25 de julho de 2026

Esquerda de verdade a um passo do segundo turno na França, por Lindbergh Farias

“O programa de Mélénchon é radical e sem subterfúgios. É exatamente por falar o que as pessoas querem escutar que sua candidatura cresceu e está às portas do segundo turno. Ela fala abertamente em sair da OTAN. Afirma que um em cada quatro franceses são filhos de imigrantes e o país deve continuar de portas aberta a receber refugiados”

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Foto: Divulgação

 
Lindbergh Farias*
 
Esquerda de verdade a um passo do segundo turno na França
 
O passado recente de conciliação da esquerda tradicional está morto. É chegada a hora de abrir um novo ciclo, e no ciclo, uma guinada
 
Oratória possante e clareza programática, de quem sabe que somente uma esquerda de verdade conseguirá deter a avalanche neofascista e vencer. São estas as duas qualidades da vertiginosa ascensão do candidato da esquerda radical, Jean-Luc Mélénchon, na reta final das eleições presidenciais francesas.
 
As eleições acontecem domingo (23/04). O jornal Le Monde publicou uma pesquisa sábado (15/04). Os dados da pesquisa revelam que Mélénchon (20%), que começou a campanha em quarto lugar, arrancou em definitivo do candidato do PS, Benoît Hamon (7,5%), o espaço de candidatura competitiva de esquerda e embolou com Marine Le Pen (extrema-direita, 22%); Emmanuel Macron (direita liberal, 22%); e François Fillon (direita conservadora, 19%).
 
Mesmo antes de se abrirem as urnas, o grande derrotado das eleições é o maior e tradicional partido de esquerda na França, o Partido Socialista.
 
O partido do presidente François Hollande, eleito em 2012 com um discurso de mudanças e crítico da administração Sarkozy. Mas, uma vez no governo, se prestou ao melancólico papel de desdizer tudo que disse na campanha; prometeu emprego e aprovou uma reforma trabalhista que aumentou a jornada de trabalho; dizia-se “adversário do mundo das finanças” e entregou as chaves do ministério da fazenda exatamente a esse atual candidato Macron, diretor do Banco Rothschild. Aplicou o manual do bom aluno do neoliberalismo.
 
Impopular a descer os níveis de um Michel Temer, Hollande desistiu de concorrer à reeleição. A bancarrota da gestão Hollande é tão profunda que o candidato de seu grupo, Manuel Valls, representativo da direita do PS, foi derrotado nas primárias, para surpresa geral, por Benoît Hamon. Jovem, ex-ministro da educação de Hollande que saiu rompido com o governo, Hamon, justiça se faça, até radicalizou o discurso, ensaiou uma viragem programática de reencontro do velho partido com tradições sindicais e neokeynesianas, avesso ao neoliberalismo de Hollande, mas já era tarde. O contágio de pertencer à legenda de Hollande inviabilizou qualquer possibilidade de ascensão.
 
Definitivamente, a contradição da política vem se deslizando para os pólos de direita e de esquerda no mundo.
 
O antigo centro neoliberal, que juntou por trinta anos, em um espaço de revezamento de poder e convivência comum, partidos liberais conservadores e social-democratas – exatamente o espaço de trânsito entre Hollande e Merkel, diga-se de passagem -, esvazia-se a olhos vistos nos países da União Européia e no mundo inteiro.
 
O esvaziamento não aconteceu por acaso: no plano econômico e social, esse espaço de convivência permitiu, para resumir, a consolidação do capitalismo financeiro globalizado, de um lado, e a precarização do trabalho, de outro. O mundo deixou de ser um espaço entre Estados nacionais autônomos e transformou-se num grande mercado.
 
Esse esquema de revezamento no poder entre o liberal conservadorismo e a social-democracia – embora sempre com resultados desastrosos para os trabalhadores – , por outro lado, incluía algumas políticas identitárias e de minorias. É o que ficou conhecido como neoliberalismo progressista.
 
Assim, a gerência do capitalismo se transformou no programa real executado pela maioria da esquerda, rebaixando o horizonte de expectativas. Deixamos de nos diferenciar.
 
Nos tempos de hegemonia do capitalismo financeiro, a margem de manobra da parte dos governos de esquerda passou a ser muito menor que no passado.
 
Desde a eclosão da grande crise do capitalismo em 2008 – ainda em curso – que corre água no bloco histórico do neoliberalismo. As vertentes neofascistas perceberam a questão e passaram a usar um discurso ofensivo e afirmativo.
 
