Sugerido por Alfeu
Por Celso A. Uequed Pitol

Gore Vidal dizia que os Estados Unidos têm um só partido, o Partido da Propriedade, com duas alas à direita: a republicana — mais estúpida, mais rígida, mais cegamente doutrinária quanto ao capitalismo liberal — e a democrata — mais “bonitinha”, um pouco mais corrupta e mais disposta a fazer alguns ajustes diante das demandas de pobres, negros e anti-imperialistas. Daí a dificuldade de muitos em aplicar ao contexto americano a distinção, frequente no resto do Ocidente, entre direita e esquerda: para Vidal, e para muitos outros, não há esquerda nos EUA. Pelo menos não uma esquerda com condições de vencer eleições.
O insuspeito Paul Krugman, em artigo recente, enfrenta esta questão e garante: a situação está mudando. Para ele, os Estados Unidos estão apresentando um nível de polarização política que desde a Guerra Civil não se vê: há, portanto, uma fissura no Partido da Propriedade. Os projetos de cada um, democratas e republicanos, estão muito bem delineados e a oposição entre eles é bem clara: enquanto os democratas tentarão expandir os programas sociais, a intervenção estatal na economia e reduzir gastos bélicos, os Republicanos farão todo o contrário. Ou seja, o Partido Democrata cada vez mais se consolida como uma típica alternativa da esquerda aos moldes europeus. Já os Republicanos, bem — estão cada vez mais Republicanos.
Uma das marcas deste novo momento é a candidatura de Bernie Sanders às prévias do Partido Democrata, lançada nesta terça-feira, dia 26. Senador pelo Estado de Vermont, ex-prefeito de Burlington (capital daquele Estado), este nova-iorquino de 74 anos, nascido e criado nas durezas do Brooklyn, tem antiga e ampla identificação com movimentos de esquerda e partidos não-alinhados, como o Liberty Union. Atualmente, Sanders é oficialmente um senador independente — o que é permitido nos EUA, ao contrário daqui — mas alinhou-se com os democratas para concorrer, recebendo apoio de ninguém menos do que o grupo Occupy Wall Street e do partido Democratic Socialists of America, que apresenta a inusitada condição de ser americano e ter ligações com a Internacional Socialista. Uma inusitada condição que Sanders partilha: é um autodenominado socialista, que apoia fortemente a criação de cooperativas lideradas por trabalhadores, a regulação da mídia e a criação de um sistema público de educação superior e de saúde, além de simpatizar com o tradicional modelo escandinavo de social-democracia, que está em perigo na própria Escandinávia.
Um sujeito desses atuando no coração mundial do capitalismo tem, é claro, muitos inimigos. E Sanders elegeu, ele próprio, mais um: a desigualdade. “O que temos visto” — diz ele — “é que, enquanto as pessoas trabalham mais horas por dia por salários cada vez mais baixos, temos visto um grande aumento de renda e desigualdade de riqueza, que agora está atingindo níveis obscenos”. E vaticina, sem medo de ferir suscetibilidades: “Este país não pertence apenas a um grupinho de bilionários”.
É justamente a crescente desigualdade de renda que, segundo a análise de Krugman, está causando esta polarização crescente na política americana: à medida que os ricos tornam-se mais ricos, a sua tendência natural é rumar para a direita do espectro político, eliminando concessões a qualquer resquício de sensibilidade social que poderiam alimentar. Além disso, as recentes medidas de Obama para regular Wall Street diante da crise mundial afastaram de vez os grandes investidores do Partido Democrata (de quem nunca foram propriamente muito fãs, é bom que se diga) e obrigaram uma migração para o lado dos republicanos. Aos democratas restou aproximar-se da base do eleitorado que vem perdendo renda em comparação com os ricos. Os americanos, aponta Krugman, pela primeira vez em muitos anos terão uma verdadeira escolha a fazer na eleição do ano que vem.
A candidatura de Sanders é fruto deste momento. É claro que ele entra na disputa como azarão: do outro lado estará nada menos do que Hillary Clinton, que dispensa apresentações e tem a grande vantagem de transitar um pouco melhor entre investidores e megaempresários, um tanto descontentes com os obamismos. Sua mera presença, contudo, já ajuda a aglutinar a esquerda em torno de uma figura forte, com poder político e de negociação. Talvez o Partido da Propriedade de Vidal ainda não tenha a sua dissidência. Mas parece certo que está finalmente formada a sua ala esquerda.
Ingrid Mariana
4 de junho de 2015 7:41 pmSerá?
Será que mudaria a politica externa? Não sei. Pelo menos seria um alívio para a maioria da população americana que está esmagada pelo financismo.
