Meu pai
Fico pensando no seguinte: Qual a função de um pai ?
Recordo-me do meu pai, equivocadamente chamado plácido, sempre cuidando mais do todo do que da parte, ativamente crítico, consertador das coisas e do mundo fosse uma árvore, um exercício de álgebra ou de geometria, um ferro de passar roupa, um cano, um chuveiro, uma torneira, um sistema desigual de trabalho e de remuneração, uma forma de conceder um benefício, um jeito de ser sindicalizadamente mais completo … cada vez mais nas ruas do que em casa, sempre indo a reuniões, lutando por direitos legais de fato.
Recordo-me da importância que dava aos estudos, a falar e escrever bem, à informação- não a do “jornal carioca americano ainda que escrito em português”- ao alerta sempre preciso à arrecadação monstruosa do Criança Esperança e à falta de prestação de contas daquela emissora e, ainda mais, da observação, já lá na década de setenta, da velocidade das notícias dadas pelo novíssimo Jornal Nacional, sem deixar que as pessoas ouvissem e refletissem sobre elas…
Recordo-me da alegria do seu comparecimento a reuniões de pais e mestres, quando só ele ia – como pai no meio a tantas e tantas mães – e do orgulho dele ao saber das notas e do comportamento dos filhos, sempre valorizando a escola e os professores.
Recordo-me da sua ensinança diária do pouco luxo, da necessidade de dividir com todos, da importância de não se querer ter e nem lutar para ter tudo em demasia, porque tudo em demasia não nos faria falta nunca.
Recordo-me de sua luta, luta mesmo, para que estudássemos em escolas públicas de qualidade e que, sem vagas, muitas vezes fosse no Pedro II, fosse na UFRJ, na década de sessenta, lutava por bolsas de estudo em Universidade privada de qualidade e escola particular de qualidade também. Para isso garantia que tiraríamos as melhores notas, sem segunda época, nem reprovações. E foi assim. Nunca pagamos por escola, nem universidade.
Recordo-me de que quando entrei na USP e lhe telefonei comunicando, ele me disse que se orgulhava cada vez mais de mim. Bem mais tarde o trouxe para conhecer a USP- no mesmo ano de sua morte- e sua admiração por todos aqueles prédios e todo aquele ensino ser público foi inesquecível . Pude ver naquele rosto maltratado por um enfisema pulmonar- sem jamais ter fumado- e, apesar de cansado, com uma perna inchada, a vontade de continuar caminhando no campus e se orgulhando cada vez mais, não apenas de mim, mas da possibilidade de tudo aquilo poder ser público e de filhos de operários poderem estudar ou terem estudado ali.
Recordo-me das enormes polêmicas que tivemos sobre o governo de Getúlio Vargas e sobre os presidentes e governadores mineiros. Nunca conheci ninguém tão carregado de amor por aquelas montanhas mineiras, por Tiradentes, personagem histórico, por Tiradentes cidade e por Barbacena. Levou anos pesquisando a origem do nome da cidade, não se conformando de ser por causa do vil Visconde de Barbacena, recusava-se a acreditar naquilo e queria recolorir a história, do jeito que pudesse.
Recordo-me das centenas de cartas que enviava aos políticos cobrando-lhes reformas, lidando sempre com números, com dados históricos, estatísticos etc. dissertando e ao mesmo tempo interpelando-os sobre suas atitudes. A despeito de gastar muito de sua aposentadoria com selos, envelopes e papel de carta e das reclamações de minha mãe, sempre puxando-o para a terra e querendo impedi-lo de viver de sonhos, pois para ela jamais seria atendido em suas reivindicações. Provou muitas vezes a todos nós que o foi sim, inclusive com a famosa passarela na frente da Rodoviária Novo Rio- assim chamada antes- há décadas pleiteada por ele aos governantes cariocas. Fazia isso, devido aos inúmeros acidentes registrados diariamente ali.