A crítica de extrema direita ao neoliberalismo passou a ser contundente, evidentemente que combinada com chauvinismo e repressão social. Foi assim no Brexit e foi assim – em que pese a extraordinária campanha de Bernie Sanders – nos Estados Unidos com Donald Trump. Contudo, talvez, o avanço de Mélénchon na França, um grande país da Europa e um dos centros de poder capitalista do mundo, possam significar a possibilidade de uma esquerda com transparência programática sair da defensiva e disputar de fato o poder político contra seus adversários, seja o velho neoliberalismo ou a nova direita neofascista.
 
Mélénchon não é um candidato improvisado, nem um outsider.
 
Ele compõe uma articulação de novas construções da esquerda européia, a exemplo do Podemos e Esquerda Unida (Espanha), do Bloco de Esquerda (Portugal), ou mesmo as tentativas de lideranças como Jeremy Corbyn em renovar as práticas do Partido Trabalhista (Inglaterra).
 
Já nas eleições de 2012, Mélénchon obteve 11% dos votos por uma Frente de Esquerda. Agora, a frente chama-se “França Insubimissa”. Há uma linha política por trás do nome: constituir uma maioria popular para além do eleitorado tradicional de esquerda. Parece que vem dando certo.
 
O programa de Mélénchon é radical e sem subterfúgios. É exatamente por falar o que as pessoas querem escutar que sua candidatura cresceu e está às portas do segundo turno. Ela fala abertamente em sair da OTAN. Afirma que um em cada quatro franceses são filhos de imigrantes e o país deve continuar de portas aberta a receber refugiados. Propõe-se a reexaminar os contratos que beneficiam o rentismo na União Européia. Diz que a partir da sua eleição a posição da França muda na UE, e que se ela não mudar, o governo da “França Insubmissa” irá até a última consequência de propor a saída do bloco.
 
O passado recente de conciliação da esquerda tradicional está morto. É chegada a hora de abrir um novo ciclo, e no ciclo, uma guinada.
 
De surgir uma esquerda com mais nitidez programática, que fale mais de socialismo. Que seja social e de massas, mas pense mais em termos de economia política, de Estado e de estratégia. A ascensão de Mélénchon aponta neste rumo e pisa no solo fértil da França, um país de tradições revolucionárias e radicais. Como diz o primeiro verso do hino nacional francês, a belíssima e simbólica Marselhesa, “Allons enfants de la Patri” (Avante, filhos da pátria).
 
Lindbergh Farias é Senador pelo PT do Rio.
 
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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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11 Comentários
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  1. Rui Ribeiro

    20 de abril de 2017 4:16 pm

    Fala em socialização dos meios de produção?

    Fala em ditadura do proletariado? Fala em abolição das classes sociais?

    Vai com calma, Lindbergh. Não te deixas levar por retórica.

  2. Des

    20 de abril de 2017 5:01 pm

    Tá precisando ler mais o GGN Lindbergh

    Tivesse lido os posts do Romulus, este texto não seria escrito dessa forma. 

    1. romulus

      20 de abril de 2017 7:19 pm

      Problema é outro

      Ele ta lendo sim

      Nao viu aquela parte encaixando “neoliberalismo progressista”?? rs

      A questao é outra…

       

  3. Maria Luisa

    20 de abril de 2017 5:10 pm

    Que sera, sera…

    A briga entre os quatro primeiros colocados na pesquisa é acirrada e ninguém pode afirmar quais dentre eles ira para o segundo turno. Sinto pelo idealista Benoît Hammon, mas de fato o PS de endireitou por demais. Resta que podemos ter Marina Le Pen e os outros três candidatos no segundo turno. A exceção de Mélenchon, nenhum dos outros fara nada de diferente do que ja vem sendo feito pela trinca europeia. Espero que Mélenchon vença as eleições porque pode ser que mais a frente a França opte realmente pela extrema-direita.

  4. anarquista sério

    20 de abril de 2017 5:31 pm

    Se eu fosse exilado numa ilha

    Se eu fosse exilado numa ilha pra viver  até morte  e tivesse dois pedidos pra ser concedidos,escolheria:

    Mulher e livros. Mas não leitura de 

    Lindbergh Farias que seria um acréscimo de pena.

    Por livros não sei, mas Napoleão fugiu do exílio pelo poder e UMA MULHER.

    1. Rui Ribeiro

      20 de abril de 2017 11:48 pm

      Se eu, exilado numa ilha, tivesse dois pedidos a ser atendidos..

      Se eu fosse exilado numa ilha e tivesse dois pedidos a ser atendidos, o primeiro deles seria o fim do exílio. Acho que na terra do Anarquista Sério não tem palmeiras onde canta o sabiá.

      Além de exilado, o elemento iria pedir para exilar mulheres. Você tem raiva de mulheres?