Luís Henrique Donadio
4 de junho de 2015 7:45 pmVai perder disparado para
Vai perder disparado para Hillary Clinton, que de socialista não tem nada. E se por um erro do universo ganhar e for o candidato, será arrasado por qualquer candidato que os republicanos lancem.
gabi_lisboa
4 de junho de 2015 9:59 pmEspero que nas nossas próximas eleições
também surja um Bernie Sanders para nos livrar do financismo que já toma conta até do PT.
claudia sp
4 de junho de 2015 11:08 pmnem todos estão convencidos
nem todos estão convencidos da “esquerdice” dele….
http://www.counterpunch.org/2015/06/03/why-bernie-sanders-is-a-dead-end/
Fabio SP
4 de junho de 2015 11:14 pm“Atualmente, Sanders é
“Atualmente, Sanders é oficialmente um senador independente — o que é permitido nos EUA, ao contrário daqui…”
Ué, e a Marta Suplicy???
Andre Araujo
4 de junho de 2015 11:21 pmA Marta se filiou ao PSB.
A Marta se filiou ao PSB.
Fabio SP
5 de junho de 2015 12:28 amParece que ainda não! Só
Parece que ainda não! Só disse que vai… assim como o Bernie vai disputar as primárias dos Democratas!
Marcos C. Carvalho
4 de junho de 2015 11:18 pmSem chance. Pelo lado
Sem chance. Pelo lado democrata, Hilary Clinton já se declarou totalmente solidária à AIPAC.
Andre Araujo
4 de junho de 2015 11:20 pmChance zero. Toda eleição
Chance zero. Toda eleição aparecem essas zebras, é mera curiosidade, o sistema é bipartidario, não tem pataquedista.
EmersonGSA2
5 de junho de 2015 12:15 amGore Vidal The United States Of Amnesia
Conheço o trabalho intelectual do, infelizmente, já falecido Gore Vidal; ele conhecia a elite branca polica, empresarial e financeira americana como poucos, escreveu livros excelentes sobre as entranhas do poder nos EUA.
Lá no inicio dos anos 80 já falava tudo isso que estamos vendo hoje, o poder das coorporações, da corrupção politica na Casa Branca; costumava dizer que, para que alguém pudesse estar concorrendo ao cargo de Presidente esta pessoa deveria ter se vendido pelo menos umas dez vezes.
Vou dizer uma coisa, se juntarmos todos os nosso intectuais de esquerda nos ultimos 20 anos não dão um Gore Vidal.
Se quiserem conhecer a “América” de verdade e não essa do Marketing da televisão e cinema seus livros são obrigatórios.
Existe um documentário excelenrte sobre sua vida chamado “The United States Of Amnesia”, recomendo!
rdmaestri
5 de junho de 2015 12:56 amOs USA ainda estão verdes!
O Estados Unidos ainda estão totalmente verdes para uma alternativa entre republicanos e democratas tradicionais, primeiro o sistema de escolha é baseado numa campanha extremamente cara que não permite que pré-candidatos alternativos sejam escolhidos.
Depois de escolhidos os candidatos dos dois partidos aí piora ainda mais, pois de novo a exposição dos candidatos só é feita com dinheiro privado e apoio das redes de TV e jornais.
A única forma que poderia ser eleito alguém fora do esquema é se houvesse uma figura pública muito conhecida, tanto mais liberal (adotando a notação norte-americana de liberal) ou mais conservadora, o último que chegou perto disto foi Theodore Roosevelt Jr.. Ele como candidato do Progressive Party conseguiu chegar a 27,89% dos votos, mas só foi eleito quando entrou para os republicanos.
O único candidato realmente socialista que conseguiu uma votação razoável foi o sindicalista norte-americano Eugene Victor Debs, ele conseguiu o terceiro lugar nas eleições em 1912 com 6% dos votos, que rendeu 0% das cadeiras no colégio eleitoral. depois de 1912 ele foi preso por ser contra a entrada dos USA na primeira guerra mundial, mas mesmo dentro da cadeia ele conseguiu 3,4% dos votos.
Maria Luisa
5 de junho de 2015 7:17 amCartas marcadas
Agora lembrei de House Of Cards. O que que é aquilo! As cartas ja foram escolhidas e claro que nessa grande “democracia” que são os estadunidenses, não ha possibilidades para um “socialista” ou outro outsider chegar à presidência.
Trunfim
5 de junho de 2015 1:19 pmÉ obvio que perderia
mas seria um começo. No EUA o voto não é obrigatório e as eleições são em em dia útil e fazem de tudo para dificultar o trabalhador, os mais pobres de votarem. .