4 de junho de 2026

Dólar, ideologia e economia

Decidi retomar este texto que escrevi no início do ano em razão de uma notícia recente https://www.rt.com/business/322879-ruble-goldman-sachs-currency/. A análise feita pelo Goldman Sachs hoje confirmou a avaliação que eu havia feito do grande potencial lucrativo da moeda russa. Meu texto passou despercebido e nem mesmo foi destacado no GGN. Melhor assim, várias pessoas deixaram de ganhar dinheiro. Azar delas. De resto não vejo porque mudar uma só palavra do que escrevi.

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Economia deveria ser uma atividade racional. Mas não é. A prova empírica desta conclusão é dada pelo dólar.

Desde a década de 1970 a moeda norte-americana não tem lastro em ouro. Portanto, o dólar é um papel moeda auto-referente, que expressa mais ideologia do que valor. O único valor agregado ao dólar é a existência de uma máquina de guerra imperial capaz de impor a vontade dos EUA fora do país. Mas a vontade soberana da Casa Branca encontra limites onde quer que exista uma potência militar  capaz de ferir mortalmente os EUA com centenas de bombas de hidrogênio e milhares de bombas atômicas.

Funny money… era assim que os soldados Aliados chamavam a moeda impressa às pressas para circular na Alemanha ocupada. No setor soviético o dinheiro era outro e igualmente engraçado.

O dólar ancorado no ouro foi a moeda internacional ocidental no pós-guerra. Agora ele mesmo é uma espécie de funny money e isto explica o porque os EUA tem que estar constantemente em guerra. No dia em que parar de impor sua vontade à força ou ter suas forças armadas destruídas, o dólar deixará de ser engraçado e perderá totalmente seu valor. Portanto, as pessoas deveriam pensar duas vezes antes de transformar suas economias em dólar. Do ponto de vista estritamente econômico, há décadas é suicídio econômico considerar a moeda dos EUA uma reserva de valor confiável.

A ideologia, porém, é mais forte que a racionalidade econômica. Os brasileiros são devoradores de dólar que detestam a variação cambial da moeda norte-americana. Quando o preço dólar cai os americanófilos ficam felizes porque podem ir para Miami passear e fazer compras, mas os exportadores se afundam na depressão psicológica e econômica (não necessariamente nesta ordem). Quando a moeda norte-americana sobe, os exportadores ficam eufóricos, mas os turistas reclamam que não podem viajar por causa do preço proibitivo das passagens aéreas e das acomodações nos EUA.

Nossa moeda é o real, mas realmente a única coisa que interessa aos ideologizados agentes econômicos brasileiros é o dólar. Como os soldados Aliados na Alemanha ocupada eles acreditam no  funny money e ficam tristes quando não podem participar da festa.

A dependência da civilização atual do petróleo transformou este produto numa outra referência de valor e, por isto mesmo, ele é chamado de ouro negro. Os EUA esgotaram suas reservas do produto e compram petróleo no exterior. A Rússia tem imensas reservas petrolíferas e, prevendo o colapso do funny money  impresso pelos norte-americanos, está comprando ouro. Do ponto de vista econômico, neste momento o rublo é a moeda mais promissora, pois ficará escorada em duas reservas de valor (petróleo e ouro). A capacidade militar dos russos de defender seus interesses também milita em favor de sua moeda.

O Brasil tem reservas em dólar, mas não deposita todas suas esperanças no funny money  norte-americano. A união monetária dos BRICS sugere que, levando em conta o longo prazo, nosso país olha o futuro com mais cuidado do que os devoradores de dólares brasileiros, quer eles sejam turistas quer sejam exportadores. O pré-sal é um recurso importante. Não pode ser desperdiçado, nem entregue aos norte-americanos como querem os amantes do dinheiro engraçado que irriga as contas-correntes de vários deputados e senadores da oposição.

Quem quiser cuidar de seus interesses levando em conta apenas e tão somente os critérios econômicos não apostará no dólar. O rublo e o real são apostas bem melhores. 

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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