De homem no bar à homem debaixo do sol
Eu preciso formalizar o quanto antes isso, porque se por um momento lá na frente eu pensar em voltar a encher a cara vou logo lembrar desse texto que estampei à vista de todos e de mim mesmo. Porquanto se tem uma coisa que odeio da parte das outros é que se contradigam. Odeio mesmo. Odeio contradição ao ponto de eu me esforçar para ser um cara de intenções unilineares, tentando ao máximo me afastar dos dilemas e da ambiguidade. Não gostem de mim, falem mal de mim, mas que saibam das minhas intenções, saibam ao menos que não beiro a hipocrisia. E não é admirável a pessoa convicta do caminho que trilha? Seja um caminho de trevas escuro e malévolo, tudo bem, mas ao menos há ali um foco, uma energia, a concretização da alma de um ser um humano em seu máximo, marcando sua existência aqui com um dispender disciplinado e regrado de uma ideologia. Isso é lindo demais. Isso é um tesão. É sempre preferível que o caminho seja iluminado, claro, porém bem e mal é um assunto subjetivo e relativo do qual já tratei em outros textos, não cabe me prolongar nele por ora. Por ora cabe, sim, estilhaçar essa maldita garrafa de vodka na parede.
Digam o que quiserem, mas o que tenho percebido é que tem sido a coisa mais banal o enaltecimento de vícios. O mundo tem tratado com trivialidade aquilo que faz mal pra você. Isso é aqui não é um texto religioso, lhe imploro pra que não seja acometido por esse preconceito tão precocemente. Entendam “o mundo” por mercado e sociedade, afastem de vossas cabeças “mundo” no sentido de força maligna e opressora; o mundo como mundo, uma organização tendente a pender para a organização e ordem de seu próprio jeito.
O mundo, meus caros, lhe põem em submissão, monta em vocês no momento em que ele te oferece lixo como alimento pro espírito e ração pra carne. Hoje mesmo voltando de um breve passeio na Av. Paulista optei por descer pro meu bairro pela via menos transitada: Alameda Santos. Ali andei com mais calma tendo que desviar de outros transeuntes em raras ocasiões, e, estando eu sozinho, o caminho mais inóspito me apaziguou e muito, me apaziguou ainda mais por lembrar que o caminho quem escolhia era tão somente eu, um “eu” que se encontrava sóbrio naquele momento. Há duas semanas eu andava ali em aflição: meu amigo havia sumido, eram 4 da matina, um medo de estar sendo perseguido me perfilava as entranhas, meu celular todo arrebentado assim como mãos, cotovelos e um joelho também; minha paz havia sido tomada. Tudo por culpa do álcool. Muita gente bebe e não causa o mesmo caos que eu, sei lá, de repente é coisa minha, é um sintoma meu do líquido etílico no meu metabolismo e psique. Só sei que há duas semanas, naquela exata localidade, eu tremia em medo de estar sendo procurado por homens que haviam dado o bote pra cima de mim. Motivo: se eu soubesse lhes diria, mas eu não o sei pois pouco me recordo dessa noite.
O fato é que, outrora embriagado e em descontrole total da minha vida naquela mesma Alameda Santos, agora eu me encontrava em serenidade plena. A certeza de que a decisão de largar a bebida era definitiva ia apenas crescendo conforme o momento de controle e gratidão de estar abstêmio crescia em mim a cada passo que dava. E crescia sem parar. Música aos ouvidos, refletindo brevemente ao olhar pra estabelecimentos e restaurantes, pensando na vida, por onde estive física e mentalmente. É o tipo de meditação que só nós mesmos sabemos como se dá, é um estado único de introspecção; estando você com muito tempo à disposição, a sensação se alarga, que era o meu caso.
Percorria a Alameda até a altura que conviesse descer à direita. Antes de lá chegar, avistei um vultoso lugar iluminado – pensei comigo: outro restaurante. De fato, era o The Fifties. Alguns detalhes me chamaram a atenção ali: a garota sozinha e atraente que aguardava sua companhia chegar, a garçonete host em prontidão logo na entrada esperando qualquer cliente lhe pedir “uma mesa para 2, por favor”, e o bar para além dessa garçonete e de tudo no restaurante, ao fundo do cenário. Um bar iluminado, todos os tipos de bebidas, imaginei, um bar americano com cadeiras ao seu redor, um barman solícito, música aprazível tocando. Toda essa organização te empurrando a sensação de que, ok, tudo bem se você encher a cara aqui. Tá rolando um som bacana, tudo limpo, chique, quem tá te servindo te serve de boa vontade e quer até trocar um lero contigo. Então, oras, qual o problema de por pra dentro uns tragos de lixo etílico? Nenhum.
