5 de junho de 2026

Por um novo acordo de Bretton Woods, por Luis Nassif

Hoje em dia, qualquer sistema deverá levar em consideração os interesses da China e de outras potências econômicas de crescimento rápido.

Um dos grandes desafios contemporâneos é a reconstrução dos organismos multilaterais. A ameaça de guerra entre Rússia e Ucrânia está diretamente ligada ao enfraquecimento da ONU (Organização das Nações Unidas). É nesse contexto que a eleição de Lula ganha uma dimensão pouco percebida no país, que é o seu protagonismo mundial na defesa do multilateralismo.

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Dentro dessa lógica, um dos desafios será a tentativa de criação de um novo sistema econômico global, baseado nas lições de Bretton Woods, no pós-guerra. Ao impedir o livre fluxo de capitais e definir regras para as políticas cambiais nacionais, Bretton Woods colocou uma ordem na zorra financeira pré-guerras mundiais e permitiu um período de crescimento inédito na economia mundial.

Ex-historiador oficial do FMI, James Boughton publicou artigo recente, tentando definir o que poderia ser a nova ordem.

O planejamento da nova ordem começou em 1941, através do economistas americano Harry Dexter White, economista-chefe do Tesouro americano.

White se baseou em quatro sacadas.

1. A solução deve ser encontrada enquanto se está em crise. Em tempos mais favoráveis, há um desestímulo a acordos. Foi o que aconteceu com a Organização Mundial do Comércio. Não sendo constituída durante a guerra, levou 50 anos para ganhar forma.

2. Todos os países candidatos devem se engajar nas discussões desde o primeiro momento. Nos primeiros tempos, sob liderança de John Maynard Keynes, tentou-se um acordo bilateral entre EUA e Inglaterra. Mas White percebeu que a maioria dos países não aderiria se não participasse de todas as discussões. O desenho final recebeu a contribuição do Canadá, China, França, Índia, México e União Soviética. As lições para hoje é que só será viável uma organização em cooperação com o maior número de países.

3. Em Bretton Woods, embora moeda dominante, percebeu-se que a institucionalização do dólar como moeda universal produziria resistências. Decidiu-se, então, pelo estratagema da paridade entre dólar e ouro para acordos internacionais. Hoje em dia há uma mistura entre a hegemonia do dólar e os acordos multipolares. O FMI reconhece cinco moedas: dólares, euros, libras esterlinas, ienes e renminbi. Mesmo com a queda de participação dos EUA no comércio internacional, o dólar ainda referencia a maioria das transações. Qualquer novo sistema terá que encontrar uma maneira de resolver a desconexão, da participação desproporcional do dólar em relação ao peso dos EUA no comércio internacional.

4. Há a necessidade de cimentar o acordo em princípios sólidos. No caso de Bretton Woods, White sustentava que a liquidação dos saldos de pagamentos entre os governos nacionais deveria se tornar aberta e multilateral. Se, por exemplo, o Brasil acumulasse libras esterlinas em relação à Inglaterra, não poderia converter essas libras em dólares, para comprar exportações dos EUA. A medida foi para atender os interesses da Inglaterra.

Hoje em dia, qualquer sistema deverá levar em consideração os interesses da China e de outras potências econômicas de crescimento rápido.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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2 Comentários
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  1. Marcos Bezerra

    14 de fevereiro de 2022 9:18 am

    O GGN tornou-se minha principal referência nos debates inevitáveis com os amigos minions, a apregoar a sapiência inesgotável – e inexistente – de Paulo Guedes. Didaticamente, oferece pílulas de conhecimento econômico para quem não é do ramo.

  2. José de Almeida Bispo

    14 de fevereiro de 2022 9:57 am

    “…Ao impedir o livre fluxo de capitais e definir regras para as políticas cambiais nacionais, Bretton Woods colocou uma ordem na zorra financeira pré-guerras mundiais e permitiu um período de crescimento inédito na economia mundial.”
    Perfeito, MAS…
    Quem amarrará o guizo no pescoço do gato?
    Quem desmontará o progonismo financeiro – e o informático que esse veio se somar – que solapou o poder mundial, reduzindo lideranças a meros palhaços ou defuntos… desde John Kennedy?
    Quem, do dito sistema financeiro-informático está disposto a queimar 9,5 em cada 10 dólares de fumaça dos derivativos, especialmente, para que o planeta aterrize?

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