Recordo-me dos orelhões requisitados para inúmeros bairros do Rio de Janeiro, até porque “telefone é só rico que tem e pobre também precisa falar no telefone, né”.
Recordo-me de que, estudioso e sempre aprendiz das técnicas agrícolas (- aprendidas na famosíssima Escola Técnica Agrícola de Barbacena, nas décadas de vinte e trinta) saía pelas manhãs com martelo, prego, madeira, enxadinha e outros apetrechos para “consertar o mundo por aí” e refazia canteirinhos pelas ruas da cidade, colocando suportes para erguer arbustos decaídos ou quase mortos e os regava também, pedindo água a comerciantes de ao redor.
Recordo-me da dificuldade de receber qualquer presente de filhos, pois para ele o dinheiro dos filhos era dos filhos e não dos pais. Incentivava a independência de todos e a busca de seus caminhos e não se omitia de censurá-los quando de seus erros, dizendo que não era por ser pai que haveria de passar a mão em suas cabeças. Orientava e demonstrava seus pontos de vista – mesmo que não concordássemos com eles – sempre de forma transparente, a qual certas vezes nos parecia cruel, porém jamais restando qualquer duplo vínculo ou incerteza – por omissão- por parte de meu pai.
Recordo-me do carinho com os netos todos, confeccionando carrinhos de carreteis e outras gracinhas de suas próprias habilidades que eram diferenciadas e muitíssimas. Brincava com eles e os fazia dormir em seu colo, quando difícil, entoando sua famosa cantilena. Nenhum resistia. Quando começavam a crescer em meses, enfiava-lhes goela abaixo boas colheradas de arroz e feijão preto para que ficassem com a boca suja e ria disso, além de lhes dar um bom pedaço de bife para ficarem horas e horas chupando a carne, “é bom pra coçar gengivas e dentes em erupção”, contra as reclamações de filhas e de noras zelosas que não queriam essas coisas com seus filhotes, por educação novissimamente estudada. Gostava de afiar ferramentas – dessas que crianças ganham só de brinca não à vera – e ensinar a usar serrotinho, chavinha de fenda, torninho, como parafusar e desparafusar, como usar alicatinho, reguinha T, e mais coisinhas outras de doçuras e afetos e depois ficar só “apreciando as crianças brincarem” a demonstrarem o quão inteligentes eram, “ puxou o avô” arrematava ele.
Recordo-me ainda, porque os tenho aqui guardados em papel e na memória, seus pedidos de desculpas a muitos em especial e a todos em geral, em letra e voz tremidas quando dos seus últimos dias de hospital. Aquela vaidade por sua criticidade e transparência ácidas, aquela incontinência verbal e quase irrefutável de opiniões, aquela beligerância contra a rasteira que Collor dera em sua esperança, em sua crença em um país democrático e melhor desfaleciam agora e o deixavam daquele jeito assim de voz e letra trêmulas, caminhando para o fim, no dia dezessete de junho de noventa e três.
Se meu pai está onde está, sei que continua fazendo canteiros e reciclando as vidas.
Sua função: ESPELHO, assim maiúsculo.
Peço todos os dias que eu não o tenha envergonhado como filha e que SEU ESPELHO ESTEJA SEMPRE REFLETINDO EM MIM.
Odonir Oliveira
Anna Dutra
7 de maio de 2015 12:15 pmNossos pais…
Odonir, Odonir…
Pungente e caloroso!
Obrigada por compartilhar conosco.
Odonir Oliveira
7 de maio de 2015 2:56 pm“É preciso dividir”
Anna, cresci ouvindo essa frase e publicar pela 2ª vez no Blog, é também dividir meu pai com quem me lê. Hoje ele faria 97 anos se vivo estivesse.
Em agosto de 2013 , Nassif o publicou no dia dos pais, e foi muito bom ler os comentários das pessoas que também se lembraram dos seus pais.
Abraços rimados.