ao tempo limitado da grade televisiva.

Mas no caso do futebol brasileiro o efeito Heisenberg torna-se mais deletério com o fator do monopólio televisivo da Globo – a emissora detém a exclusividade nos direitos de transmissão nas TVs aberta, fechada, pay-per-view, comercialização de placas de publicidade, telefonia celular, promoções atreladas ao Brasileirão etc. Isso sem falar no vôlei (o departamento de Marketing da emissora comercializa contratos de patrocínio) e no basquete – a Globo é sócia do Novo Basquete Brasil (NBB).

A imposição de datas, horários dos jogos, fórmulas de campeonatos de acordo com os interesses comerciais da emissora é apenas a superfície da questão. Mais do que isso, a própria transformação do futebol brasileiro à imagem e semelhança da sintaxe televisiva global está destruindo a qualidade do produto de entretenimento que ela pretende vender. 

A goleada imposta pelo Barcelona ao Santos na final do Mundial de Clubes em 2011 (4×0) foi apenas um sinal dessa decadência técnica cujo ápice seria o vexame da Copa do Mundo. Saudado como a renovação do futebol brasileiro com Neymar e Ganso e comandado pelo técnico Muricy Ramalho que supostamente estaria seguindo os passos de Telê Santana, o Santos caiu apático, sem luta e sem jogar futebol.

Goleada do Barcelona no Santos em 2011: um sinal do que aconteceria na Copa do Mundo

Efeito Heisenberg e a decadência técnica do futebol

Em primeiro lugar, o Efeito Heisenberg transforma o futebol em entretenimento. E pela linguagem tautista da TV Globo significa enquadrar o futebol a um jornalismo esportivo que vive sempre em busca de novos personagens. A promoção de novos “craques” ou jogadores exóticos, frasistas ou com ótimo rendimento nas entrevistas surge com a mesma velocidade com que empresários querem vender jogadores para a Europa – e a promoção televisiva de novos “personagens” vem a calhar para incrementar visibilidade ao atleta.

A consciência que o jogador desenvolve de que atua em um ambiente altamente midiatizado abandonou a época folclórica das comemorações de gol engraçadas para atrair as câmeras: agora os jogadores temem o drible e a posse da bola – um possível desarme ou lance fracassado será repercutido em slow motion

Torna-se imperativo passar rapidamente a bola, dar chutões, fazer ligações direta da defesa para o ataque. Velhos meio campistas como Gerson, Ailton Lira ou Rivelino que detinham a bola e pensavam no jogo, dá lugar para a correria de jogadores que querem se desfazer da bola o mais rápido possível.

Por isso jogar futebol para a TV passa a ser um espetáculo de chuveirinhos, chutões, carrinhos e um show de reclamações contra árbitros e constantes trejeitos de “não deu” a cada chute em direção ao gol que lança a bola em órbita – afinal os jogadores sabem que suas fisionomias serão vistas em close.

 

Wilson Ferreira

Wilson Roberto Vieira Ferreira – Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no “Dicionário de Comunicação” pela editora Paulus, e dos livros “O Caos Semiótico” e “Cinegnose” pela Editora Livrus.

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4 Comentários
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  1. Celeida Maria Manna

    12 de julho de 2015 9:44 pm

    Excelente análise! 

    Excelente análise! 

  2. Darcio Vieira

    12 de julho de 2015 9:54 pm

    Formulismo

    Acredito que a fórmula seja a ideal. Pelo menos, ela faz com que as equipes saibam quantos jogos irão fazer. Há eras, os principais campeonatos do Mundo são todos contra todos e em pontos corridos. O que não adianta é a equipe querer gastar como um Real Madrid tendo orçamento de Valladolid. Não adianta querer pagar salário de Cristiano Ronaldo sem poder pagar.

     

    A Tv é importante? É. Mas cabe aos clubes valorizarem seus produtos. E trabalhar para que seus estádios fiquem cheios.  Dá trabalho, demanda tempo, mas é possível

  3. edsontadeu

    12 de julho de 2015 11:18 pm

    nao  tenho nada contra os

    nao  tenho nada contra os pontos  corridos, so acho que  deveria  se aumentar o  numero  de times  ja que  Sao Paulo e  RJ  sempre´  term  mais times  no campeonato brasileiro, Ressalvo apenas que  tanto a FIFA COMO  A  REDE GLOBO VEM FAZENDO  DE TUDO  PARA DESTRUIR  NOSSO FUTEBOL,  O  HORARIO QUE  A  GLOBO  PASSOU A  EXIGIR  AS PARTUIDAS  TEM CONTRIBUIDO PARA ISSO  PORQUE MUITA  GENTE  vem  evitando  ir  aos  estadios  ja que no dia  seguinte tem que  trabalhar  e nao é facil sair  de um estadio 12.30  1 hora da manha  e no dia  seguinte  pegar no batente. Ja a  FIFA  alem de  sempre  baixar  a posiçao  da  seleçao brasileira   contribui  significativamentge  por  baixo do pano com os  times da europa. NA  COPA  de  2014  fizeram uma  pessima  abertura  do mundial, mais  ja  na   abertura  da  EUROCOPA, eu vi  a  abertura  e  foi coisa  muito  bonita  entao presumo que o dinheiro  que eles iriam  gastar aqui para a  abertura da copa   jogaram la nao eurocopa. 

  4. rgudes

    13 de julho de 2015 3:30 pm

    Mais um tantinho sobre o poder de destruição da mídia

    Ontem, domingo, transmissão da ginástica artística feminina no SporTV.

    Um negócio completamente bizarro. Na maior parte do tempo, ignoraram a geração oficial e simplesmente abriram mão de transmitir o evento. A coisa foi reduzida a uma exibição solo da equipe brasileira e uma interminável cobertura de bastidores. Na maior parte do tempo, a estúpida câmera exclusiva do SporTV mostrava as atletas brasileiras paradas, esperando, olhando para algum lugar – suponho que fosse onde rolava a tal da ginástica artística, praticada por atletas estrangeiras censuradas pela transmissão global (por completa irrelevância, obviamente).

    A coisa é estúpida e doente. É estúpida porque o resultado não faz sentido. Não apresenta a competição (não existem antecedentes, os competidores não tem história, os adversários são irrelevantes), não permite que se entenda qualquer padrão de avaliação, já que não há possibilidade de comparação.

    É a equipe brasileira competindo no vácuo, segundo a perspectiva doentia do SporTV. Ao invés de apresentar um evento esportivo interessante, uma competição de alto nível, o que eu tenho certeza de que (para além da câmera do SporTV) aconteceu, o que apresentaram foi um pesadelo de solidão e angústia. Ao invés da competição esportiva, a marcação cerrada nas meninas brasileiras. Ao invés de ginástica, expressões faciais, caras e bocas de apreensão, insegurança, expectativa e, óbvio, entrevistas cheias de cobranças, pressão psicológica, terrorzinho básico pra produzir qualquer descontrole emocional (desta perspectiva egocêntrica, o único adversário verdadeiro). Nada a ver com esporte. Tudo a ver com a globo e o seu poder de destruição.

    Pois imagina na Olimpíada ..

    .
    [ Retrospectivamente, dá pra reconhecer como são sofisticadas as transmissões internacionais de ginástica artística que (graças ao bom Deus, sem a câmera do SporTV) fazem sentido. Quando há uma narrativa, quando se busca um equilíbrio em apresentar os diversos competidores e ao mesmo tempo as performances exemplares são reconhecidas e valorizadas para além (muito além) deste bairrismo golesmento, sentimentalista e vagabundo. ]
     

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