Ataque ao CrediAmigo
por Jorge Alexandre Neves
Era janeiro de 2003, eu estava em uma barraca na praia da gamela, no município de Sirinhaém-PE. Enquanto tomava uma cerveja e beliscava umas agulhinhas fritas, observei a chegada de um carro do Banco do Nordeste (BNB). Um jovem muito bem vestido em trajes sociais desceu do carro e dirigiu-se ao dono da barraca. Conversaram por alguns minutos e o jovem bancário se retirou, pisando, mais uma vez, com seus lustrosos sapatos de couro sobre as areias brancas e quentes das praias do litoral sul pernambucano. Aquela imagem toda não combinava.
Visto que já o conhecia há bastante tempo, me levantei e fui conversar com o dono da barraca, buscando saber o que queria o rapaz do BNB. Ele me disse que não havia entendido nem metade do que o rapaz falara, mas que se tratava de oferta de empréstimo por parte do banco. O que eu acabara de ver era um tecnocrata do BNB – provavelmente, um funcionário concursado – oferecendo empréstimos do CrediAmigo.
Ao contrário de outros países da América Latina, como a Bolívia e o México, o Brasil não tem tradição em microcrédito. De modo geral, as tentativas de fazê-lo, por parte de bancos públicos brasileiros, fracassaram. Todavia, o CrediAmigo terminou conseguindo tornar-se um caso de grande sucesso. Os economistas que analisaram o CrediAmigo e constataram seu êxito (1) não conseguiram explicar as causas do seu sucesso. Coube a nós (2), sociólogos, fazer uma análise organizacional do Programa e entender por que houvera superado a tradição nacional de fracassos nas iniciativas públicas de microcrédito.
A razão do sucesso do CrediAmigo está, justamente, em algo que aconteceu logo depois da cena que testemunhei na praia da gamela. Justamente no ano de 2003, o BNB iniciou uma parceria com o Instituto Nordeste e Cidadania (INEC), uma OSCIP que conseguiu criar um modelo organizacional extremamente inovador para os padrões brasileiros e, com ele, fazer do CrediAmigo um grande sucesso.
O segredo da parceria do BNB com o INEC está no recrutamento, treinamento e gestão de agentes de crédito das comunidades que são as beneficiárias prioritárias do Programa. A partir do início da parceria do BNB com o INEC, não mais houve aquelas cenas estranhas de um jovem tecnocrata de um banco público de investimento, com seus sapatos sociais de couro pisando nas areias de praia do litoral nordestino. Os agentes de crédito passaram a ser indivíduos do mesmo estrato social, residindo nas mesmas comunidades e com o mesmo tipo de linguagem que os potenciais beneficiários do Programa.
A comunicação entre burocracias públicas e a sociedade civil tornou-se um problema clássico da análise organizacional e do estudo de políticas públicas. Peter Evans se debruçou sobre esse problema para entender como processos de desenvolvimento socioeconômico podem ser facilitados justamente por uma boa sinergia entre as burocracias públicas e a sociedade civil. Em um de seus livros (3), há uma série de análises de casos, inclusive um estudo da ganhadora do Prêmio Nobel Economia de 2009, a cientista social Elinor Ostrom, sobre um Programa brasileiro de autoconstrução desenvolvido em Recife-PE, na década de 1980. O êxito do CrediAmigo vem da capacidade que a parceria com o INEC propiciou para a geração da sinergia identificada nos estudos do livro de Evans. Assim, o CrediAmigo permitiu que milhões de brasileiros – principalmente de estados da região Nordeste, mas não só desses, visto que o BNB também atua em MG e ES – saíssem da pobreza. Com o apoio do CrediAmigo – que, é primaz ressaltar, é superavitário e tem baixíssima taxa de inadimplência – centenas de milhares (talvez até milhões) de famílias não precisaram do Bolsa Família (PBF) ou conseguiram se desvincular dele. O CrediAmigo foi a mais eficaz “porta de saída” do PBF que o Brasil já encontrou. Ele é um grande meio de incorporação do pobres ao “capitalismo brasileiro”, coisa que os ditos liberais tupiniquins dizem apoiar, mas, na prática, temem como crianças assustadas. No mundo real, o empreendedorismo popular é visto como uma ameaça por parte das elites nacionais.
Portanto, não é de causar qualquer surpresa o fato de que o ódio aos pobres no atual governo o tenha levado a, agora, partir para a destruição do CrediAmigo. Para além de nojo e medo dos pobres, há ainda interesses políticos do centrão e interesses econômicos dos bancos privados por trás das recentes ações do governo Bolsonaro que irão destruir do CrediAmigo, através do rompimento da parceria com o INEC. A desculpa não poderia ser mais cínica: a presidenta do INEC seria filiada ao PT (4). Temos, agora, mais uma conquista institucional sendo destruída, mais um trabalho de reconstrução do país a ser feito pelo primeiro governo pós-Bolsonaro.
- 1. Para uma análise sobre o extraordinário sucesso do CrediAmigo, ver o livro organizado pelo economista Marcelo Neri: https://books.google.com.br/books?id=whGHoNkqHpgC&hl=pt-BR.
- 2. Ver: https://www.scielo.br/j/rsocp/a/YgsNw3gz9hywSmghfJgtyvk/?lang=pt&format=pdf.
- 3. Ver: https://books.google.com.br/books/about/State_society_Synergy.html?id=L5pmAAAAMAAJ&redir_esc=y.
- 4. Perceba-se que as razões para o rompimento da parceria não está em alguma descoberta de mal feitos reportada por algum órgão de controle como a CGU e o TCU. Nada de concreto há contra a parceria.
Jorge Alexandre Barbosa Neves – Ph.D, University of Wisconsin – Madison, 1997. Pesquisador PQ do CNPq. Pesquisador Visitante University of Texas – Austin. Professor Titular do Departamento de Sociologia – UFMG – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas
Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN
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