Tamanha é a armadilha, ao menos pra mim, ali que nunca havia notado como ela se dava até então. Beber é bom enquanto você acha que não precisa de dinheiro pra outras coisas senão praquilo. Beber é bom enquanto você está usando aquilo como fuga da solidão e do ócio da vida e de algo melhor pra fazer. Beber é bom enquanto veículo de socialização com outras pessoas que estão tão perdidas quanto você. Beber é bom enquanto o estado de euforia e alegria perduram. Beber é bom enquanto o “enquanto” dura. Meu amigo, te falar que esse “enquanto” é tão efêmero quanto, sei lá, a vida de um mosquito (?). O ponto é que logo a depressão te bate, a ressaca te bate, e um leve pressentimento de:” putz, será que valeu a pena beber ontem? Veio algo em troca da ressaca moral? O fato de eu acordar com a pessoa que eu queria na festa fez isso valer a pena? O dinheiro foi bem gasto? Bem, não sei se balada e bar me fazem lá tão bem, talvez seja a hora de parar e dar um tempo pra essas noitadas.” Pelo menos comigo era essa cadência do raciocínio. Eventualmente eu esquecia dos resultados da bebedeira e logo me programava pra uma outra noitada – o ser humano. Eu ia comparando os prós e contras, e em defesa dos contras eu tinha várias pessoas de modelo que faziam a mesma coisa e aparentemente estavam felizes. Felizes? As aparências enganam. Só podem enganar. Pelo menos enganaram a mim, porque eu estava me fazendo de tonto até então achando que se o mundo legalizou a bebida e isso é bem aceito socialmente logo beber é o menor dos males.
Depois que refleti sobre isso, questionei seriamente meu vício. Esse questionamento começou há um tempo, há uns anos; o resultado só me veio agora. Eu optei pela via fácil por tempo demais. Beber é sempre uma saída quando se está no meio de todos, tanto quanto se está sozinho. Beber havia se tornado a motivação de quase tudo. Beber pra fazer loucura, beber pra pegar mulher, beber pra se divertir, beber como escape da depressão que me sobrevinha depois 3x pior, beber por beber, beber pra experimentar, beber pra impressionar. Beber pra descontrair. Beber.
Beber é duplamente uma perda de tempo, conclui: você perde o dia em que você bebe e dependendo da quantia ingerida você perde também o dia seguinte em ressaca, corpo ressecado implorando por “água, pelo amor de Deus”, cabeça latejando como se ali tivesse se instalado da noite pro dia uma construção com um time de britadeiras eficientes em te dar uma dor de cabeça e péssimo pra edificar sua pessoa, e muitas vezes a vergonha íntima de alguma bosta/gafe cometida por você ou por quem quer que estivesse com você. Eu falei que é duplamente umaperda de tempo, mas pensando melhor podíamos acrescer uns multiplicadores ali.
Lógico que, isso é só meu ponto de vista. Não sei o seu, mas o meu é esse. Cansei de engolir essa bosta que todo mundo fala que é bacana. Cansei de pessoas batendo nas minhas costas e falando que tenho que aprender a beber. Cansei de sugestões erradas pra solução dos meus problemas. Cada um é único em seus problemas desde o perfil fisiológico até o psicológico, e entendi por bem que a melhor saída é parar de beber. Você? Eu não sei você. Tudo que sei é que farei isso por mim enquanto que esse texto fiz pra você, você que se encontra em dúvida quanto a um vício insanável até então. Minha dica é: questione desde já seu vício, pois uma vez que ele começa a fazer parte de você, se livrar dele se torna um problema sem solução a princípio, de tal maneira que a desmotivação te acomete tantas vezes que você vai cair e levantar como se não houvesse amanhã. Mas tantas vezes e tantas vezes que vai achar que não tem solução. Até o dia em que uma epifania lhe vem, e no dia anterior seu primo fala com você e sentencia você e seu corpo no processo em que vocês tavam como réus. Me sentenciou a encontrar custe o que custar algo pra substituir o álcool. Ele até falou de cigarro. Segundo ele o corpo é um conglomerado de compostos químicos que funciona a partir de outros estímulos químicos. Se você tira um estímulo, basta colocar outro no lugar que engane o estímulo prévio. E assim se engana o organismo no melhor sentido possível do verbo “enganar”. Passei o dia me enganando, mastigando um palito de dente. Enganar nunca foi tão bom quanto hoje.
A saída vem para todos que a procuram incansavelmente a resposta para seus labirintos mentais. A prisão é inteiramente mental, cabe a nós acharmos a alavanca que desce a ponte para o outro lado do rio, o outro lado em que se encontram pessoas que querem se achar. Estou aqui, meio-achado, meio-perdido, mas antes assim do que inteiramente perdido. Eu diria que o primeiro passo pra se livrar de venenos seria ir até um hospital, lá eles tem a cura; então se você quer se ver curado do seu vício, cogite andar (também) com quem é são das paradas que você usa/faz. Começar é o mais importante, mesmo que seja ridículo no começo ficar com um pé no hospital e outro no ninho de cobras. O importante, afinal, é começar.
Não estilhacei a garrafa de vodka. Isso seria muito óbvio e previsível. Tirei o rótulo dela, esvaziei seu conteúdo na pia e o enchi de água. E assim quero fazer com o resto da minha vida.
Eu encontrei um caminho que achei que nunca iria encontrar. Perseverem até o fim dos dias!
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