5 de junho de 2026

A guerra do império contra a realidade, por Fábio de Oliveira Ribeiro

É tentador comparar a queda dos EUA à queda de Roma. Todavia, me parece evidente que a religião não desempenhou o mesmo papel nos dois casos.

A guerra do império contra a realidade

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por Fábio de Oliveira Ribeiro

China e Rússia divulgaram um comunicado afirmando que países superiores não existem. O Secretário de Estado dos EUA disse que ambos desafiam a ordem internacional.

É evidente que Antony Blinken pressupõe uma superioridade que não existe ou que deixou de existir. Os chineses são credores dos norte-americanos, a Rússia não deve absolutamente nada aos EUA.

Ao tentar impor a hegemonia do dólar mediante sanções, a única coisa que a Casa Branca conseguiu foi provocar a valorização da moeda russa e uma lenta, gradual e segura desdolarização da economia mundial. O impacto da realidade na economia dos EUA será imenso, pois há décadas os norte-americanos enriquecem reciclando excedentes econômicos em dólar. O declínio da moeda dos EUA será o último prego no caixão do neoliberalismo? Bem… é difícil adivinhar o futuro.

Há dois séculos ninguém imaginava que a Inglaterra deixaria de ser um poderoso império colonial. Há um século seria impossível imaginar que o Japão e a Alemanha seriam totalmente devastados durante a II Guerra Mundial e ressurgiriam das cinzas como potências econômicas pacíficas. Os norte-americanos parecem acreditar que construíram um império planetário invencível. Eles obviamente podem estar enganados. E aqui nós chegamos ao ponto em que é preciso citar um livro importante.

“Um ‘consultor sênior’ de Bush, cujo nome não foi revelado, declarou recentemente ao jornalista Ron Suskind que pessoas como Suskind eram membros ‘do que nós chamamos de comunidade baseada na realidade’: aqueles que ‘acreditam que as soluções emergem do estudo judicioso da realidade discernível’. Contudo, ele explicou, ‘esta não é mais a forma através da qual o mundo realmente funciona. Nós somos um império agora e, quando agimos, criamos nossa própria realidade. E, enquanto você estiver estudando esta realidade […] agiremos mais uma vez, criando outras novas realidades, que você poderá analisar também, e é assim que se organizam as coisas. Somos os atores da história, e você, todos vocês, serão encarregados apenas de estudar o que fazemos’.” (Crônicas da era Bush – o que ouvi sobre o Iraque, Eliott Weinberger, editora Record, Rio de Janeiro-São Paulo, 2006, p. 199)

Esse fragmento se conecta com outro ainda mais eloquente:

“Ouvi o sargento do Exército Craig Patrick, que estava treinando soldados iraquianos dizer, ‘É tudo questão de percepção, convencer a opinião pública americana de que tudo está indo de acordo com o planejado e que no momento certo sairemos daqui. Quer dizer, eles podem enrolar o povo americano, mas não podem nos enganar’.” (Crônicas da era Bush – o que ouvi sobre o Iraque, Eliott Weinberger, editora Record, Rio de Janeiro-São Paulo, 2006, p. 264)

Há um mal estar evidente entre os militares e os governantes dos EUA. Enquanto estes parecem inclinados a recorrer à força bruta contra China e Rússia, aqueles sabem que uma guerra dessas proporções somente poderá resultar em derrota dos EUA ou, o que é pior, evoluir rapidamente para um confronto nuclear de proporções cataclísmicas em que não haverá vitoriosos. Biden e Blinken, porém, não podem desistir da encenação. A estabilidade política norte-americana depende de ambos demonstrarem uma supremacia que não existe mais ou que não pode ser exercita em o risco de Washington ser transformada numa pilha d escombros radioativos.

É tentador comparar a queda dos EUA à queda de Roma. Todavia, me parece evidente que a religião não desempenhou o mesmo papel nos dois casos. Enquanto o cristianismo teria civilizado e amolecido os romanos (tese defendida por alguns historiadores), a versão do cristianismo praticada nos EUA endureceu e transformou os norte-americanos em bárbaros sedentos de sangue que frequentam armados igrejas cujos pastores pregam a santificação das armas de fogo.

Até o presente momento, os militares norte-americanos não se deixaram enganar. Todavia, a paciência do Kremlin pode acabar se esgotando. As sanções provocam instabilidade política e prejuízos econômicos na Rússia. Mais cautelosos, os chineses tentam pacificar o mundo se recusando a flexionar seus músculos. Ontem, a Alemanha anunciou a nacionalização temporária da subsidiária alemã de uma empresa de energia russa. O Kremlin será obrigado a reagir.

Nesse ambiente tóxico de sanções e reações o espaço para a pacificação da Ucrânia parece quase impossível.  Isso para não mencionar os lucros privados que a doação de armamentos feitas aos ucranianos pelos EUA e por países europeus representam para os fabricantes daqueles produtos. E enquanto o mundo luta para sair desse labirinto diplomático, a crise climática silenciosamente vai se aprofundando e causando prejuízos maiores aqueles que são mais pobres.

Nenhum império foi capaz de construir sua própria realidade por muito tempo. Inglaterra, França, Espanha, Portugal, Alemanha, Rússia e China, para citar apenas alguns países, já passaram por períodos de imensa glória e de declínio político, militar e econômico. A decadência dos EUA está ficando mais e mais visível nas ruas das principais cidades daquele país. Mas os governantes do império se recusam a ver o óbvio. Eles estão em guerra contra tudo aquilo que pode ser considerado real. Isso fica evidente quando vemos Joe Biden e Antony Blinken discursando como se tivessem sido designados por Deus para comandar os destinos do planeta, do espaço e do além. Ambos são prisioneiros de uma realidade mágica neurótica que só existe dentro da bolha que eles mesmos criaram.

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

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Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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3 Comentários
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  1. Christian Fernandes

    5 de abril de 2022 11:49 am

    A “solução” americana é a do dono da bola: quando o jogo vira, eles explodem o máximo de pessoas mundo afora.

  2. SIRLENE COLLA

    5 de abril de 2022 6:12 pm

    qual imperio ? o Russo ou o Chinês ?

  3. FABIO COLLA DE ANDRADE

    6 de abril de 2022 1:12 am

    Mais um texto de uma viúva da união soviética que não se atentou que o muro caiu em 89 e a URSS foi pulverizada da face da terra em 1991,

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