      Não deseje aos outros o que não queres que façam a ti.

      O meu segundo desejo seria viver em paz comigo mesmo e com todos os seres.

    2. Rui Ribeiro

      21 de abril de 2017 7:04 am

      É muita idiotia para um único ser, francamente

      Numa discussão sobre as eleições na França e o sujeito vem falar do Lindbergh.

      Já pensou se, em vez de fugir do exílio, eu quisesse sequestrar as mulheres prá lã, o que teria acontecido quando, numa certa noite, um bando de cachorros doidos campeavam a região e doidos varridos num bar, nas madrugas, os homens apontam e a gente se manda; Fomos prá outro ponto da City, continuar a chapação num bar de um posto de combu ao lado da Rodò, on de só loucos na madruga. Saio do bar e vou sozinho dar um rolê na Rodô, vê o que tá rolando. Tá ligado, Mermão?

      ermão Então dô de cara com os canas, ó, Bicho, que azar!

      Abordagem na hora. Tu mora aonde: Respondo aqui. Como eu nunca te vi? Problema seu. O quê?

      Tu quer ser preso? Vc é quem manda , Oorridade.

      É, eu não queria não, mas tu tá querendo. Posta os braços. Pois não

      Entra no camburão, sim, Senhor.

      Quando boto uma perna prá dentro, que vou cuidar da outra, lá vem a porta do camburão numa violencia e velocidade estonteante. Por pouco, salvei a pobrezinha. Eles se encostam à viatura e começam a conversar entre si o que farão. Um deles diz: A gente leva ele prá delegacia, dá um pau nele e solta esse vagabundo.

      Nessa hora, te juro, fiquei bonzinho, doido.

      Olhava pela vidraça da viatura e via os Hermanos curtindo, enquanto eu lá naquela situação desesperada, com medo de apanhar. E ninguém parece se dar conta da minha ausência. E o tempo corre, o Sol já começa a dar seus  sinais e eu, finalment desisto. Baixei a cabeça. Depois de um tempo que olho pela vidraça vejo a Mulher passando por trás da viatura, à minha procura, na Rodô. Era minha única chance, tudo ou nada. Vou dar um sinal. Bati com força na vidraçã. Os homens se encolerizaram e, pelo andar da carru, iam me bater ali mesmo, publicamente. A Muljer se aproximou e eles pararam. Ela me perguntou: O que tu tá fazendo aí, hein?

      Eu ia responder como o poeta americano preso por não pagar impostos, o qual, ao ser libertado em virtude de outro poeta ter pago os seus tributos, é indagado pelo seu libertador: O que é que tu tá {sic, tah?} aí dentro?, ele responde, e o que que tu Tá fazendo aí fora?

      Mas antes disso os puliças perguntaram-lhe que era ela e quem era eu. Eles disseram a ela que acharam melhor me guardar porque a situação na Rodôe estava muito perigosa e eu estava naquela situação.

      Resumo, em vez de eu sair daquele exílio eu que fosse querer que a Mulher fosse atraída prá ele?

      Mano, o Bakunin pode vir aqui só te dar um corretivo, não por tu ser idiota, mas por não saber sequer o que é anarquia.

  5. romulus

    20 de abril de 2017 6:12 pm

    Quando a mídia se dará conta de que o Séc. XX já acabou?

    http://www.romulusbr.com/2017/04/alerta-na-franca-e-brasil-quando-midia.html

     

  6. Brnca

    20 de abril de 2017 6:44 pm

    Respire senador!

    Retórica. Eleições na França são coisas muito sérias.O eleitorado não embarca fácil. Melenchon já disputou eleições anteriores, saiu bem com apoio da mídia de centro-esquerda mas… não subiu muito na hora do voto. Nosso nobre deputado deveria se informar melhor sobre as disputas eleitorais francesas, conhecer um pouco melhor o país e suas eleições antes de soltar foguetes. Fizeram e aconteceram com previsões sobre o Podemos. Deu em quê? Lição a ser aprendida e refletida.

  7. romulus

    20 de abril de 2017 9:30 pm

    Eleição na França: Sen. Lindbergh nos leu mas “não” entendeu 😉

    http://www.romulusbr.com/2017/04/eleicao-na-franca-sen-lindbergh-nos-leu.html

  8. jose antonio santosjj

    21 de abril de 2017 6:19 pm

    bom orador

    Independente de concordar ou não ele tem qualidades como politico( ou sera que faltam aos demais?.

    Não foi falado por Lindberg mas ele tem preocupações e soluções dos temas ligados a ecologia.

    Bom orador, fala com clareza, porem os videos são um pouco longos.

     

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