4 de junho de 2026

Um 2022 melhor para o corpo e a alma, por Aracy Balbani

Investigar e responsabilizar as pessoas que cometeram crimes durante a pandemia é essencial.
Agência Brasil

Um 2022 melhor para o corpo e a alma, por Aracy Balbani

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Muitas pessoas se angustiam com a pandemia que parece um pesadelo interminável. Estão inconformadas com que, no país, a vida humana seja tão desrespeitada, a conjuntura política se rebaixe a farsa, o ambiente e a economia sejam devastados numa velocidade incrível.

Possivelmente a cena mais simbólica do sentimento do povo brasileiro neste ano foi a comoção de João Gleverson de Oliveira, intérprete de LIBRAS para a TV Senado, durante o relato de Giovanna Gomes Mendes da Silva à CPI. A jovem de 19 anos ficaria com a guarda da irmã de 10 anos, pois se tornaram órfãs por causa da COVID-19. O depoimento ocorreu em 18 de outubro, marcando o Dia do Médico mais triste de todos. O vídeo traduz a dor coletiva profunda para a compreensão pela mente e pelo coração da humanidade.

Como antídoto para o clima pesado de divisão social, desolação e incerteza com que 2021 termina no mundo todo, um programa de mídia estatal europeia propôs uma reflexão: como podemos reverter tanto sofrimento em algo positivo para o futuro?

O debate foi morno. Segundo um psiquiatra europeu, o primeiro passo é reconhecer o que fizemos de errado, para sairmos da crise mais fortes. Do contrário, todo o sofrimento será inútil.

Uma pesquisadora de Bioética acredita que nosso destino passa pela definição de nossas prioridades, da escolha de aonde queremos chegar, fazendo o quê e a que preço (Provocar mortes? Causar destruição ambiental?). Enfatiza que essa escolha precisa ser coletiva. Ela sugere valorizar pessoas competentes, honestas e confiáveis e rechaçar quem faz promessas ambiciosas demais.

Duas professoras universitárias, das áreas de Medicina e Economia, destacam que houve aspectos positivos no enfrentamento global da crise sanitária e econômica. Surgiram novos empreendimentos. A tecnologia foi usada para viabilizar teletrabalho e outras adaptações que reduziram a emissão de poluentes. A ciência desenvolveu vacinas muito rapidamente, as quais podem ser modificadas conforme as mutações do novo coronavírus e servir de plataforma para imunizantes contra outros agentes infecciosos.

Tudo isso soa muito conveniente na teoria. Mas, para construir um futuro melhor na vida real, no Brasil há obstáculos maiores e mais numerosos a serem vencidos. A começar pela garantia de comida no prato, vacina no braço das crianças e emprego decente (não trabalho análogo à escravidão!) para os adultos. Não cabe visão romântica do cenário em que estamos mergulhados.

É preciso resistir com a máxima dignidade possível para honrar a memória das vítimas fatais – as da pandemia e também as da fome, do abuso de autoridade e da violência –, e para merecer o respeito dos que ainda padecem desses males. Investigar e responsabilizar as pessoas que cometeram crimes durante a pandemia é essencial.

Temos muitos intelectuais, pesquisadores e profissionais de todas as áreas que são competentes, honestos e dedicados. Temos multidões que repudiam a mentira, a corrupção e a hipocrisia não somente na teoria, mas na prática. Temos gente que não atropela a ciência e a ética para ganhar dinheiro ou eleições. Afinal, riqueza ou poder sem ética não são sinais de sabedoria. São ostentação de desumanidade mesmo.

Temos pessoas corajosas que saem a público para defender a democracia e praticar a solidariedade. Elas sabem que esse é um caminho sem volta, sujeito à discriminação e às tentativas de intimidação. Mas não se curvam. Estão determinadas a chegar a 2022 e ir adiante defendendo vida digna para todos.

Um dado otimista concreto é que a venda de livros cresceu 50% no Brasil no primeiro semestre de 2021, apesar da catástrofe econômica e do desemprego. Divulgou-se que foram comercializados mais de 28 milhões de livros nesse período.

Para o escritor Victor Hugo, “Ler é beber e comer. O espírito que não lê emagrece como o corpo que não come”. Vê-se que os brasileiros estão ocupados em nutrir não apenas o corpo – o próprio e o dos irmãos e irmãs que passam fome -, mas também o intelecto e o espírito.

Na contramão, o ocupante da Presidência da República declarou recentemente que não lê um livro há três anos. Para não figurar na História como caso de inanição presidencial, talvez ele devesse considerar trocar alguns passeios de lancha ou moto pela leitura das obras de Victor Hugo.

Para quem pretende ser Presidente de verdade, ler “Um Inimigo do Povo”, peça do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen que tem similaridade assustadora com a tragédia da pandemia no Brasil, já seria um bom aperitivo.

Aracy P. S. Balbani é médica.

Esse texto expressa a opinião pessoal da autora.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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